Americanah: uma história de amor e a questão racial

Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance entre o amor e a questão racial

Americanah é o mais recente romance da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie publicado no Brasil pela Companhia das letras. Foi eleito como um dos 10 melhores livros do ano pela NYTimes Book Review e venceu o prêmio National Book Critics Circle Award. E a pergunta que não quer calar é: o que há de tão especial nesta obra literária nigeriana?

Muitos críticos e leitores de Americanah dizem que esta é uma obra carregada de uma história de amor implacável que permeia a Nigéria, os Estados Unidos e a Inglaterra; que se trata de uma história de amor épica a qual nos mantém presos do início ao fim  lembremos que o livro tem mais de 500 páginas. No entanto, há aqueles que dizem não se tratar apenas de uma bela e curiosa história de amor, mas de um livro que olha para a questão racial e faz crítica social.

Dizer que a obra se reduz a apenas uma bela história de amor é olhar para apenas 50% de Americanah. Nessa história amorosa, a questão racial está presente do início ao fim. Como relatou o Los Angeles Times, a obra é “Em parte história de amor, em parte crítica social”.

 

O amor e a questão racial

Os personagens principais da obra são Ifemelu (Ifem) e Obinze (Teto); os dois vivem seu amor, jovens, na Nigéria, em um período em que o país enfrenta um terrível regime militar. Com as universidades paralisadas por conta de greves, Ifem vai para os Estados Unidos, destaca-se como acadêmica, mas, ao mesmo tempo, depara-se com a questão racial. Obinze não consegue ir encontrá-la porque, depois do 11 de setembro, as portas do país foram fechadas para estrangeiros.

Na Nigéria, Ifem nunca tinha se dado conta de que era negra, pois lá todos eram negros. Ao aterrissar nos EUA, percebeu o branqueamento do país e só então se deu conta de que era negra. Teve de enfrentar dissabores por ser imigrante, mulher e, acima de tudo, negra em um país de muitos brancos.

Como imigrante, Ifem não conseguia emprego no país logo que chegou e, em função disso, suas contas começaram a se acumular. Resolveu, então, ir à casa de um homem que contratava moças para que pudesse sentir contato da pele humana e se “desestressar”, digamos assim. Ao chegar lá, Ifem tirou a roupa e fez o que o homem pediu, mas depois disso sentiu ódio de si mesma e do homem, sentiu-se traída e sentiu que traiu Obinze, então decide cortar contato com ele.

Nos trens e em diversos locais, Ifem percebia que a quantidade de negros era pouca e que a caminho dos bairros mais pobres, mais negros apareciam, seja nos vagões, seja nas ruas. E, entre eles, era como se existisse uma espécie de irmandade. No entanto, ainda assim, havia uma espécie de segregação entre os negros americanos e não americanos.

Em um relacionamento com um rico branco, loiro e de olhos claros, Ifem percebia como as mulheres a olhavam quando os dois passeavam de mãos dadas, porque embora fosse bela, era vista como “diferente”. Em diversos locais, era vista como uma espécie de joia rara negra, que atingiu um status que poucos negros alcançam; nos restaurantes que frequentava não havia negros, a não ser os funcionários.

Teve problemas, ainda, com seu cabelo afro. Quando o namorado branco a ajudou a conseguir uma entrevista para uma boa vaga de emprego que lhe daria um visto permanente, alisou o cabelo na esperança de que isso a ajudaria a ser aceita na empresa. Foi contratada; porém, o alisamento começou a provocar feridas em sua cabeça. Após isso, Ifem deixou seu cabelo natural voltar, o que provocou olhares e a fez pensar que seria até mesmo demitida. Certa vez, foi a um salão cuidar das sobrancelhas e uma mulher se negou a atendê-la, a justificativa era o fato de que não cuidavam de pelos “afros”, como se pelos de sobrancelha fossem tão crespos quanto os cabelos. Sua pele negra, seu cabelo natural e seu relacionamento com um branco eram constantemente julgados pelos americanos brancos.

Inúmeras experiências vivenciadas por Ifem e observações que fazia sobre os negros nos Estados Unidos fizeram com que ela criasse um blog para falar da questão racial no país, focando tanto nos negros americanos quanto nos negros não americanos. Seu blog fez sucesso e a faz uma aclamada blogueira que reflete sobre a dia a dia dos negros, sobretudo os africanos na América. Foi convidada para palestrar em inúmeros eventos e conheceu outros africanos no país que pensavam como ela. O blog foi, também, uma forma de não se desprender de sua terra natal, de não afrouxar o ligamento entre Ifem e a Nigéria.

Ifem, mesmo depois de famosa, mesmo depois de ter um bom emprego, um visto e outros relacionamentos, quis voltar à Nigéria. E quando pensou nisso, quis procurar Obinze, pois nunca conseguiu esquecê-lo completamente; descobriu, então, que ele tocara sua vida e já tinha constituído uma família.

Ao voltar ao seu país, a personagem se sente como se não fosse mais negra, não por vergonha de sua pele ou por voltar “americanizada”, mas por estar em um local onde todos são negros e tudo é mais familiar. No entanto, ela percebe que aquele não é mais o país que deixara, que teria de (re)conhecê-lo, (re)descobri-lo. Ifem passa a ver tudo com outros olhos, percebe o quanto sua cidade é suja, como os comerciantes são mal educados e como a arquitetura não lhe agrada. Ainda assim, sente-se acolhida, em casa, sendo apenas ela e não uma imigrante, negra e nigeriana.

Estar tão perto de Obinze faz com que Ifem pense em vê-lo em inúmeros momentos, procura-o pelas ruas. Ao se aproximarem, como velhos amigos que foram namorados quando jovens, ambos percebem que o amor não morreu e o quanto ele é avassalador ainda. No entanto, Obinze é casado, tem filhos e Ifemelu tem de encontrar um lugar em sua vida de forma não alarmante.

 

americanahBreves considerações

Os caminhos percorridos por Ifem na América são todos permeados por questões de raça: na faculdade, nos relacionamentos, no trabalho, nos locais que frequentava. E Ifem era muito atenta a isso, em seu blog relatava as mais diversas histórias sobre africanos nos Estados Unidos e tudo o que passavam no dia a dia, pois não eram, na maioria dos casos, apenas estrangeiros, eram africanos negros e imigrantes na terra de brancos.

O romance nigeriano de Chimamanda não faz o gênero panfletário e altamente político, que discute explicitamente a questão racial. Tudo é posto de forma sutil e é permeado por nuances. A personagem Ifem, embora tivesse um blog que discutia a situação dos africanos na América, parece não se dar conta da importância que seu blog tem para os demais negros e a dimensão que ele atinge. Americanah faz, sim, crítica social, mas de forma sábia, olhando para a questão racial de vários ângulos.

O amor entre Ifem e Obinze também permeia o romance todo, ele faz um giro por três países: a Nigéria, os Estados Unidos e a Inglaterra, país em que Obinze esteve durante um tempo. E, embora distantes, passando por inúmeras situações como imigrantes, os dois nunca se esqueceram. Retornam à terra natal e se reencontram.

A escritora mostra, mais uma vez, sua empatia pela causa racial  de forma crítica e inteligente  e  pelo amor. Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um livro necessário no cenário da literatura mundial.

Estela Santos Autor

Colaboradora do Homo Literatus, professora, mestra em Letras - Estudos Literários e mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela