Anais Nïn: A escrita subversiva da paixão e do erotismo

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Em seus diários e romances, Anais Nïn sintetizou a busca individual e coletiva das mulheres da sua época – além do seu longo e duradouro relacionamento com Henry Miller.

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Anais Nïn e Henry Miller

Em 1903, nas cercanias de Paris, nascia Anais Nin, filha de um músico cubano e de uma cantora franco-dinamarquesa. Aos 11 anos, com a separação dos pais, a menina muda-se com a mãe e o irmão para Nova Iorque. Aos 20 anos resolve retomar a sua vida na Europa, trabalhando como modelo para pintores das rodas boêmias parisiense. É na Cidade Luz que a francesa – casada com um alto funcionário do National City Bank, Hugh Guiler – conhece seu amigo e amante, Henry Miller. Os dois encontram-se em 1931, na periferia da capital. No primeiro contato, Anais oferece a Henry um ensaio de sua autoria: D.H. Lawrence: An Unprofessional Study, essa foi a publicação de estréia da autora. Segundo ela, D.H. Lawrence a tirara de um longo período de hibernação:

Os sintomas de hibernação se reconhecem facilmente: primeiro a agitação. O segundo sintoma (quando a hibernação se torna perigosa e pode levar à morte): ausência de prazer. É tudo. Ela aparece como uma doença inofensiva. Monotonia. Tédio. Morte. Milhões vivem assim (ou morrem assim) sem o saber. Eles trabalham em seus escritórios. Dirigem um carro. Fazem piqueniques com a família. Educam seus filhos. Acontece então um tratamento de choque, uma pessoa, um livro, uma canção, e isso os desperta e os salva da morte. (página 90)

Em troca, Henry Miller, um nova-iorquino nascido no Brooklin e radicado na capital francesa, deu a Anais uma resenha que havia escrito sobre o filme de Buñuel, L’Âge d’or. Apesar de serem casados, ela com o banqueiro, ele com June Mansfield, a relação dos dois se intensifica: da esfera intelectual intensa, nasce a simetria amorosa. No ensaio A Paixão Literária de Anais Nin e Henry Miller, de Noel Riley Fitch, há uma passagem que fala sobre o estilo de vida de Henry e sobre o impacto e a influência que o mesmo causou na produção literária de Anais. Lê-se:

Ele lhe ensinou sobre o outro lado da vida – prostitutas, bordéis, sexo oral, os pobres de Paris (“Andei pela rua em que Henry me ensinou a amar”, registrou em seu diário). Ele a apresentou a Lawrence Durrel e ao mundo literário de Montparnasse, ampliou sua vida social, que se reduzia praticamente ao mundo dos concertos franco-cubanos e ao banco de seu marido. A leitura de seu diário inexpurgado deixa clara a mudança de sua linguagem, desde a linguagem do século XIX do idealismo romântico até a introdução gradual do termos sexuais explícitos. Miller aconselhou-a a fluir com a vida, e ela tentou, pois admirava sua liberdade, amoralidade e sua capacidade de destruição. (página 140)

Henry_Miller_1940Foi Miller quem incentivou a autora a publicar seus diários, escritos desde a adolescência, para preencher a ausência que sentia do pai. O amigo-amante via em suas confidências uma incrível capacidade de Anais de escrever sobre si mesma, além de versar sobre a busca e as angústias de todas as mulheres daquele tempo; uma busca individual e coletiva de autonomia feminina. Esses relatos, de tom confessional, somam mais de 14 mil páginas A partir dos diários, “desenhava-se”, mesmo sem querer, um retrato social, histórico e político de Paris do início do século XX. Anais, com muita destreza, tornava sua vida privada em algo público. Seus diários – “a fonte primitiva de seus livros”- foram publicados entre 1966 a 1971. Com uma inigualável capacidade de centrar a narração em torno de sua figura, muitas pessoas consideravam-na uma mulher narcisista. O escritor Gore Vidal, amigo e personagem de suas confissões, sobre este aspecto, defende a autora. Segundo Gore, ele desconhecia qualquer escritor moderno que não fosse narcisista. Em seu artigo O Quarto Diário de Anais Nin, o crítico diz:

Há dois tipos de narcisistas: os objetivos e os subjetivos. Os objetivos olham-se no espelho e veem as rugas, veem a morte em seu rosto e registram-na. Os subjetivos olham-se enlevados no espelho, têm uma visão que mais ninguém pode ver,e, quando não são dotados de grande capacidade artística, não conseguem absolutamente comunicá-la. Em seus melhores momentos, Anais Nin sabe escrever muito bem, sem dúvida. De repente uma frase cintila na página: ela percebe as coisas, é o que se conclui, e passa-se para a linha seguinte; aí a terrível sequência de adjetivos começa, e a gente percebe que ela não está vendo: está escrevendo. Como não é boba, percebe as próprias limitações, embora, como todos nós, as considere com afeto. (página 138)

Na citação, Gore Vidal chama a atenção para algo que considera um problema estético na obra de Anais Nin: o uso o excessivo de adjetivos em seus textos. Ainda sobre os diários, Gore afirma que Anais, ao mencionar pessoas reais, tornava-as irreconhecíveis; o reconhecimento só era possível devido a rotulação dada pela escritora à pessoa aludida em seus relatos. A obra literária da autora, porém, não se resume apenas às suas confissões: Anais escreveu críticas, artigos, ficções. Dentre seus romances, destaca-se Delta de Vênus, um livro considerado literariamente menor; mesmo assim, de inquestionável importância, por ser vanguardista e corajoso, por falar abertamente de sexo, sem perder de vista um possível enredo poético. No prefácio da obra, Anais Nin não esconde que seus contos eróticos foram feitos com o objetivo de ganhar dinheiro. Conforme diz a autora, o homem que encomendara tais histórias lhe pedia mais sexo e menos romance. Anais com seus contos eróticos foi transgressora, fez de sua literatura uma “orquestração de todos os sentidos.” Delta de Vênus é composto por 15 contos, uns longos, outros nem tanto; a maioria deles é narrado em terceira pessoa. O tema erótico transita por várias vertentes: iniciação sexual, homossexualismo, fetichismo e, até mesmo, algumas parafilias. O livro transforma o leitor em um voyeur em potencial. Para Anais Nin, era preciso criar um mundo interior, um refúgio do que é exterior, o que ela chamava de “laboratório da alma”, enfim, a base de sua Literatura:

Não podemos escapar da História, porque precisamos manter nossas responsabilidades para com a sociedade; mas temos de criar um centro interior de força e resistência às desilusões e fracassos provenientes dos acontecimentos exteriores. Hoje luto por causas que considero válidas, mas que valem parte do mundo da ação, enquanto o mundo de onde tiramos nossa sabedoria, nossa lucidez, nossa capacidade de agir e nossa coragem é esse outro mundo, que não constituiu um refúgio, mas um laboratório da alma. (página 93)

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Se até o século XX faltava à mulher a independência e o direito de escrever o que quisesse, se faltava uma visão e uma escrita do ponto de vista feminino para falar sobre experiências de paixão e erotismo, o silêncio finda com Anais Nin. Foi dela a voz destemida e ousada que transgrediu o preconceito de seu e de todos os tempos.