Andemos de mãos dadas com Drummond

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Veja por que Drummond e seu poema Mãos dadas ainda fazem tanto sentido

Carlos-Drummond-de-Andrade

Em uma sociedade cada vez mais individualista, andar de mãos dadas pode ser o fim.

O poema Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, foi publicado no livro Sentimento do Mundo (1940). Retratado no contexto histórico de uma civilização desleal e cada vez mais destruída pela busca do poder político e econômico das duas grandes guerras (1914-1918; 1939-1945), a obra é um alicerce para entendimento e a crítica do sofrimento e desigualdade no mundo.

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Já no Brasil, o período compreendido entre 1894 e 1930, tornou-se, seja na revisão do poder da política do café com leite, de Minas Gerais e São Paulo no período da República Velha; na Guerra de Canudos, na Bahia; os jagunços no Ceará e o tenentismo na coluna prestes, a estrutura necessária para a abertura da realidade vivida pelo país e consequentemente a inspiração para muitos artistas, como Drummond, que buscavam na técnica da experiência poética e literária, o outdoor da denúncia social.

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Buscar o que parece ser melhor é típico da vida de qualquer ser humano. Conseguir o melhor emprego, a melhor casa, o melhor carro, encontrar o que nos traz prazer. Ao mesmo tempo, nos esquecemos facilmente da dignidade humana, da valorização de nossos próprias capacidades e virtudes. Assim como na guerra fria, não temos um combate armado direto entre as grandes potências, mas sim a autodestruição dos mais fracos, fantoches de uma vida fadada ao esquecimento e a exploração.

Mãos dadas segue o curso natural entre a necessidade de solidariedade e a esperança que ainda é uma forte chama, e está acessa lá no fim do túnel. A literatura é vista neste contexto, como algo verdadeiramente importante pra a compreensão do mundo, um meio de comunicar pessoas e defender ideias.

A construção corrosiva e precisa de Sentimento do Mundo, demostra a consciência de um eu lírico juiz de suas escolhas e aberto para a realidade que o cerca. Mãos Dadas é um claro exemplo da crítica Modernista ao Romantismo, como podemos ver nos seguintes versos:

Não serei o poeta de um mundo caduco. [1]
Também não cantarei o mundo futuro. [2]
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, [3]
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela, [4]
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas, [5]
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. [6]

1. Crítica ao romantismo, que valorizava o passado.
2. Crítica ao futurismo, a valorização de expectativas futuras.
* Ambos os versos demonstram a vontade de sair de extremos, na busca da valorização do tempo presente.
3. Crítica ao romantismo, que enaltecia a imagem da mulher inalcançável.
4. A palavra suspiro remete a obra que deu início ao romantismo no Brasil: Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães. A valorização da natureza perfeita (“a paisagem vista pela janela”), característica romântica.
5. Refere-se à geração Mal-do-Século, que utilizava de um sentimentalismo profundo em suas obras. Foi responsável pelo suicídio de muitos jovens, como na influência do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. O poeta se recusa a usar a morte com solução para os problemas, fugindo dos ideais românticos do passado.
6. As ilhas que o separam do resto do mundo, os extremos criados na sociedade. A ilusão criada como forma de driblar o medo e a perda de controle.

A poesia de Drummond é construída através de fragmentos de uma problema humano: o afastamento da realidade, sendo ela social ou emocional. Advertindo sobre a necessidade de permanecermos de mãos dadas diante dos obstáculos, agarrando o concreto para a compreensão do mundo, o autor modela sua própria concepção do tempo. Formando assim, a consciência poética de Mãos Dadas, um texto que possui vida própria e pensa por si.