André de Leones resenha seu conto predileto: ‘The killers’, de Ernest Hemingway

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Foto-Leones-PBLi The killers pela primeira vez aos quinze anos de idade. Traduzido como Os assassinos por Hélio Polvora, constava de uma edição da extinta Artenova intitulada As Aventuras de Nick Adams. Esse personagem marca presença em vários contos de Hemingway; são vinte e quatro os reunidos no volume, e eles caracterizam Nick como uma espécie de alter ego do Papa Hemingway. Perdi a conta de quantas vezes emprestei As Aventuras de Nick Adams da biblioteca pública de Silvânia. Infelizmente, não tenho comigo um exemplar desse livro (devia tê-lo furtado, não?), esgotado há muito tempo. Nunca esbarrei nele pelos sebos. Assim, para escrever este texto, recorri à edição The Complete Short Stories of Ernest Hemingway, da Scribner.

O que mais me impressiona em The killers é a maneira como uma situação das mais tensas é construída para, ao final, ser “abandonada”. Resumindo o que acontece, dois sujeitos irrompem num restaurante, na cidadezinha de Summit, New Jersey. Eles destratam quem encontram por lá (incluindo Adams) e deixam bem claro estar à espera de um ex-boxeador conhecido como Sueco, que jantaria ali todas as noites. “Vamos matar o Sueco”, diz um deles. O leitor não é informado sobre as razões da morte anunciada, exceto que os assassinos, egressos de Chicago, estariam fazendo um favor a um amigo. Quando o Sueco não aparece, eles vão embora. Adams, então, vai avisá-lo na pensão onde vive. Encontra o Sueco deitado na cama, completamente vestido, como se esperasse por alguém. Ao contar o que aconteceu, é surpreendido pela inação do outro: “Não tem nada que eu possa fazer a respeito”, diz o Sueco. Ele não fugirá da cidade. Não procurará a polícia. Ficará ali, à espera.

Ao terminar o conto abruptamente, sem “explicar” as razões pelas quais o Sueco é perseguido e tampouco por que ele se recusa a tomar uma atitude (ele parece apenas de saco cheio de fugir), e prescindindo de narrar o que parece óbvio (o assassinato), Hemingway constrói uma obra-prima tão tensa quanto sugestiva. O foco deixa de estar nos prováveis desdobramentos da história, os quais seriam explorados em qualquer narrativa convencional, e passa a ser a trágica inevitabilidade que a anima. O cansaço do Sueco tem ecos quase metafísicos – mesmo que eu fuja, parece dizer, eles vão me encontrar de novo; logo, para que fugir?

Pela violência dos diálogos, pela aridez da narração, pelo incontornável de sua tragicidade e pela forma como a ação é lacunarmente desenvolvida, até que a percamos de vista, The killers é talvez o exemplo mais bem acabado da prosa estupenda de Hemingway.

 

Trecho do conto ‘The killers’, de Ernest Hemingway

— Não quero ouvir nada. — disse e voltou a fechar a porta da cozinha.
— Contou-lhe o que aconteceu? — perguntou George.
— Sim. Contei-lhe, mas ele já sabe do que se trata.
— O que vai fazer?
— Nada.
— Vão matá-lo.
— Suponho que sim.
— Deve ter se metido em alguma confusão em Chicago.
— Suponho. — disse Nick.
— É terrível.
— Horrível. — disse Nick.

 

Trecho do conto ‘Desde pequenos nós comemos silêncios’, de André de Leones

A mesa posta e meu pai nem aí. Estranhei, todo mundo estranhou. Não vai comer? Ele tossiu, careteiro. Que fome? Nós o deixamos na sala, sozinho, na frente da TV. Comemos rápido e em silêncio. Ninguém olhava para ninguém. Terminei primeiro e fui para a sala. Meu pai não estava mais lá. Fui em todos os cômodos e nada. Chamei os outros. Como assim sumiu?

 

André de Leones (Goiânia, 1980) é autor do romance Terra de casas vazias (Rocco), entre outros. Também assina a antologia Paz na terra entre os monstros, onde está o conto Desde pequenos nós comemos silêncios. Weblog: vicentemiguel.wordpress.com.