Annie Ernaux – 13 excertos

Conheça melhor a obra de Annie Ernaux através de 13 excertos de livros seus, publicados recentemente pela Editora Fósforos.

Annie Ernaux: Foto reprodução

Apresentação

Ler o apreensível do acontecido. Esta é a experiência de debruçar-se sobre a obra de Annie Ernaux (1940), editada entre 2021 e 2022 pela Editora Fósforo.

Trata-se de um projeto literário coeso, composto por quadros encadeados. Desprovido de artifícios de linguagem ou enfeites poéticos, ele descreve a realidade pelos olhos da autora – por isso, há quem considere certos títulos pioneiros da autoficção ou ainda autobiográficos em terceira pessoa.

Assim, acompanhamos as passagens de uma mulher de família trabalhadora, nascida em Yvetot, pequena comuna na região da Normandia, que assistiu à Segunda Guerra na infância e, na juventude, ingressou na vida universitária, seguindo carreira nas Letras. Foi professora por mais de 30 anos; há 44, mora na mesma casa, em Lillebonne, cidade que diz ser parecida consigo e correspondente ao seu percurso social.

Mecanismos sociais têm espaço privilegiado em seus registros. É daí a possível conjunção com a sociologia. A partir de si, Ernaux conta as paisagens humanas francesas, as dores de ser mulher, que conquistas feministas poderiam ter aplacado e, sobretudo, a ascensão que ampliou seu leque existencial, mas a afastou de familiares e rotinas de outrora.

13 excertos

Separamos 13 excertos de Ernaux que retratam o estilo da escritora e falam sobre o conjunto de livros que compõem.

De Os Anos, sobre a memória da vida francesa durante a Segunda Guerra

“Tudo vai se apagar em um segundo. O vocabulário acumulado, do berço ao seu leito final, será eliminado. Restará somente o silêncio, sem palavra alguma para nomeá-lo. De boca aberta, não vai sair mais nada. Nem eu, nem meu. A língua continuará inventando o mundo com palavras. Nas conversas ao redor de uma mesa em dias de festa, nós seremos apenas um nome, cujo rosto vai se desvanecer até desaparecer na massa anônima de uma geração distante.” – (p. 14-15)
“Alguma coisa vinha do nada e assumia uma forma: era o tempo já começado.” – (p. 17)
“Vivíamos uma situação de penúria. De objetos, de imagens, de distrações, de explicações para a própria existência e para o mundo. (…) Vivíamos bem próximos da merda. Ela nos arrancava algumas risadas.” (p. 33)

De O Lugar, sobre a morte do seu pai e a distância que se impôs entre ambos

“Para contar a história de uma vida regida pela necessidade, não posso assumir, de saída, um ponto de vista artístico, nem tentar fazer uma coisa “cativante” ou “comovente” (…). Nada de memória poética, nem de ironia grandiloquente.” (– p. 14)
“Ao escrever, caminha-se no limite entre reconstruir um modo de vida em geral tratado como inferior e denunciar a condição alienante que o acompanha. Afinal, essa maneira de viver construía, para nós, a própria felicidade, mas era também a barreira humilhante de nossa condição (…). Eu gostaria de falar ao mesmo tempo dessa felicidade e de sua condição alienante. Sensação de que fico oscilando de um lado para o outro dessa contradição.” (p. 33)
“Como descrever a visão de um mundo em que tudo custa caro. (…) Obrigação de sacralizar as coisas. (…) Um sentimento de falta constante, sem fim.” (– p. 35)
“Interpretar esses detalhes é um gesto que agora se impõe a mim com uma urgência maior do que aquela que me levou a um dia reprimi-los, tão segura estava eu, na época, de sua insignificância. Apenas uma memória humilhada poderia ter feito com que eu os conservasse. Me submeti às vontades do mundo em que vivo, que se esforça para que todos se esqueçam das lembranças de uma vida com hábitos mais simples, como se fossem uma coisa de mau gosto.” (p. 44)
“A morte se insinuava de modo alusivo sob a forma de máximas, todos sabemos o que nos espera.” (p. 55)

De O Acontecimento, sobre o aborto que realizou ilegalmente aos 23 anos

“Faz uma semana que comecei esta narrativa, sem nenhuma certeza de continuá-la. só queria testar meu desejo de escrever sobre isso. um desejo que me atravessava constantemente sempre que eu estava trabalhando no livro que venho escrevendo há anos. Eu resistia, mas não conseguia deixar de pensar nisso. Ceder ao desejo me parecia assustador. Mas me dizia também que poderia morrer ser ter feito nada desse acontecimento. Se havia uma culpa, era essa.”  (p. 15-16)
“O tempo deixou de ser uma sequência insensível de dias a serem preenchidos com aulas e apresenta ações, idas a cafés e à biblioteca, convergindo para os exames e as férias de verão para o futuro. Tornou-se uma coisa sem forma que avançava dentro de mim e era preciso destruir a todo o custo.” (p. 20)
“Pode ser que um texto como este provoca irritação, ou repulsa, ou seja considerado de mau gosto. ter vivido uma coisa, qualquer que seja, dá o direito imprescritível de escrevê-la. Não existe verdade inferior. E, se eu não relatar essa experiência até o fim, estarei contribuindo para obscurecer a realidade das mulheres e me acomodando do lado da dominação masculina do mundo”. (p. 35)
“Escrevendo, devo às vezes resistir ao lirismo da cólera ou da dor. não quero fazer neste texto o que não fiz na vida naquele momento, o que fiz muito pouco – gritar e chorar. somente permanecer o mais perto possível da sensação de um fluxo inerte de sofrimento, como é que eu tive com a pergunta Dilma farmacêutica e com a visão de uma escova de cabelo ao lado da bacia de água onde estava imersa uma sonda. pois a perturbação que sinto ao rever imagens, ao voltar a escutar palavras, não tem nada a ver com o que eu sentia então; é apenas uma emoção da escrita. Quero dizer: que permite a escrita e constitui o signo de sua verdade.” (p. 55)
“Eliminei a única culpa que senti a respeito deste acontecimento – que ele tenha acontecido comigo e que eu não tenha feito nada dele. Como um dom recebido e desperdiçado. Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo:  as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. e o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência é completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.” (p. 71)

Créditos HL

Esse texto é de Paula Akkari, teve revisão de Raphael Alves e edição de Nicole Ayres, editora assistente do Homo Literatus.

Paula Akkari
Psicóloga, graduada pela PUC-SP e Mestranda em Psicologia Social nessa mesma instituição. Pós-graduanda no Instituto Dasein. Instagram profile: @akkari.psi
Paula Akkari
Psicóloga, graduada pela PUC-SP e Mestranda em Psicologia Social nessa mesma instituição. Pós-graduanda no Instituto Dasein. Instagram profile: @akkari.psi
Revisão por
Raphael Alves
Graduado em Letras-bacharelado. Escreve por trabalho e diversão. A curiosidade um dia o matará; enquanto isso, escreve sobre a agonia e o prazer das últimas descobertas.
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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