Anton Tchekhov e “A Brincadeira” de amar no tempo e no espaço do vento

Uma análise da simbologia do vento no conto A Brincadeira, de Anton Tchekhov, e sua composição simples e complexa ao mesmo tempo.

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Anton Tchekhov, um dos mais célebres contistas

Foi há muito tempo, em algum lugar da Rússia, num dia ensolarado de inverno, que Nâdja Petrovna e seu amigo começaram a deslizar pelos morros gelados. O jovem a convidava para andarem de trenó, para escorregarem do topo até à planície, mas Nâdja sentia medo, temia o terrível abismo que enxergava pela frente.

Principia, assim, A Brincadeira, de Anton Tchekhov, narrativa publicada no livro O Malfeitor e outros contos da Velha Rússia. A historieta nos é contada pelo narrador personagem, amigo de Nâdja; ele divide com o leitor esse momento de sua vida, ocorrido há anos e que, por algum motivo, seja por um sopro ou por um vento, chega-lhe à memória.

Diante do pânico da menina, ele diz: “Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!” (página 06) Com tal argumento, beirando o desafio, o narrador induz Nádia a sentar-se com ele no trenó, para juntos enfrentarem o abismo. Na primeira descida, o ar gelado chicoteia o rosto, dificulta a respiração. Ele, sem maiores explicações,  diz em meia voz: “Eu te amo, Nádia.”

Nádenka, à primeira vista, não contempla as “quatro palavras mágicas”, ao contrário, fica muito irritada, alega quase ter morrido de pavor. Aos poucos, assim como uma brisa, tal dizer invade a sua memória auditiva. A menina observa o jovem com olhos interrogativos.  Teria ele feito tal declaração? Ou seria o som do vento? Sem coragem de perguntar ao menino, e com a dúvida sibilando em seu coração, convida-o para descerem o morro novamente.

Os dois “escorregam” pela segunda vez e o narrador diz: “Eu te amo, Nádia.” Nádenka fica perturbada, não consegue distinguir quem declara esse  amor. Espreita o jovem com o olhar de quem implora, inutilmente, um esclarecimento; o amigo permanece inabalável. O narrador protagonista gosta de observar a reação da menina, a aflição que tais palavras provocam em sua fisionomia, em suas atitudes.

Nádia encontra-se no limiar da dúvida e não consegue conviver com ela; para eliminá-la é capaz de encarar o medo e ousar, mais uma vez, brincar no trenó. Assim, propõe a terceira tentativa de descoberta de um provável, ou improvável amor. Nesse trecho, o narrador que, até então, não sabemos se realmente brinca ou é sincero sobre esse suposto sentimento, diz: “E quando chegamos no meio da encosta, deixo escapar: Eu te amo, Nádia!’ (página 10) A expressão “deixo escapar” é um indício de que, até mesmo ele, tem dúvida se está brincando ou não.

Foi a última tentativa da menina nesse dia. Ambos vão para casa, mas ela fica atenta ao amigo, perscruta seus olhos, caminha vagarosamente, esperando alguma manifestação do jovem, ele se mantém aparentemente indiferente:

Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer: “Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!” (páginas 10-11)

Nós, leitores, temos acesso somente às observações do narrador, apenas sabemos da sua visão dos fatos, que podem nos enganar, não de propósito, mas devido a um autoengano do próprio personagem. Ao mesmo tempo em que diz “brincar”, anseia que suas palavras sejam correspondidas, ambiciona que entre ele e o vento, ela o escolha.

A charada amorosa continua e com isso, os passeios de trenó também: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.” E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:- Eu te amo, Nádia!” (página 12)

A partir de tal passagem, constatamos que, para Nádenka, a declaração tornou-se um vício, ela não sabe se é o homem ou o vento quem lhe ama, mas isso já não importa. Nádia aprende a amar o sentimento de amor.  Essa aragem, essa mensagem chegando pelo ar é o que mantém as emoções da jovem. Ao ler esse conto, vale lembrar da rica simbologia dos ventos. Segundo Jean Chevalier:

Os ventos também são instrumentos da força divina; dão vida, castigam, ensinam; são sinais e, como os anjos, portadores de mensagens. São manifestações de um divino, que deseja comunicar as suas emoções, desde a mais terna doçura até a mais tempestuosa cólera.”(Dicionário de Símbolos, página 936)

A primavera chega na Rússia, dias ensolarados se instauram, o morro de gelo derrete, os passeios findam e o vento está cessando. Nádenka fica entristecida, não ouvirá mais tão belas palavras? Seu amigo e vizinho está de partida para nunca mais… ele voltará para São Petersburgo. O desânimo de Nádia não passa despercebido pelo protagonista, que nunca se manteve longe dela:

Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento… O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado… Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima… E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

– Eu te amo, Nádia!

Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.” (página 14)

Essa foi a última vez que o homem disse “eu te amo” a Nádia. O narrador comunica, no fim do conto, que anos se passaram e que Nádenka casou-se com um secretário da curadoria e com ele teve três filhos. Alerta, no entanto, que tem certeza de que ele ou o vento é a melhor recordação de amor de Nâdja Petrovna. E ainda conclui: “Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava…” (página 15)

Há algumas teorias sobre esse conto: alguns pensam que o jovem apenas brincava, alguns pensam que ele a amava, outros pensam em se tratar de uma incógnita. Tratando-se de Tchekhov, que na segunda metade do século XIX, cria o conto de reflexão, isto é, elabora o conto que valoriza o papel das personagens, o desenvolvimento da narrativa, sem priorizar o desfecho; cabe ao leitor se concentrar no mundo interior das personagens, pois ele é o grande revelador das narrativas do autor russo. Sobre os contos de Tchekhov, o crítico Harold Bloom escreve:

Os primeiros contos escritos por Tchekhov exibem a delicadeza formal e a sombria reflexão que o tornam o artista imprescindível da vida não vivida, e o autor que mais influenciou todos os contistas que o sucederam. Digo todos porque as inovações formais em Tchekhov, no que tange ao conto, embora inúmeras, têm menos implicações do que a introspecção shakespeariana de caracterização de personagem… Tchekhov dizia ser preciso escrever de modo que o leitor não precisasse das explicações do autor. As atitudes, os diálogos e as reflexões dos personagens haviam de bastar, prática por ele próprio seguida em suas melhores peças, As Três Irmãs e O Jardim das Cerejeiras.” (Como e Por Que Ler, página 33)

As três hipóteses sobre o conto são válidas. Particularmente, concordo com as teorias da brincadeira e do amor, descarto a incógnita. As atitudes, os diálogos e as reflexões das personagens,em A Brincadeira, nos dão as respostas. A brincadeira, título do conto, era apenas esta: andar de trenó; o amor era aquele sopro que saía do peito do jovem e chegava como ventania aos ouvidos e ao coração de Nádenka. Ele a amava e ela o amava no etéreo espaço vazio do vento.

Silvia Andrade Autor

É Professora, revisora, cronópia, blogueira bissexta. Graduada em Letras, pós-graduada em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Arrisca uns versos, mas quase sempre os risca: considera a leitura o seu melhor momento poético.