Antonio Candido – Apontamentos da formação e da tradição literária brasileira

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O crítico Antonio Candido

Em 1959 vinha à luz das publicações nacionais o livro Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, estudo minucioso do professor Antonio Candido de Mello e Souza sobre dois períodos literários: O Arcadismo e o Romantismo.

O crítico parte da tríade autor-obra-público para traçar um panorama de nossa Literatura, destacando o importante papel dessa tríade na configuração de um sistema literário que envolve meio social, história, produção e formação.  As ideias do aclamado professor  surgem como um contraponto  aos tradicionais  estudos  críticos e  historiográfico literários  feitos no país até então. Para o crítico, a literatura é um processo dinâmico, um “fenômeno de civilização”.   Antonio Candido explica:

“Para compreender em que sentido é tomada a palavra formação, e porque se qualificam de decisivos os momentos estudados, convém principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura, propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes denominadores são, além das características internas (língua, temas,imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros.O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contato entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. Quando a atividade dos escritores de um dado período se integra em tal sistema, ocorre outro elemento decisivo: a formação da continuidade literária, – espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição, no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, é o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir, para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há Literatura, como fenômeno de tradição.” (CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira.p.25-26).

Nesse livro, os primórdios de nossa Literatura são abordados; segundo o escritor, os séculos XVI e XVII  apresentam apenas manifestações literárias, pois ainda não havia, de fato, uma tradição, ou seja, uma obra que desse uma continuidade a outra e, muito menos, leitores.  O autor enfatiza a importância de um Padre Vieira e de um poeta como Gregório de Matos,  destaca, porém, que nesse período, a Literatura era basicamente de cunho oral, isto é, os sermões catequizadores eram ditos ao público; as poesias eram declamadas em festas e saraus.

De acordo com o Mestre, a Literatura Brasileira começa a adquirir traços de produção artística no Arcadismo. Os Árcades preocupam-se em salientar nossa cor local e relatar nossa história através de poemas épicos. Em Formação da Literatura Brasileira o professor ilustra e comprova seu estudo com obras e autores. Citarei aqui apenas dois deles, por serem os principais modelos de escrita para os românticos: Santa Rita Durão, com sua poesia épica O Caramuru e Basílio da Gama com seu O Uruguai. O crítico evidencia, no entanto, que essa produção era baseada em padrões portugueses de criação, mas, já apresentava uma ponta de originalidade; é neles que os Românticos entreveem a possibilidade de instituir uma Literatura Brasileira.

Como se vê, tal originalidade não passou despercebida pelos escritores românticos do século XVIII, que se empenharam em conceber essa “escritura Pátria”. Vislumbraram nos Árcades uma possibilidade de continuação do “tema vernáculo”. Para isso, abusaram dos motivos indianistas, africanos, de nossa cor local. Nos poemas foi assim e nas narrativas também. Poetas como Castro Alves, Gonçalves Dias, entre outros, exaltaram a terra brasileira. José de Alencar empenhou-se em seus romances de tramas indígenas, sertanejas e urbanas (apontando uma nova fisionomia da cidade). Contudo, nossos escritores, ainda seguiam os moldes europeus. Mas, o mais importante para a formação de uma literatura nacional, já havia ocorrido, isto é, o autor produzia sua obra, contextualizada ao seu meio e sua realidade, que chegava ao público, havia leitores; nosso sistema literário de continuidade (tradição) estava formado.

Tela pintada por José Maria de Medeiros, apresentada em 1884, que ilustra um trecho do livro “Iracema”, de José de Alencar.

Abusarei um pouquinho mais da bibliografia de Antonio Candido e comentarei, brevemente – apenas para dar uma sequencia à ideia original de meu escrito – outro livro do crítico que considero fundamental : Literatura e Sociedade.

Nesta obra, o autor menciona os Realistas, destacando Machado de Assis como um dos herdeiros de uma tradição literária brasileira. O Bruxo do Cosme Velho, por sua vez, também questionava a originalidade de nossa Literatura. Lá pelas quadras da metade do século XIX , escreve seu famoso ensaio Instinto de Nacionalidade , no qual percebe os esforços em se fazer uma produção artística brasileira, mas conclui que  a realização literária do país ainda levaria tempo até se tornar independente, tanto que diz: “(para a Literatura)  Não há 7 de setembro nem campo de Ipiranga.”

Machado de Assis estava certo, existia uma tradição (segundo os moldes de Candido), porém nossa originalidade ainda era um “instinto” e não algo “concreto”. Antonio Candido completa o fio do pensamento de Machado de Assis com suas três fases de culminância de nossa literatura: O Arcadismo, o Romantismo e o Modernismo. Os dois primeiros, pelos motivos já escritos acima; o terceiro pelo desprendimento, pela despreocupação dos Modernistas de se parecerem com uma literatura estrangeira.

Os autores do Modernismo são respeitados pelo vasto trabalho de pesquisa folclórica; pelo abuso da liberdade na escrita, tanto poética quanto ficcional e, principalmente, por serem um “abre alas” para as gerações futuras.

Em Literatura e Sociedade, Candido ressalta a riqueza visual e linguística de Macunaíma, de Mario de Andrade; destaca também as escrituras de Oswald e os poemas de Manuel Bandeira. Candido vai além: atribui ao Modernismo todo o ótimo desempenho literário da Geração de 30. Em tal geração, surgem nomes como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Verissimo, Jorge Amado entre outros.  Sobre os ficcionistas de 30, escreve:

“[…] a literatura e o pensamento se aparelham numa grande arrancada. A prosa liberta e amadurecida, se desenvolve no romance e no conto, que vivem uma de suas quadras mais ricas. Romance fortemente marcado de neonaturalismo e de inspiração popular visando aos dramas contidos em aspectos característicos do país: decadência da aristocracia rural e formação do proletariado (José Lins do Rego); poesia e luta do trabalhador (Jorge Amado e Amando Fontes); êxodo rural, cangaço(José Américo de Almeida, Raquel de Queirós, Graciliano Ramos); vida difícil das cidades em rápida transformação(Érico Verissimo).” (CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Página 145)

O crítico menciona a importância da poesia de Drummond, estreando sua carreira, com o exemplar Alguma Poesia.  Ensaios de escritores sobre a formação do Brasil também são saudados pelo mestre. Autores como Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior são considerados, pelo crítico, verdadeiros artistas que escrevem acerca de fatos sociais e históricos do Brasil. Em Literatura e Sociedade, lê-se:

“Ao lado da ficção, o ensaio histórico-sociológico é o desenvolvimento mais interessante do período. A obra de Gilberto Freyre assinala a expressão, neste terreno, das mesmas tendências do Modernismo, a que deu por assim dizer coroamento sistemático, ao estudar com livre fantasia o papel do negro, do índio e do colonizador na formação de uma sociedade ajustada às condições do meio tropical e da economia latifundiária (Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos, Nordeste). Outras obras completam a sua, válida sobretudo para o Nordeste canavieiro, como a síntese psicológica de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil) e a interpretação materialista de Caio Prado Júnior (Formação do Brasil Contemporâneo, História Econômica do Brasil). Os ensaios desse gênero se multiplicam, nesse decênio de intensa pesquisa e interpretação do país.” (página 145)

Já no decênio de 40, Candido aponta o surgimento de ficcionistas como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e outros. Chama a atenção, porém, para um fato sobre a elaboração poética feita nessa década: constata uma queda de qualidade da poesia brasileira; salva poucos nomes, um deles é João Cabral de Melo Neto, considerado original e talentoso:

“Para quem lê com mais atenção a poesia brasileira dos últimos anos, impressiona desde logo o pouco ou nada que ela tem para dizer. E quando tem, o quanto é devido à sensibilidade e aos temas da geração anterior. Salvo num ou noutro mais dotado (um Buenos de Rivera, um Wilson Figueiredo, sobretudo um João Cabral de Melo Neto, para citar apenas três), esta poesia é de pouca personalidade e menor ressonância humana.” (página 150)

Em Literatura e Sociedade, o autor segue comentando sobre a literatura brasileira dos decênios seguintes. Explana a respeito do papel da crítica, da literatura e da vida social, da função histórica da Literatura e muito mais. Não comentarei tais abordagens para não me estender em demasia. Um dos objetivos desse texto é apenas apresentar a literatura como um sistema articulado por Antonio Candido; o outro motivo é de reconhecimento e admiração pelo crítico, que publicou mais de 20 livros sobre a Literatura Nacional e também Universal. A Literatura Brasileira não seria a mesma sem as elucidações do professor; Antonio Candido dedicou toda a sua vida aos livros, à pesquisa e à transmissão do conhecimento. Não é à toa que  é uma das personalidades mais marcantes da intelectualidade brasileira. Evoé, Antonio Candido.

Antonio Candido, ou,
Antonio, lúcido, límpido,
Que conhece e pratica a força imponderável da intuição?
Que funda o juízo crítico no gosto,
– o gosto que em vão se tenta anular, e permanece,
Mesmo negado e ignorado, sal da percepção?
Antonio que não cinge a malha de gelo do formalismo
E, com movimentos, livres e lépidos,
Sente a pulsação culta da obra,
Num enlace de simpatia literária?
Antonio a vislumbrar no poema
Para além das palavras uma conquista do inexprimível
Que elas não contêm
E diante da qual devem capitular?
Antonio atento às áreas de silêncio entre as palavras,
Nelas distinguindo a misteriosa ressonância
Do inexprimível afinal expressado,
Fora do poema, pelo seu rastro?
Antonio  a perceber no leitor consciente
Um vaso novo, em que os cantos do poeta irão combinar-se
De um modo especial e quase único?
Arguto, sutil Antonio
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.
Assim é Antonio Candido, na altiva discreta pureza
Dos sessent’anos.

Carlos Drummond de Andrade