A ressurreição da mentira em “Grito”, de Godofredo de Oliveira Neto

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Uma senhora na casa dos oitenta. Um jovem de dezenove, quase vinte, anos. Dois apartamentos em Copacabana. E a Arte.

Godofredo de Oliveira Neto / crédito: Mariana Moraes
Godofredo de Oliveira Neto / crédito: Mariana Moraes

Na verdade, inverta a ordem aí. Coloque a Arte na frente. É ela, afinal, a personagem central dessa metalinguagem (e o que não o é hoje em dia?) em forma de romance dramático. A Arte como catarse. Como rota de fuga. Como a materialização da loucura, do devaneio. Como um caleidoscópio de universos paralelos. Universos turbilhonantes perigosamente próximos de um núcleo-deus insaciável. A Arte como gritooooo!

Escapar à seca realidade de um apartamento vazio em meio a uma ruidosa cidade, de uma vida viúva, do esquecimento, da falta de (in)ovação, da aproximação do nada, do aniquilamento da companheira de útero – e de sua chance de continuar a sê-lo fora deste, do isolamento, do tempo. Esse é um dos vários papéis desempenhados pela protagonista desse trepidante relato, dessa tragédia repleta de dramas peripatéticos e inusitados, desse sonho dentro do sonho.

Em uma linguagem que oscila entre a oralidade e o grandioso, entre Nelson Rodrigues e Goethe, entre Fábio e Fausto, o autor Godofredo de Oliveira Neto, em Grito, nos apresenta um vislumbre dos mundos de Eugênia e Fausto, uma crepuscular atriz veterana e um aspirante a ator, uma idosa branca e um jovem negro, um dó e um sol sustenido compondo, lado a lado, um pungente réquiem.

Essa é uma história de lealdade. E de amor.

O texto em si é bem trabalhado. Pode-se supor, com relativa segurança, o uso daquela receita das lavadeiras de Alagoas, citada por Graciliano, sem, no entanto, deixar de sobrar espaço para uma pitada de nonsense, criando um prato de se comer numa sentada.

PrintApesar de ser dividida em atos (21 no total), a obra em questão abriga outros formatos, misturando teatro com conto, crônica e até ensaio. Sem falar nas inúmeras referências: Machado de Assis, Valéry, Vianninha, Shakespeare, Molière, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, dentre outros, contribuem com algumas notas na formação da sonora composição. Como a maioria das obras que valem a pena, saímos dela mais com uma sensação do que com um enredo.

Traduzi há tempos um diálogo muito interessante de Oscar Wilde chamado A Decadência da Mentira. Nele, o mestre dos axiomas desenvolve, entre outras elucubrações, a tese de que a vida imita a Arte. Wilde não gostava de definições, considerava-as limitações. Pois bem. Chamemos, então, o caso a seguir de outra coisa: se tivesse de escolher uma… epígrafe para o livro sobre o qual discorre a presente resenha, usaria a frase síntese da tese mencionada acima: A vida imita a Arte. E, sob o risco de cometer um sacrilégio, acrescentaria: a Arte emenda a vida.