Arrastada morte da Cosac Naify: a editora ainda não deixou saudade

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Sobre como o anúncio do fim da editora foi apenas o primeiro ato de uma tragédia, até agora, sem fim

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Foto: Arte ÉPOCA

É verdade que todo mundo sofreu – uns mais que outros – com a morte da tão querida Cosac Naify. Fosse por pura estética, pedantismo, ou real interesse pelas obras, a editora ocupava um lugar especial em provavelmente todos os corações leitores desse país que a conheciam.

Até que veio a notícia do encerramento das atividades, o pânico se instalou e começamos nosso processo de conformação com o fato de que, pelo menos por hora, não teríamos mais livros tão bonitos e únicos quanto os que a Cosac nos oferecia – não me levem a mal, quando falo isso, também englobo aí o conteúdo das obras, sempre muito diferenciado.

Acontece que, como praticamente tudo relacionado à Cosac, sua morte também não poderia passar em branco. Era completamente esperado a correria aos estoques que se sucedeu, e as ocasionais promoções que alimentavam no leitor o último fio de esperança de reunir o maior número de obras – literalmente enquanto ainda havia tempo, ou exemplares. Era o modo, de certa forma lógico, de viver o nosso luto literário.

A questão aqui é que, na verdade, Cosac nunca foi deixada para descansar em paz. E sobre isso não estou certa se tratasse de algo bom ou ruim. É como um grande espetáculo de tragédia de atos infinitos

O primeiro ato foi, logo após o anúncio, a caçada que se iniciou pelos direitos de publicação das obras e autores agora desabrigados. Em meio a todo o turbilhão de boatos e anúncios, a cena principal foi o anúncio de duas editoras ex-Cosac Naify sobre sua parceria e a inauguração da Editora UBU, que além de manter, segundo elas, os ideais e alguns princípios da finada casa, ainda manteria parte do catálogo.

Quando tudo parecia estar, muito mais ou menos, se acalmando, o próximo ato se inicia – dessa vez com um pouco (muito) drama e polêmicos somados à tragédia. O anúncio da possível queima dos estoques remanescentes da editora foi recebido com estardalhaço, e não somente pelo público leitor. A polêmica se alastrou também pelos profissionais da área editorial, muitos fazendo questão de se posicionar frente ao possível acontecimento. A discussão foi: se tratava de uma decisão lógica ou totalmente descabida. Não importa muito o veredicto final – que eu acredito nunca ter sido dado -, a questão é que mais uma vez o defunto foi cutucado, e mais uma vez, por dia, entramos em uma discussão sem qualquer fundamento.

E como em toda boa tragédia o roteiro se repete, caímos novamente no looping – que dessa vez foi bem mais longo. Na verdade, looping não é a metáfora certa.

Foi como estar tranquilo, tocando a sua vida em dia qualquer quando de repente, do nada, um livro é arremessado diretamente na sua cara. Um livro não, um estoque remanescente inteiro de uma editora que, mais uma vez, todo acreditávamos ter visto o seu fim. Mas nada como uma mega promoção da Amazon para animar o bolso de qualquer leitor; e quando eu digo mega promoção, eu digo 90% de desconto. Em livros da Cosa Naify.

E ai é claro que de novo, sem hipocrisia nenhuma, todos nós corremos com os bolsos doendo pelo final de ano para garantir mais algumas unidades que poderiam nos interessar – ou até aquelas que sabemos que jamais vão ter outro papel em nossas vidas a não ser ostentar o logo da editora na estante.

Mas como a virada do ano está logo ali na esquina, fica difícil de prever se há tempo para um grande ato final totalmente fora de padrão, ou se Cosac vai nos deixar da forma mais oposta ao seu jeito de ser: silenciosa.