Arrastões na areia: a infância furtada das “crianças ladronas” através do olhar de Jorge Amado e Graciliano Ramos

É preciso pensar a infância hoje e sempre- uma reflexão a partir de obras de Jorge Amado e Graciliano Ramos

Jorge Amado
Jorge Amado

“Crianças ladronas – As aventuras sinistras dos ‘Capitães da Areia’ – A cidade infestada por crianças que vivem do furto – Urge uma providência do Juiz de Menores e do chefe de polícia – Ontem houve mais um assalto”

Assim principia “Capitães da areia”, romance de Jorge Amado lançado em 1937 e ambientado na Bahia: um artigo fictício de jornal que alerta aos cidadãos sobre jovens infratores. Assim poderia se iniciar qualquer discussão sobre infância e maioridade penal no Rio de Janeiro, e certos acontecimentos recentes nas praias cariocas em 2015 – mas com notícias reais. Da mesma forma, o trecho abaixo, que apresenta a boa vontade do padre José Pedro em ajudar os Capitães de alguma forma, poderia ser transportado das areias baianas às cariocas (talvez, apenas, sem padres amáveis e altruístas):

“O padre José Pedro dizia que a culpa era da vida e tudo fazia para remediar a vida deles […]. Porém uma tarde em que estava o padre e estava o João de Adão, o doqueiro disse que a culpa era da sociedade mal organizada, era dos ricos… Que enquanto tudo não mudasse, os meninos não poderiam ser homens de bem. E disse que o padre José Pedro nunca poderia fazer nada por eles porque ricos não deixariam.”

Ainda que fosse na Bahia fictícia dos anos 30, isto era verdade; e continuará sendo em quaisquer lugar e tempo, como o são nos nossos. Ainda que o excelentíssimo governador não dê ouvidos à questão social que envolve o problema e meta o pezão calçado em coturno na areia alegando que é simples caso de polícia.

É isso também, evidentemente (antes que me acusem de apologia ao crime); mas apenas como efeito colateral da outra questão, mais profunda. Mas quem se importa? Ou ainda: quem não se importa? No artigo que inicia o romance, o redator situa bem duas informações bastante curiosas. A primeira delas são os interesses de quem o jornal defende: “Urge uma providência que traga para semelhantes malandros um justo castigo e o sossego para as nossas mais distintas famílias”.

O outro dado curioso é, considerando essa defesa dos interesses das “mais distintas famílias”, que fim o jornal crê que devem ter os tais capitães da areia. “Um justo castigo”? E qual seria? Vai saber. O que interessa é “desinfetar” as ruas da cidade: “O que se faz necessário é unir a urgente providência da policia e do juizado de menores no sentido da extinção desse bando e para que recolham esses precoces criminosos […] aos Institutos de reforma de crianças ou às prisões.”. Aos reformatórios, instituições que, em tese, se incumbem da tarefa de reeducar menores infratores para o convívio social, ou às prisões, para onde vão todo tipo de criminosos adultos? Quem se importa, né? Tanto faz; só limpem as ruas. Afinal, são apenas criminosos mesmo.

São? Bem, para o padre José Pedro,

“– São crianças, senhora.

A velha olhou superiora e fez um gesto de desprezo com a boca. O padre continuou:

– Cristo disse: Deixai vir a mim as criancinhas…

– Criancinhas… Criancinhas… – cuspiu a velha.

Ai de quem faça mal a uma criança, falou o Senhor – e o padre José Pedro elevou a voz acima do desprezo da velha.

– Isso não são crianças, são ladrões. Velhacos, ladrões. Isso não são crianças. São capazes até de ser dos Capitães da Areia… Ladrões – repetiu com nojo.

A velha se afastou com um ar de grande superioridade, não sem dizer es para o padre José Pedro:

– Assim o senhor não vai longe, padre. Tenha mais cuidado com suas relações.

Pedro Bala ria cada vez mais, e o padre também riu, se bem sentisse triste pela capitaes-areia-capavelha, pela incompreensão da velha. Mas o carrossel girava com as crianças bem vestidas e aos poucos os olhos dos Capitães da Areia se voltaram para ele e estavam cheios de desejo de ar nos cavalos, de girar com as luzes. Eram crianças, sim – pensou o padre.”

“Mas que crianças são essas que furtam, que assaltam, isso quando não ferem ou matam?”, perguntaria o leitor. E a resposta é simples: são crianças sem muitas oportunidades na vida e com muito ódio do mundo. E como não odiar um mundo que as odeia, que as escorraça a todo o tempo? Em Capitães da areia, diz o narrador sobre um dos meninos, o Sem-Pernas, que é manco:

“Ridicularizava tudo, era dos que mais brigavam. Tinha mesmo fama de malvado. […] Muitos do grupo não gostavam dele, mas aqueles que passavam por cima de tudo e se faziam seus amigos diziam que ele era um sujeito bom. No mais fundo do seu coração ele tinha pena da desgraça de todos. E rindo, e ridicularizando, era que fugia da sua desgraça. Era como um remédio. Ficou parado olhando Pirulito, que rezava concentrado. […] O que ele queria era felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela miséria, de toda aquela desgraça que os cercava e os estrangulava. Havia, é verdade, a grande liberdade das ruas. Mas havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas. Pirulito buscava isso no céu […]. Mas o Sem-Pernas não compreendia que aquilo pudesse bastar. Ele queria uma coisa imediata, uma coisa que pusesse seu rosto sorridente e alegre, que o livrasse da necessidade de rir de todos e de rir de tudo. Que o livrasse também daquela angústia, daquela vontade de chorar que o tomava nas noites de inverno. Não queria o que tinha Pirulito, o rosto cheio de uma exaltação. Queria alegria, uma mão que, o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava meu padrinho e que o surrava.”

Que haja quem consiga não responder a esse mundo com ódio e violência, ok; mas parece muito absurdo não conseguir responder de outra forma? Se esse exemplo ficcional não basta, vamos a um real, em alguma medida. Em 1945, portanto apenas oito anos depois do lançamento da obra do Jorge Amado, Graciliano Ramos publica o livro de memórias Infância, em que relata episódios da sua vida desde quando se lembra dela até a puberdade. Em um dos capítulos, o narrador se concentra no caso de um infeliz colega de escola:

“No colégio havia um aluno particularmente desgraçado. Diziam que não prestava, embora se recusassem de ordinário a especificar as suas faltas, cochichadas com gestos de repugnância. À tarde, na hora de recreio que enchia de algazarra a calçada e a rua, afastavam-se dele, ostensivos, e se alguém transgredia essa dura norma, arriscava-se a nivelar-se ao réprobo. Acatávamos uma possível opinião da maioria, apesar de nunca havermos discutido o assunto: cada um supunha a condenação firmada e receava comprometer-se.

O rapaz avizinhava-se dos grupos, esboçava um sorriso cínico, ingeria-se nas conversas, debalde. Os mais taludos afrontavam-no, olhavam-no com desprezo, cuspiam, voltavam-lhe as costas. Esse procedimento nos fornecia infanciaum princípio de convicção; e como a vítima se resignava e baixava a cabeça, admitíamos sem esforço a culpabilidade.

[…] o garoto se achou entre inimigos. O maior deles foi o diretor […]. Injusto em demasia, sempre lhe considerou o trabalho mal feito, responsabilizou-o por erros alheios, em momentos de zanga não disfarçou o ódio.”

 

A aversão daquela “população escolar” ao garoto era então, a princípio, infundada, conforme se apresenta na perspectiva do próprio Graciliano menino, também ele só mais um “menino do povo” que sequer entende o motivo dessa exclusão – mas também não quer se comprometer. Caracteriza-se, assim, um caso de evidente preconceito – e pior: preconceito institucionalizado, porque reafirmado pelo governador do estado. Digo!, pelo diretor da escola.

A você, leitor paciente e persistente, que me aturou até aqui, dou uma trégua e proponho uma tarefa lúdica, para aliviar a tensão desse texto pesado: que fim terá levado esse menino marginalizado? Imagine a história dele, com o máximo de detalhes possível. Alguns parágrafos adiante eu revelo o que aconteceu a ele.

Tornando aos Capitães da areia, o que aqui se critica no tratamento recebido por eles pelas autoridades não é que haja consequências para os atos destes meninos, mas o seu caráter estritamente punitivo – e nunca compreensivo, e jamais educativo, e nem um pouco afetivo. Logo após a reportagem fictícia que abre o romance, apresentam-se cartas fictícias à redação do mesmo jornal, que teriam sido publicadas nos dias seguintes. Dentre as cartas das autoridades responsáveis, está a de uma mulher do povo, mãe de um dos menores infratores recolhidos ao reformatório:

“Sr. Redator: Desculpe os erros e a letra pois não sou costumeira nestas coisas de escrever. […] Eu queria que seu jornal mandasse uma pessoa ver o tal do reformatório para ver como são tratados os filhos dos pobres que têm a desgraça de cair nas mãos daqueles guardas sem alma. […] O menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas e três vezes por dia. […] E por essas e outras que existem os “Capitães da Areia”. Eu prefiro ver meu filho no meio deles que no tal reformatório. Se o senhor quiser ver uma coisa de cortar o coração vá lá. […]

Maria Ricardina, costureira”

Isto é apenas um fragmento da carta, mas mesmo sua leitura integral evidenciaria que a reclamação da angustiada mãe não se refere ao fato de o filho ter sido recolhido, assim como ela não questiona a culpa do menino. O que se questiona é como o reformatório é conduzido, de modo que não cumpre sua função original.

No capítulo de Infância intitulado “O inferno”, Graciliano relata uma conversa com sua mãe, que, após muita insistência do menino curioso, descreve o terrível lugar e seus habitantes:

“Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que as de S. João e em tachas de breu derretido. […] Assegurara que os diabos se davam bem na chama e na brasa. Desconhecia, porém, a resistência das almas supliciadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio mais ou menos longo, se transformariam em diabos.”

Portanto, no entender dessa mulher religiosa, que busca dar sentido lógico à noção de inferno para garantir o entendimento (e o temor) do filho, não há muita distinção entre o pecador e o torturador, tanto que afirma que um pode se transformar no outro e manter chifres e fazer maldades por toda a eternidade. E se as almas impuras “suportam padecimentos eternos”, então ser carrasco ou condenado é igualmente um sofrimento. Estamos todos num mesmo barco (guiado por Caronte); somos todos um Rio.

No entanto, no livro de Jorge Amado, cínicos e hipócritas que são, diretor e jornal se aliam e pintam o Inferno com as tintas do Paraíso – onde era pra ser Purgatório. Dias depois das acusações da pobre mãe costureira e também do padre José Pedro serem divulgadas, publica-se uma reportagem após visita de um jornalista ao reformatório. Constam os seguintes títulos na matéria:

“Um Estabelecimento Modelar onde Reinam a Paz e o Trabalho – um Diretor que é um Amigo – ótima comida – crianças ladronas em Caminho da Regeneração – Acusações Improcedentes – só um Incorrigível reclama – o Reformatório Baiano é uma grande Família – Onde deviam estar os Capitães da Areia.”

O método didático favorito da educação mais rústica é o castigo físico – e o “educarrasco” tem plena consciência do caráter antiético da sua atividade, tanto que não é o que se divulga no jornal fictício da obra de Jorge Amado. Recentemente, porém, numa onda de pensamento que não pode se caracterizar de outro modo senão retrógrada, a violência tem sido exaltada para os outros – pelos mesmos cidadãos “de bem” que a temem para si. E se esse procedimento educativo não lhe parece absurdo nem lhe causa empatia, caro leitor justiceiro, imagino que você seja muito saudoso de um velho amigo dos estudantes mais antigos como Graciliano, que nos conta o seguinte:

“A palmatória figurava em nosso código. Nas sabatinas, questões difíceis percorriam as filas — e o aluno que as adivinhava punia os ignorantes. Os amigos da justiça batiam com vigor, dispostos a quebrar munhecas; outros, como eu, surdos ao conselho do mestre, encostavam de leve o instrumento às palmas.”

Sim, senhor justiceiro. O senhor pensa como uma criança sádica dos anos 1910, a quem se ensinava o prazer de vigiar e punir duramente seus semelhantes. Disso tudo se tira a lição: é preciso pensar a infância hoje, principalmente a infância de negros e/ou pobres, que a têm furtada, pois a perdem e nem o percebem. É preciso discutir questões como maioridade penal com mais empatia e humanidade – e pensar a reestruturação dos reformatórios infantis (que talvez não tenham mudado muito da década de 40 até hoje), para que essas crianças (são crianças) tenham finalmente a oportunidade de se integrar à sociedade, em vez de querermos despejá-las todas nas prisões. Não é novidade para ninguém que as penitenciárias sejam apenas aperfeiçoadoras do ódio de tantos Sem-Pernas.

E quem pode julgar a intensidade ou a direção desse ódio, dessa dor? Só depende da índole do cidadão, é? “Gente de bem” não faz isso?

É, portanto, compreensível (ainda que não justificável ou aceitável) a onda violenta que se avoluma dentro desses jovens de hoje e transborda, inundando a areia das praias cariocas, a orla – e um dia ainda toma as ruas todas. Cada um deles é um tsunami devastador, o que torna também compreensíveis o terror e o desespero dos afogados, p(n)obres cidadãos arremessados por essas forças sociotempestuosas para fora do sossego – e também da razão e do bom senso.

Não há homem santo que não deseje o mal a quem lhe esfaqueie (e não queira dar o troco imediato, se houver chance); não há madre-teresa, por mais ativista-humanista que seja, que, se estuprada, não deseje (ainda que só lá muito no seu íntimo, confessando-se apenas a si mesma e nem aos padres-josé-pedros) a morte “daquele filho da puta” (se houver, mente). E quem pode julgar a intensidade ou a direção desse ódio, dessa dor? Mas “gente de bem” faz isso? Só depende da índole do cidadão…?

Só Jesus dá, de fato, a outra face (ou, no fundo, no fundo, nem ele, quem sabe).

Os n(p)obres cidadãos só não podem se esquecer do terremoto (constante, destruidor e incessante) que gerou – e gera todo dia em cada uma das mil marés que descem morro – o tsunami inicial: nossa estrutura socioeconômica (constante, destruidora, estagnada). A “sociedade mal organizada”. Somos, enquanto sociedade, como aquele diretor da escola; ou como pais rudes, brutos, irresponsáveis, que castigam gratuitamente – como os do menino Graciliano:

“As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me GracilianoRamosfunda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.”

No nosso mundo, muitos indignados, sedentos por justiça, esbravejam por aí, como se hoje fosse 100 anos atrás: “Prendam!”. “Cortem fora a mão!”. “Matem!”. “Cortem fora a eles! Inteiros. Da vida, da existência, cortem-nos fora do mundo!” – e o mundo será melhor (?). Como pode ser melhor um mundo em que tudo se resolve no “corta fora” (e muito desse “tudo” provém das falhas do mundo todo)?

O mundo será menor. Mais baixo, escuro, quente, cheirando a enxofre. Todos teremos chifres e rabos pontudos e açoitaremos eternamente nossos algozes. Justiça!

Diz Graciliano: “O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde as pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões”. Hoje, porém, muitas pessoas que se dizem bem educadas querem mandam todas as outras ao inferno – e muitas são enviadas mesmo a um lugar simbólico de marginalização que, se fosse concreto, traria a inscrição cunhada por Dante Alighieri para os portais do mundo inferior na sua Divina Comédia: “Deixai toda a esperança vós que entrastes”.

Dessa maneira, se instala no mundo um ciclo de medo, ódio e reação agressiva que teve começo (e não partiu dos Sem-Pernas), mas parece não ter fim. Ainda que hoje sejamos todos igualmente vítimas e algozes, não podemos todos nos acomodar na confortável poltrona da vitimização. Alguém precisa levantar. E quem estaria mais apto a iniciar esse processo, quem teria essa responsabilidade social: aquele que é capaz de compreender toda essa problemática ou aquele nem sabe que ela existe? Acesso a informação e algum conforto socioeconômico são grandes poderes – e você sabe o que vem com eles. Dizem que “o inferno são os outros”; no entanto, a culpa não é deles – e a responsabilidade é nossa.

P.S.: Não me esqueci da história do menino marginalizado na escola. Sobre ele, conta Graciliano:

“Deixei-o no colégio, perdi-o de vista. E reencontrei-o modificado. Ao iniciar-se no crime, andaria talvez pelos quinze anos. Atirou num homem a traição, homiziou-se em casa do chefe político e foi absolvido pelo júri. Realizou depois numerosas façanhas; respeitaram-lhe a violência e a crueldade. Sapecou os preparatórios num liceu vagabundo. Na academia obteve aprovação ameaçando os examinadores.

Bacharelou-se, fundou um jornal. Como o velho diretor, seu carrasco, fechara o estabelecimento e curtia privações, deu-lhe um emprego mesquinho e vingou-se.” Ah!, o título do capítulo que narra a história desse diabo diabólico: “A criança infeliz”.

Rafael Mendes Autor

Rafael Mendes é ficcionista, poeta, ator, dublador, revisor, professor, amador - posto que ficcionaliza, poeta, atua, dubla, revisa, professa, ama. Atualmente é doutorando em Literatura Brasileira pela UFRJ e pesquisa a obra do poeta Dante Milano. É autor do volume de contos Desmoronaventos (2014).