A arte fugiu da escola – Schiller, literatura e liberdade

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Por que as escolas insistem em classificar a Literatura como matéria que possui avaliações formais quando essa preza o exato oposto?

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Friedrich Schiller (interpretado por Matthias Schweighöfer) no filme “Schiller”, 2005

A aula de Literatura começará em dez minutos e os alunos já perguntam entre si: “Qual é o próximo tempo?” A resposta se segue de um olhar torto e de um esboço de bocejo. A professora então adentra a sala, escreve na louça “Modernismo”, abre seu pesado livro e começa a ditar características da primeira geração de artistas do movimento enquanto alguns copiam de forma obediente e outros dormem ou conversam. A hora e meia de aula assim se arrasta, sem nenhum tipo de diálogo ou debate sobre os temas. O importante é apenas reproduzir.

A Literatura, assim como qualquer outra forma de arte, é responsável por imprimir uma sensação de liberdade de pensamento extremamente inexplorada no século XXI, especialmente nas escolas. Os livros como obras de arte são exposições materiais de sensações estéticas vividas pelo autor e transferidas aos leitores com o intuito de sensibilizarem e questionarem a capacidade do ser humano refletir sobre a sua própria existência, deixando-o cada vez mais próximo da liberdade. As grandes questões a serem discutidas são: como ensinar alguém a ser livre? Por que as escolas insistem em classificar a Literatura como matéria que possui avaliações formais quando essa preza o exato oposto? Como o aluno se comporta diante de tal padronização da subjetividade?

Schiller, o grande escritor alemão que também se dedicou à filosofia, descreve bem o papel da arte na sociedade em suas Cartas sobre a Educação Estética. Nelas, o alemão analisa a condição social de seu tempo e identifica uma carência de sensibilidade em um mundo infestado de conflitos e interesses. A saída encontrada por ele é a educação estética, que, segundo ele, seria capaz de mudar o mundo começando com uma transformação em seus principais atores: os seres humanos. Schiller descreve a força da arte e do artista, elevando-o ao papel de vanguardista e corretor dos erros de seu tempo, uma vez que tem um panorama bastante aguçado para identificar os problemas e trazer novas soluções. A partir dessa ideia, poderíamos passar para a condição de homens ideais, gozando de uma liberdade conquistada e advinda de nossas próprias mãos.

O professor de Literatura, que deveria tomar a posição do tão celebrado artista na visão de Schiller, perde a oportunidade de mostrar os caminhos para a liberdade por meio da arte. Padronização de respostas, aulas expositivas e conteúdos herméticos afastam os alunos da busca de ser livre sem esforços, uma vez que essa opção mostra exatamente o contrário quando escolhida.

A ideia de ensinar Literatura parece tão errada quanto ensinar a ser livre. O aprendizado aparece como doutrinação ao invés de expansão, o que dá a ilusão de uma unilateralidade de pensamentos. Quando o professor dá zero em uma questão de interpretação de texto de um aluno ele está automaticamente anulando o termo, uma vez que desconsidera completamente a leitura apresentada pelo aluno.

O questionamento e a aproximação dos conteúdos ao cotidiano auxiliam no conhecimento, uma vez que há a tentativa de diálogo entre a teoria e a prática. A Literatura como arte permite tais discussões e viabiliza a construção de novas produções artísticas quando não são dados limites de pensamento.

Poucos se apaixonam pela Literatura através do contato travado na escola. Os livros tornaram-se objetos distantes do cotidiano educacional graças à grande falta de incentivos à leitura, que vão de aulas monótonas e densas até aos preços exorbitantes dos exemplares no Brasil. Com isso, a escola deixa de cumprir um de seus papéis: o de introduzir seus estudantes a um novo mundo. Continuamos então nessa letargia literária que marca tanto o país em índices mundiais de leitura e em pessoas incapazes de lerem bem suas próprias realidades para então partirem para o contexto geral.

Não somos todos artistas, e nem precisamos ser, mas a capacidade de extrair a sensibilidade do interior de cada um é necessária para que possamos diminuir as barbáries e construirmos um mundo melhor. Como disse Schiller em suas cartas, “O legislador político pode interditar seu território, mas nunca imperar nele. Pode proscrever o amigo da verdade, mas esta subsiste; pode diminuir o artista, mas não falsificar a arte.”