As duas redomas de Stephen King

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Hoje eu vou fazer uma tentativa de misturar dois dos meus assuntos favoritos: séries e livros. Sinto a necessidade de fazer uma “análise” detalhada de uma história interessante, tanto como série quanto como livro. Um tempo atrás eu fiz a resenha do livro do Stephen King, Sob a Redoma, e cheguei a comentar sobre a série que seria lançada. Pois bem, hoje ela já conta com nove episódios e acho que já é tempo suficiente para eu dar minha visão de espectador sobre ela.

Decidi fazer esse texto, pois vi muito sendo discutido sobre a série versus o livro e talvez a série tenha sido um pouco injustiçada ou não levou o mérito que merecia. É inegável que Chester’s Mill do livro é completamente diferentemente da cidade na série. Não só a geografia, como todos os habitantes e personagens. Acho que acontece nesse caso o mesmo que eu vi em Dexter: a história inicial é a mesma, mas o desdobrar dos fatos deixa tudo diferente. É como se existissem duas redomas, uma no universo A e outra no B (algo tipo Fringe, se é que me entendem).

O primeiro episódio da série começa igual ao livro, como era de se esperar (exceto pelo fato de que não existe nenhuma toupeira). O avião bate em algo invisível e os carros se chocam com o nada. Porém, o resto do episódio corre muito diferente do esperado para quem leu o livro, e quase no episódio todo fiquei com aquela cara de “WHAT?”. Não que meu espanto seja por algo negativo, mas é que a série ficou diferente do livro, mas mesmo assim ficou ótima. Mérito do King.

Mas como assim tanta diferença? Bem, pra começar, se você gostou de algum personagem do livro, prepare-se pra uma possibilidade: ou ele não existe na série ou a história dele é completamente diferente. A base de personagens, claro, é a mesma, como não dar o devido valor ao Big Jim, a Julia Shumway ou ao Barbie. Mas alguns novos caminhos são tomados e detalhes mudam a história de cada um desses (e dos outros muitos que foram adicionados). A cada episódio é como ver uma outra versão da história. É muito interessante ver o seu personagem favorito e não ter a certeza se você sabe bem o que acontece com ele. Sem dúvidas algumas surpresas virão, podem apostar.

Todos os personagens queridos estão lá, mesmo que não sejam identificados de primeira. Alguns só identifiquei mesmo por causa do nome. Olha só como alguns ficaram na versão da série:

Dale Bárbara, que na série guarda muitos mais mistérios que no livro.
Dale Bárbara, que na série guarda muitos mais mistérios que no livro.
A repórter Julia Shumway. (Sim, é a atriz que fez Crepúsculo)
A repórter Julia Shumway. (Sim, é a atriz que fez Crepúsculo)
Big Jim, tão assustador quanto no livro
Big Jim, tão assustador quanto no livro
Dá de acreditar que essa é a policial Linda? Pois é
Dá de acreditar que essa é a policial Linda? Pois é
Nem a redoma escapou de mudanças. Agora, além de tudo, não é possível escutar o que o outro lado diz
Nem a redoma escapou de mudanças. Agora, além de tudo, não é possível escutar o que o outro lado diz

Segundo os próprios roteiristas, muitas mudanças ainda acontecerão. Pra começar, o tempo da história na série vai ser maior do que no livro, podendo chegar a anos. Justamente por esse motivo, King deu carta branca ao produtores para desvios na história, ou seja, muitos mistérios novos aparecerão na cidade. Além  disso, o final possivelmente não será o mesmo (o que parece ter animado até mesmo o próprio autor, e com certeza me deixou feliz também). Todos esse novos rumos com certeza darão um ótimo caminho para podermos ver ainda mais sobre o efeito da redoma nos habitantes, ainda mais com tudo sendo supervisionado pelo próprio Stephen King.

Agora, adaptações e mudanças a parte, não há como negar o sucesso da série. A estréia teve a maior audiência de verão do canal americano CBS desde 2000, desbancando a estréia de Big Brother. O episódio piloto lançado no dia 24/6 contou com um total de 13,1 milhões de telespectadores. O sucesso “inesperado” da série, que já é considerada a estréia do ano, animou tanto os roteiristas que o fato da segunda temporada é quase certo, o que significa muito, quando antes apenas era planejado apenas 13 episódios fechados.

Vamos lá então, concluindo: nem nos maiores sonhos um leitor pode esperar que qualquer adaptação seja igual ao livro, completamente igual é impossível. Algumas adaptações conseguem ser fiéis, mas sempre existe algo. E então, há casos como Sob a Redoma (e Dexter), em que se propõe modificar descaradamente a história original, o que pode causar descontentamento no começo, mas no decorrer das cenas se percebe a qualidade e a necessidade da adaptação. No final, não vejo mais a série como uma mera adaptação nem como uma “concorrente”, mas sim como um ótimo complemente o grande livro do Stephen King.