As melhores leituras de 2014 dos colaboradores do Homo Literatus

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Colaboradores do Homo Literatus fazem uma indicação à queima-roupa do melhor livro que leram em 2014.

E se te perguntassem a queima-roupa: qual seu livro favorito de 2014? É só um!

Deixe para brincar com listas depois do amigo-secreto-de-livros natalino. Vale qualquer livro, independente do ano de lançamento, gênero ou nacionalidade do autor(a). Nossa brava equipe do Homo Literatus topou a pergunta. Dá só uma olhada nas indicações que surgiram:

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Goya à Sombra das Luzes, de Tzvetan Todoróv – por Walter Bach

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Walter, tão sombrio quanto Goya.

Em público temos um hábil artista, mas você já visitou o ateliê dele? Não é o mesmo homem. As telas dele são tão lindas e coloridas, mas as de seu lar são mórbidas. Torturas, monstros disformes e delírios as povoam como as nuvens ao céu.

Goya à Sombra da Luzes é um ensaio poderoso de Tzvetan Todoróv sobre a obra de Francisco de Goya, da gênese a repercussão. Longe de conversa para entendido em arte, é adentrar a escuridão interior de um humano em suas contradições e esforços para viver.

 

Quatro Quartetos, de T. S. Eliot – por Ygor Speranza

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Ygor e o livro que subiu à cabeça.

Quatro Quartetos, de T. S. Eliot, é uma coleção de quatro poemas brilhantes da fase final da carreira do escritor. Cada poema lido, a seu modo, com uma visão prismática do tempo: refração de um tempo no futuro, passado e presente, da relação em Deus, do homem e sua memória nesse tempo. Os quartetos vistos em conjunto sobrevoam uma geografia inglesa (e também americana) de lugares-eventos da vida do autor e sua ancestralidade, oscilando entre o meditativo e o contemplativo, entre a chama do cristianismo ocidental e o vazio nas filosofias orientais. A belíssima tradução de Gualter Cunha pela Relógio D’Água oferece lado a lado versões em inglês e português.

 

A Canção de Aquiles, de Madeline Miller – por Clara Madrigano

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Clara fica cantando o Aquiles.

O livro que fez meu ano foi A Canção de Aquiles, de Madeline Miller. Obra de estréia da autora, levou o prêmio Orange em seu ano de publicação (2011), um feito para qualquer escritor. Enrolei muito tempo até finalmente tomar vergonha na cara e comprá-lo; e como me arrependo de não ter feito isso antes. A Canção de Aquiles é a história do mítico herói do título e da guerra de Tróia, mas contada sob a perspectiva de Pátroclo, amigo, companheiro e amante de Aquiles. É um livro sobre amor. É um livro sobre a crueldade de deuses, homens e das coisas boas e ruins que somos capazes de fazer. É um livro que você precisa ler agora mesmo.

 

O Diário da Queda, de Michel Laub – por Carolina Prospero

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Carolina gosta de diários (meio pesados).

Meu livro favorito de 2014 estava esperando na estante há pelo menos um ano. É O Diário da Queda, do Michel Laub. Apesar de tratar de um tema já muito explorado – o holocausto – Laub tem o seu jeito próprio de contar histórias, focando nos sentimentos de seus protagonistas a partir de eventos-chave, olhando-os sob diversos ângulos. É o que acontece nessa obra: o protagonista parte de um ocorrido marcante dos seus treze anos que vai sendo entendido a partir do passado de seu pai e de seu avô, este último vítima do nazismo. É uma narrativa honesta, emotiva, redigida com elegância e domínio. Sem dúvida, um dos meus destaques do ano!

 

20 Mil Léguas Submarinas, de Julio Verne – por Maik Barbara

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Maik gosta de ler (ah, e também do Goku!).

20 Mil Léguas Submarinas é um clássico e um dos precursores do gênero de ficção científica. Onde leva inicialmente à desbravada de uma missão que nada teve de bem sucedida. O mistério: suposto violento e gigantesco monstro marinho, a aflição: navios destruídos e centenas de marinheiros mortos por todo o mundo, a missão: estudar e aniquilar a criatura. Todavia é ao ter o navio abatido pela besta e quase todos mortos que realmente a aventura começa. Nemo, o capitão do enigmático dispositivo submergível Náutilus outrora confundido e nomeado monstro, aprisiona três sobreviventes desse naufrágio e então a obra deslancha na riqueza de detalhes inventivos e verossímeis da literatura de Jules Verne.

 

2666, de Roberto Bolaño – por Jefferson Figueiredo

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Jeff pula de um calhamaço para o outro.

2666 não é um livro escrito para ser entendido – pelo menos como se tem feito há muito tempo. Suas cinco partes se interligam de forma tênue, criando a concretude de suas oitocentas páginas. Entre professores universitários em busca de um escritor que ninguém conhece e os crimes da Santa Teresa, há um mundo complexo e prosaico, capaz de nos cativar facilmente, mas também nos mostra como as grandes histórias surgem dos pequenos dramas cotidianos. Essa obra póstuma de Roberto Bolaño é uma aventura pós-moderna rumo ao fatídica data-título do romance.

 

Lolita, de Vladimir Nabokov – por Nicole Ayres

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Nicole ama odiar.

Esse ano tentei intercalar a leitura de clássicos e contemporâneos. Dentre os clássicos o qual mais me interessou foi Lolita, de Vladimir Nabokov. A narração em 1ª pessoa do pedófilo de meia idade apaixonado pela jovem ninfeta é muito bem construída. Humbert Humbert é um cafajeste do tipo que amamos odiar. Por vezes manipula, por vezes parece manipulado por Lolita, de modo que fica difícil identificar as vítimas e os vilões da história.

 

A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-neves, Joca Reiners Terron – Maria Luiza Artese

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Maria indica o gatinho do Joca.

Confesso: peguei A Tristeza Extraordinária do Leopardodas-neves pelo título. E posso dizer que isso o tornou muito mais mágico: estava eu desvendando o mistério implícito naquela bela conjunção de palavras, tentando decifrar o que seria, afinal, aquela densa melancolia num personagem tão inusitado, quando me deparei com um livro fascinante, do tipo que me fazia entender, mais uma vez, porque eu decidira passar o resto da vida entranhada na literatura. Não vou desmanchar o mistério para quem ainda não leu, por isso nada de sinopse. Cada pequeno detalhe tem um gosto melhor sob o próprio paladar.

 

Borges uma vida, de Edwin Williamson – por Vilto Reis

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Vilto tentou virar capa de livro, como seu guru, e não conseguiu.

Quanto mais me debruço pela vida/obra de Borges, mais tenho a sensação de que vou deixando de existir, me tornando pequeno, desnecessário. O sentimento que Borges uma vida nos dá é a de que não há nada mais antes ou depois desse escritor. Uma biografia que não o endeusa, mas ao humanizá-lo revela como a paixão de alguém pela literatura pode levar a viver por ela. E ainda que a vida possa aprontar suas ironias – como deixar Borges cego –, a literatura pode ir além de tudo isso, tornando-nos verdadeiros, possíveis.

 

Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão – por Estela Santos

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Estela não quer que ninguém perceba que seus cachinhos estão tão revoltosos como a capa do livro do Brandão.

“Faço um livro sobre o que poderá a vir ser”, escreveu Ignácio de Loyola Brandão quando produzia o livro Não verás país nenhum. Livro que alguns dizem ser o 1984 brasileiro. Esta obra foi publicada em 1981 e é atemporal, continua a ser vendida como se estivesse sido lançada recentemente. Ela nos faz refletir sobre o que está acontecendo ao nosso redor e sobre o que será de nós futuramente. Ao lê-la pensamos que um dia teremos que comprar cheiros da natureza, como de plantas e flores, chuva e terra molhada; teremos que ter permissão para circularmos em determinadas áreas da cidade; o sol nos aniquilará; a água será escassa, como já vem sendo em alguns lugares do Brasil.

 

Quem ama Literatura não estuda Literatura, de Joel Rufino dos Santos – por Dayane Manfrere

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Dayane cobre o risadinha com o livro. Não liguem!

O livro é um reflexo sobre o modo como se estuda e leciona literatura no Brasil. Rufino argumenta que a literatura precisa estar interligada a outras áreas: história, comunicação, antropologia, filosofia. O livro é repleto de reflexões sobre acontecimentos históricos e sua co-relação com a literatura. Ele inicia sua discussão com os quatro principais despertadores de sono social: Darwin, Einstein, Marx e Freud; e vai ao longo da discussão mostrando aí a importância interdisciplinar para a literatura.

 

Ulysses, de James Joyce – por Sérgio Tavares

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Sérgio indica um livro tido como difícil e coloca uma foto de infância junto. Só quem ler, vai entender (ou, muito provavelmente, não vai).

Há livros que cobram calos literários. Uma crosta moldada pelo exercício de leituras boas e o dobro de leituras ruins. Ulysses, de James Joyce, é um desses. Depois de me render ao convencimento urigéllico do amigo Márwio Câmara, decide romper meu ciclo de procrastinação e encarar suas mil páginas. O que dizer do romance que inaugura os procedimentos que significam o modernismo? Um narrativa multifária, que dá ao leitor a sensação da desdobradura de um mapa. Penso na minha filha e me vem a ideia dos livros pop-ups. Perdoa-me os acadêmicos, mas Ulysses é o primeiro livro pop-up. E, para uma criança de quatro anos, isso tem o valor de uma obra-prima.

 

Na pior em Paris e Londres, de George Orwell – por Márwio Câmara

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Márwio está “na melhor” lendo o livro do Orwell

Só o fato do jovem Arthur Eric Blair ter se rebelado contra a própria classe social, da qual fazia parte, resolvendo, assim, viver nos buracos mais medíocres e miserentos de Paris e Londres, já vale a pena. Todavia, de fato, este é um excelente livro, que marca a entrada deste respectivo escritor na literatura, assim como o nascimento de George Orwell (o pseudônimo surgiu influenciado pela família, que não queria ver o filho e o seu sobrenome divulgado naquele “livro de linguagem tão crua”). Trata-se de uma viagem ao submundo não tão badalado (e divulgado) da Cidade Luz e da capital do Reino Unido (com os seus hotéis infestados de percevejos, mal-cheiro, fome, pobreza e figuras bizarras). O tom realístico, sem floreios, da escrita do primeiro romance de Orwell chega a ser perturbador, e me prendeu do início ao fim, fazendo deste leitor, que aqui escreve, parte da trama. Um marco entre as leituras que fiz no ano de 2014.