As Metamorfoses representam o auge simbolista da poesia de Murilo Mendes

As Metamorfoses representa o auge da maturidade poética de Murilo Mendes. A obra carregada de simbolismo mostra um trabalho Murilesco

As Metamorfoses
Murilo Mendes

Murilo Mendes (1901–1975) foi um poeta singular na literatura brasileira, mas nunca foi tão discutido quanto Drummond nem tão lido quanto Cecília. Mas a força de seus textos o coloca juntos destes nomes no panteão da poesia de nosso país.

Poeta da geração de 30, estreou mostrando competência em seu primeiro livro: Poemas (1930). Já com seu primeiro livro adentrou no circuito literário daquela época, com aclamação crítica e elogios de outros poetas.

Todavia, a maturidade poética deu-se em 1944, quando publica seu livro As Metamorfoses. Livro até hoje conhecido como um dos melhores e mais importantes da poesia brasileira, com sua estética, crítica, e lirismo que perduram até a atualidade.

Neste livro, o poeta demonstra o seu talento único, com um estilo de escrita nunca antes tão bem explorado na língua portuguesa. O poeta usa recursos simbolistas, cubistas e outras vanguardas para sintetizar algo único, algo murilesco.

A obra é dedicada “Ao meu amigo Wolfgang Amadeus Mozart”, não por simples capricho do poeta, mas sim porque a abstração, melodia, e a catarse musical perpassa a maioria dos poemas do livro. Todavia, não é a melodia rítmica que Murilo Mendes usa, mas sim a melodia da construção das palavras, do lirismo, da ambiguidade de sentidos, e a desconstrução dos mesmos.

Murilo constrói um mundo particular, onde bebe-se a música, adejam flores, apascentam-se pianos. O poeta reorganiza a lógica racional, a que vem dos olhos e do pensamento, e a transubstância na lógica lírica da poesia, dos sonhos e das divagações. Não por acaso as nuvens aparecem tanto em seus textos, quase todos. A nuvem é concreta e etérea, toma várias formas, comunica diversos sentidos, tal qual a poesia do escritor.

Os Amantes Submarinos

Esta noite eu te encontro nas solidões de coral

Onde a força da vida nos trouxe pela mão.
No cume dos redondos lustres em concha
Uma dançarina se desfolha.
Os sonhos da tua infância
Desenrolam-se da boca das sereias.
A grande borboleta verde do fundo do mar
Que só nasce de mil em mil anos
Adeja em torno a ti para te servir,
Apresentando-te o espelho em que a água se mira,
E os finos peixes amarelos e azuis
Circulando nos teus cabelos
Trazem pronto o líquido para adormecer o escafandrista.
Mergulhamos sem pavor
Nestas fundas regiões onde dorme o veleiro,
À espera que o irreal não se levante em aurora
Sobre nossos corpos que retornam às águas do paraíso.

Entretanto, o contexto histórico no qual Murilo estava inserido não o permitia fechar os olhos para os horrores da Segunda Guerra, assim sendo, muitos dos poemas da obra apresentam críticas à condição humana e sua crueldade. Apesar disso, o poeta não abandona a plasticidade de sua poesia, conseguindo retratar poeticamente até mesmo a guerra.

Pastoral

Traze a sandália e o bordão para passearmos no campo sereno.

Somos contemporâneos de raças extintas,
Viemos de torres golpeadas e de hóstias profanadas.
Até que desçamos para os rios invisíveis
Convém dançar entre os humanos, comer o pão e o mel.
Os imortais nos aguardam nas esferas da música:
Muitos pássaros, muitas luas viajantes têm nostalgia de nós.
Esquadrilhas de mitos são enviadas para nos protegerem.
Hospedamos companheiros imprevistos,
O Máscara de Ferro, Nosferatu,
Ou então a Órfã do Castelo Negro.
As fontes esperam nosso sinal para murmurarem,
E os germes da peste se contêm ante a nossa benção.
Paz aos corpos insaciados de amor, aos membros genitais em delírio:

Suspendei de novo a gaiola dos anjos,
Voltem de novo os lírios do vale em lugar dos fuzis.

O catolicismo de Murilo também exerce influência no livro, frequentemente invocando imagens de anjos, de Deus (com d maiúsculo), e da pós-vida, mas ainda com olhar crítico perante ao abandono divino evidenciado no sofrimento da guerra.

Grande amigo de João Cabral de Melo Neto, o outro poeta sintetiza a poesia de Murilo Mendes: “ Sua poesia me ensinou que a palavra concreta, porque sensorial, é sempre mais poética do que a palavra abstrata”, chamando até mesmo sua poesia de “mestra”: “a poesia de Murilo me foi sempre mestra, pela plasticidade e novidade da imagem. Sobretudo foi ela quem me ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo”.

Metamorfoses
Murilo Mendes (esquerda), Maria da Saudade Mendes (centro) e João Cabral de Melo Neto (direita)

Victor Pedra Autor

Estudante de letras, gosta de livros e batata frita.