As pálpebras das entrelinhas

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Agora.

Sem tirar nem pôr, só e simplesmente: agora. Situou-se no tempo? Ok. Prossigamos.

 Agora, você está fazendo mais coisas do que imagina. Sua língua está encostada na parede interna que seus dentes oferecem, na escuridão que há dentro de sua boca. Agora, se você parou para pensar, a coisa mudou de figura. Talvez sua língua não seja tão grande, nunca terá como saber, pois quando raciocinou se realmente estava encostando-a nos dentes por dentro da boca, não conseguiu mais ter controle sobre isso. E sempre que parar para pensar, se isso é, como eu disse, uma ação involuntária, o lado adormecido de seu cérebro que seria o único a poder avaliar, acordará. É confuso, mas tente entender: o inconsciente quando fica consciente não transmite confiança alguma. É racional demais para entender ações involuntárias.

Se ela – sua língua – estiver encostada nos dentes, talvez, mas só talvez, tenha sido seu lado consciente ordenando o lado primitivo que agir de tal forma fosse o correto, mas somente porque eu disse que isso deveria estar acontecendo. E você não quer ficar de fora da festa, né? Pelo menos seu lado consciente não quer. Ele – o lado consciente – tem essas manias, de subjugar os outros lados sobre o que é correto ou não.

Voltando às coisas que você está fazendo sem reparar. O controle dos batimentos cardíacos é uma delas. Outra delas é o piscar de olhos.

É justamente aí que repousa meu maior segredo.

Não sei piscar.

Primeiro o oftalmologista examinou meus olhos por todos os ângulos, com todos os tipos de ferramentas. Aplicou alguns colírios, mediu o grau de miopia duas ou três vezes e decidiu. Eu não sabia piscar.

– Mas qual ser humano não sabe piscar?

– Ora, na verdade mesmo, você é o primeiro que eu conheço. Mas estudei isso na faculdade, eu acho. Vai saber, faz tanto tempo que me formei.

O Oftalmologista de cabelos brancos, se tivesse algum humor seria mau. Carrancudo me analisou por vinte minutos. Sabendo que ele estava me analisando piscar, aí sim que as pálpebras se perderam. Cheguei a lacrimejar. Não sei se por vergonha ou por não coordenar direito os olhos. O médico receitou alguns colírios, mas acima de tudo, receitou que eu piscasse. Que eu aprendesse a piscar. Mas, realmente, quem aprende a piscar depois de duas décadas e meia de vida?

Não sei a patologia ou a origem disso. Se é que podemos chamar de doença. Prefiro chamar de defeito. E quando fizer aquelas coletivas de grupo, onde perguntam as qualidades e os defeitos, terei orgulho de sinalizar: Qualidades? Observador. Defeito? É, bem, olha… Não sei piscar, né.

Vergonha.

É isso que sinto. Quando me situo, aqui e agora, constato que não estava piscando direito. Só então começo a piscar com alguma periodicidade. Sinto ainda mais vergonha quando percebo que estou concentrado nisso. Não penso em nada além de piscar. Conto até vinte e, internamente, grito: agora! As pálpebras descem como guilhotinas da inquisição.

Poderia ser pior

Eu poderia ter que controlar a respiração. Imagine você. Mas como tudo tem um lado bom, se meu problema fosse respirar, eu não teria outros problemas. Esqueceria tudo. Concentraria em sobreviver. Inspira, expira. Expira, inspira. E assim, para sempre. Pensaria em coisas diversas por algum tempo, mas pouquíssimo tempo. Apenas o suficiente para ficar sem ar e voltar a respirar. Acarretaria em ejaculação precoce. Sabe como é.

Agora.

Situei-me no tempo. OK, prossigamos. Pisquei por alguns minutos. Tinha esquecido enquanto produzia esse texto. Acho que é a minha maldição como escritor. Não piscar com medo que as letras desapareçam. Permanecer atento a todos os detalhes, pois das entrelinhas, podem saltar as maiores bizarrices. Até mesmo, personagens que não piscam.

Ponto. Pisca.

É.