As primeiras vezes de uma jovem garota do colegial

“Primeiras vezes”, conto de Natália Borges Polesso, apresenta as primeiras relações de uma garota: primeiro com um garoto e, tempos depois, com uma amiga que chamava sua atenção
Primeiras vezes, de Natália Borges Polesso. Foto: Diogo Sallaberry
Natália Borges Polesso, autora do conto “Primeiras vezes” | Foto: Diogo Sallaberry

O conto “Primeiras vezes”, de Natália B. Polesso, publicado no livro Amora (vencedor do Prêmio Jabuti em 2016), apresenta uma história de descoberta, de medo, de maravilhamento.  Uma jovem garota, estudante em um colégio público tradicional, cansada de ocultar a sua virgindade, acaba tendo suas primeiras relações sexuais. A primeira vez, de fato, deu-se com um garoto do colégio. A “segunda primeira vez” foi com uma amiga, também do colégio.

 

A primeira vez

Toda sexta-feira os alunos do colégio matavam aula e iam aos bares próximos ao colégio, tomavam catuaba com Fanta uva, Coca com vodca, cervejas baratas ou, quando em um momento superior, Curaçau blue com Sprite.

Sempre todos ficavam bêbados. Foi em um dia assim que a personagem principal, não nomeada pelo narrador, confessou várias de suas intimidades. Dentre elas: seu desejo de beijar a boca vermelha de Letícia. Letícia gostava da ideia, desde que o namorado estivesse junto.

Em uma dessas matanças de aula, a personagem conhece um garoto de nome ruim. O Luís Augusto Marcelo Dias Prado.  Ela, que vivia mentindo para suas colegas, dizendo que não era mais virgem, acabou transando com o garoto de nome ruim. E não foi como esperava. Porque ele não tinha um carro, em que o rádio tocava uma música legal. Nem mesmo teve tempo de tirar o sutiã. Foi tudo muito breve, para não dizer outra coisa. Não foi bom e ainda tinha a mesma cara de virgem.

Precisava ligar para sua amiga Letícia, contar como havia sido. Contar que, na verdade, aquela era a sua primeira vez. E que sonhava com os lábios vermelhos de Letícia, que as lésbicas invadiram os shoppings. Entre outros assuntos para evitar outros assuntos, nos quais não sabe como tocar.

 

A segunda primeira vez

Era uma festa. A boca vermelha de Letícia sempre em sua mente. Depois de alguns dias passados depois daquele telefonema. As duas se evitando, faltas no colégio.Todos os colegas do colégio estavam bebendo, dançando, bebendo, comendo, bebendo. Até que Letícia a puxou pela mão.

Por fim, as duas não tiveram tempo de tirar o sutiã. No carro não tocava uma música bacana. Foi tudo desajeitado e esquisito como todas as primeiras vezes.

E assim foi. As aulas continuaram e as matanças de aula, às sextas, também.

 

Primeiras vezes: descoberta e naturalidade

Versar sobre esse conto, ou grande parte dele, teve a intenção de apresentar alguns fatos para comentá-los brevemente aqui. O mais interessante de “Primeiras vezes” é como os assuntos virgindade e desejo entre mulheres são postos. É tudo natural. Como é na vida real, ou seja, por ser algo próprio do ser humano. A perda da virgindade e o desejo entre mulheres nada mais é, portanto, que parte da representação das relações humanas.

Por um lado, a descoberta da homossexualidade pela personagem principal é repleta de estupor. Por outro, é rodeada de uma ansiedade pelo encontro do eu, que ela ainda não sabe ao certo como é. Sua segunda primeira relação, fora dos padrões da sociedade, é quase como um território inesperado, desconhecido, em que há muito para explorar.

Em “Primeiras vezes”, estão presentes o medo de não ser aceita por ser virgem; a decepção com a primeira relação sexual; a descoberta do desejo de uma garota por outra garota, bem como a relação sexual entre elas. Temas atuais e raros na literatura, os quais são de grande importância no que diz respeito à representação da mulher e da sua sexualidade.

 

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela