As Terras Distantes próximas da nossa em Uma História do Ódio

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A estreia ficcional de José Carlos Moreno se passa em Terras Distantes próximas da nossa realidade

Por Yago Santiago
Foto: Yago Santiago

O tradutor, roteirista e educador José Carlos Moreno lançou seu primeiro romance em 2015. Sua formação dentro das áreas de Letras (especialização em Estudos Linguísticos e literários pela Fundação São José, bem como em Língua Inglesa pela Universidade Gama Filho) e de atividade criativa (Roteiro de Cinema e TV pela Universidade Veiga de Almeida) certamente auxiliaram em sua incursão pela escrita literária.

O livro Uma História do Ódio foi gestado pelo autor ao longo de nove meses de dedicado trabalho. E o resultado é proveitoso para nós, leitores interessados em descobrir novos nomes da literatura brasileira. A edição belíssima ficou a cargo da Confraria do Vento: uma editora carioca especializada em arte, pensamento e literatura contemporânea. Nascida de um grupo de estudos que editou – até 2009 – a revista Confraria, a editora fez um trabalho impecável na publicação desta obra de José Carlos, que teve como ilustração de capa a bela pintura Milk (2012, óleo sobre tela do irlandês Conor Walton).

Como a maior parte das estreias, o romance de José Carlos tem pequenos problemas formais, mas vários méritos também. O livro é narrado em primeira pessoa por Padre Olavo e conta o embate entre duas famílias. A ação se passa nas Terras Distantes, que englobam as Terras Abastadas e as Terras Esquecidas. Apesar do clima mitológico e da ambientação propositalmente fluida em termos de tempo e espaço, as Terras Distantes não estão – de fato – tão distantes da nossa realidade.

Diferente de livros altamente vendidos hoje, que exploram ambientes exóticos, universos fantasistas associados a crenças druídas, contos de fadas, mitologias grega, nórdica etc, o romance de José Carlos Moreno constrói sua atmosfera longe de modismos. O cenário de Uma História do Ódio – que lembra um pouco o universo do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967) – é uma região árida, onde a luta pela sobrevivência parece justificar qualquer conduta. A desigualdade social é gritante, mas o romance escapa de maniqueísmos, pois mostra também os mais pobres (família Cabrunco) como cruéis e ambiciosos.

Na guerra familiar que irá se dar ao longo do livro vemos: de um lado Coronel Tonho e seus confrades; de outro, Zé Cabrunco e os seus. O abastado Tonho tem consigo a esposa Tiana, seus gêmeos primogênitos Telo e Tiló, as filhas Margaridinha e Olivinha e o temporão Toinho. Xico da Venda e sua esposa Donana também vivem sob a influência dele, bem como João do Nada, filho bastardo de Xico.

No campo oposto (nas Terras Esquecidas) estão Zé Cabrunco, sua mulher Ana, os filhos Caé, Capito e Órinho, bem como a filha Maíra e o empregado Bidias, historiadoodioalém da cadela Princesa, tratada como membro da família.

O embate entre os dois grupos opostos não se mostra, de forma alguma, como uma luta do bem contra o mal. Está aí um dos grandes méritos do livro, que, assim, escapa de ser uma mera historia de aventura popularesca, assemelhada ao espetáculo descartável das telenovelas.

O estilo vincula-se claramente ao modernismo e tem momentos bastante felizes, pois não se prende a um rigor gramatical que pudesse vir a amarrar a fluidez narrativa.

Apesar de alguns raros deslizes estilísticos, é fácil perceber a boa qualidade do texto. A riqueza vocabular de José Carlos é patente; a sintaxe, exemplar. Porém há que se lamentar que, em Uma História do Ódio, ocorra repetição de determinadas formas que, apesar de elegantes, não deveriam ser usadas em profusão, como se vê em: “disse um apreensivo Bidias” (p. 78), “disse um enigmático Queronte” (p. 90), “disse um apreensivo Xico” (p. 100), “disse um combalido Bidias” (p. 108), “disse um arrependido Jacó” (p. 121), “disse um terno Órinho” (p. 121), “disse um doente Caé” (p. 125), “disse um combalido Bidias” (p. 135), “disse um moribundo Bidias” (p. 138), “disse um irônico Tadeu” (p. 140), “disse um enigmático Bidias” (p. 148).

Entre as maiores qualidades do romance Uma História do Ódio está a perfeita caracterização dos personagens. Em momento nenhum da narrativa o leitor é levado a confundir um deles com outro. Isso é um grande mérito em se tratando de um romance com grande quantidade de personagens, como este. Mesmo relevantes obras da literatura universal deixam o leitor confuso quanto a esse aspecto. Quem já leu Cem Anos de Solidão (de Gabriel Garcia Marques), por exemplo, vê que, mesmo ali naquele importante romance, depois de muitas páginas a gente começa a confundir um personagem com outro. Em Uma História do Ódio isso não acontece.

Outro aspecto positivo dessa obra de José Carlos Moreno é a fabulação, a história, o desenrolar dos acontecimentos. Esse aspecto das obras literárias tendeu a ser um tanto negligenciado a partir das experimentações modernistas do século XX, quando se entendeu que a forma como se escreve é mais importante do que o assunto que está sendo abordado. Mas até que ponto esse menosprezo pela história não seria mero modismo? A importância de alguns grandes escritores como, por exemplo, Adolfo Bioy Casares (1914-1999), se deu principalmente pela arte de contar uma boa história. Divagar em torno dum assunto, mesmo que num estilo primoroso, pouco tem de propriamente literário. Boa literatura é, também, história. E um bom exemplo temos nesse romance de estreia de José Carlos Moreno.