Augustine de Villeblanche ou O Estratagema do Amor: a ambiguidade de Marquês de Sade

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 Augustine de Villeblanche ou O Estratagema do Amor, muito além de risadas cínicas e de um canhão de misantropia aos ditos valores vigentes.

marques de sade
Marquês de Sade

Lá vai Augustine de Villeblanche! Linda, tão livre, esperta, vívida, mais poderosa que uma rainha em sua coroada juventude de 20 anos.  Claro, a combinção de beleza e seu gênio tempestuoso fez uma parcela generosa dos homens do reino caírem de paixão por ela, e em retribuição ela os fez caírem de seus pedestais achando que a podiam conquistar como a um troféu.

“- Queira Deus que não tomemos nenhum partido sobre isso… Não é, minha cara? – continuava a bela Augustine de Villeblanche, lançando a essa amiga beijos que pareciam, entretanto, no mínimo, suspeitos […] não seria infinitamente mais simples, num gesto totalmente indiferente à sociedade, tão ao agrado de Deus, e, talvez mais útil à natureza do que se imagina, que se permitisse a cada qual agir segundo a própria vontade?”

E lésbica. Augustine nunca se importou com homens. Talvez puro desprezo com o sexo oposto, ou apenas vontade renovada de se divertir as custas das moças do reino. Ela como se o mundo fosse só o quintal dela, esperando sua boa vontade para se saciar. E quem discute com uma mulher dessas? Ninguém, mas toda vizinhança possui um rapaz a quem a natureza abençoou com doses generosas de coragem, ousadia e severa teimosia (não bem nessa ordem). Veja o jovem Franville: dois anos mais moço que Augustine, rosto liso, boas feições e:

“Feições as mais delicadas, e os cabelos mais bonitos do mundo; quando o trajavam de mulher, ficava tão bem que sempre enganava os dois sexos,e recebia amiúde, fugindo ao assédio de uns, dos que demonstravam segurança em sua ação, uma grande quantidade de declarações tão objetivas que no mesmo dia seria capaz de se tornar o Antínoo de algum Adriano ou o Adônis de alguma Psique.”

E ele resolveu ir atrás de Augustine. Ele a queria a todo custo, mesmo sabendo de seu descaso colossal com homens. Evitou se mostrar diretamente para a donzela, mas mandou a vigiarem, e em pouco tempo conhecia os passos dela como os próprios. Durante um grande baile de carnaval, no qual a senhorita Villeblanche se vestia como homem e saía à caça de mulheres, o nosso aprendiz capenga de Don Juan se vestiu de mulher, se muniu de uma irmã não tão bonita quanto ele disfarçado (uma irmã secundária cujo nome sequer é citado nesse conto) e igualmente foi à caça. Não demorou muito para Augustine notar a bela ‘dama formosa’. Menos ainda para a raptar, leva-la a um quarto reservado (Augustine era rica, bem relacionada, quarto reservado, tá bom …) e atacar a presa.

“- Ah! Digo-vos que aos dezoito já se deve ter adquirido o direito de fazer tudo o que se quiser… Vamos, vamos, acompanhai-me, e não tenhais nenhum medo… – E Franville se deixa levar. […] – Oh Deus! – diz Franville, tão logo vê Augustine fechar a porta desse quarto e envolvê-lo nos seus braços -, oh pelos céus! Que desejais fazer?… O quê? Convosco, frente a frente, senhor, e num lugar tão retirado… Deixai-me, deixai-me, rogo-vos! Ou chamo agora mesmo por socorro. – Impedir-te-ei de fazê-lo, anjo divino – diz Augustine, apertando a bela boca contra os lábios de Franville – grita agora, grita se podes, e o puro sopro de teu hálito de rosas abrasará ainda mais cedo o meu coração.”

Imagine a expressão da senhorita Villeblanche quando, após uns amassos, descobriu ter um homem ao invés de uma dama em sua frente…

“- Horrível criatura – diz Augustine, pondo a mão em partes do corpo que não dão margem à dúvida -, tanto trabalho para encontrar um mísero homem… é preciso ter azar demais.”

Tem quem se engane por conta, não? Franville não estava nem aí. Ele se fez de isca para Augustine e ela caiu tolamente. Criatura inocente que acha todas as mulheres serem mulheres, ela não aceita ter caído na lábia de Franville. O restante do conto se desenvolve em uma série enorme de acusações: Franville diz que em sua ‘ordem’ há votos de não tocar em mulheres, Augustine detesta os homens que odeiam mulheres. Ambos são orgulhosos ao extremo, e cada argumento é rebatido com fúria e desgosto. Ou assim um dos lados se faz, afinal ambos mentiram um pouco em primeira instância. Franville nutre algum sentimento por Villeblanche, e não é desprezo. Já ela não sente nada de bom por ele, mas gostou tanto do beijo roubado… o corpo vence. Ou talvez, muito talvez a argumentação de Franville, que consegue, muito vagarosamente, uma confissão e tanto da bela Augustine. Mas o final do conto você não vai ler aqui. Sem spoiler! Pode chacoalhar o livro ou virar o PDF onde leu o conto do avesso: não há palavrões, nem torturas, mortes, bocetas ou caralhos. É um conto muito comportado para os padrões do velho Marquês de Sade. Há um desprezo nítido pela sexualidade comum, vide o discurso da protagonista ao longo do conto; mas até isso vindo de Donathien Alhponse François é muito pouco – ele nunca se deu bem com a sociedade mesmo. Mas a forma como ele lidou com isso é o triunfo deste conto. Jogado à sombra em coletâneas, é como se Sade tivesse feito neste conto um ataque menos furioso que de costume, em especial pela conclusão dele. Augustine odeia homens, se encanta e ataca um homem disfarçado de mulher e esse final? Sim. Talvez soe um final previsível para quem tem uma imaginação potente o bastante à cata de possíveis conclusões, mas se esse conto tivesse sido escrito por outra pessoa seria menos ambiguo e até didático. No início, Augustine comenta sobre servir a sociedade, a natureza ou ao próprio bel-prazer, e não deixa de ser uma farpa contra certas fiscalizações da genitália alheia. E ainda assim não há ‘bandeira’ alguma aqui. Foi escrito pelo Marquês, e quem já tocou a produção dele sabe que é impossível levar toda ela a sério. Mas ainda assim tem como extrair algo além de risadas cínicas e um canhão de misantropia aos ‘valores vigentes’ – Sade diluiu isso em Augustine de Villeblanche ou O Estratagema do Amor como em nenhum outro conto.

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Sugestão de link para leitura: Augustine de Villeblanche ou O Estratagema do Amor aqui!