Autor versus Autor

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Novos autores, geralmente, nem publicaram seus livros e já tratam uns aos outros como rivais. Por que, em vez disso, não se unirem?

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A Academia Brasileira de Letras foi criada para unir escritores brasileiros.

Desconheço a razão pela qual o novo autor costuma ver o outro novo autor como um rival. Aliás, ignoro o motivo que leva qualquer pessoa a fazer de outra pessoa sua rival. Mas isso já é outra história.

O fato é que, com a abertura e a democratização do mercado editorial, principalmente através de editoras sob demanda, surgiu – e ainda surgirá – milhares de centenas de novos autores, todos buscando com histeria e selvageria um espaço na estante do leitor.

Como se só coubesse um livro em cada estante.

Logo, o aumento de novos autores, de forma alguma, significou um fortalecimento para estes mesmos novos autores, porque, ao invés de se unir, eles resolveram competir. Acirradamente, diga-se de passagem.

E, quando falo em união, não quero dizer comprar os livros uns dos outros. Até porque, esta ideia é economicamente inviável. Eu devo conhecer, no mínimo, uns 500 novos escritores, e nem que venda tudo o que tenho conseguirei comprar todos os livros que eles lançam, dia após dia.

Quando falo em união, refiro-me especificamente à parceria, em seu sentido mais amplo e mais simples: curtir a página ou a postagem do outro autor; indicar um escritor que você conhece para participar de um evento literário, ou talvez para escrever em um site. Compartilhar um aprendizado, uma dica, um elogio, uma sugestão. Fazer pelo novo autor o que gostaria que fizessem por você.

Abrir uma porta, em vez de somente passar pelas portas que outros abriram para você.

União é também trabalhar pela profissionalização do mercado no qual estamos inseridos. Eu, por exemplo, sou sócia da Editora Os Dez Melhores, e quando vejo surgir editoras obscuras, com propostas e reputações duvidosas, ou quando cai em minhas mãos um livro editado por outro selo, de péssima qualidade e repleto de erros de português, não penso: oba, a concorrência está fraca!

Pensar assim é dar um tiro no próprio pé. Não posso desejar que o mercado editorial, que abriga a minha editora, se equipare por baixo. Quero é ver surgir editoras cada vez mais sérias e comprometidas, tanto com o novo autor como, principalmente, com o leitor. Pois no momento em que o mercado passa a se profissionalizar, eu ganho, meus autores ganham, as editoras e seus autores ganham, o leitor e a literatura nacional ganham. Todo mundo ganha e todo mundo fica feliz.

Minha editora é parceira de outras editoras, como a Penalux e a Patuá. Somos, de certa forma, concorrentes. Mas jamais nos vimos e muito menos nos tratamos como tal. Afinal, a Editora Os Dez Melhores, a Penalux e a Patuá, assim como tantas outras, estão buscando um mesmo objetivo: o fortalecimento da literatura e de nosso mercado editorial. Então, estamos juntas.

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A dupla, Borges e Casares, é maior exemplo de que parceria entre escritores pode dar certo.

O mesmo vale para o novo autor. Não fico feliz quando vejo um colega escritor cometer erros medonhos de português nas postagens, textos e e-mails que escreve, ou se comportar como um lunático, crente de que é um gênio literário. O fato de ele errar, em nada colabora para o meu crescimento e nem para o desenvolvimento e valorização da literatura brasileira – da qual faço parte.

Um dia alguém me disse: “você não deveria escrever textos dando dicas para novos autores, já que o seu trabalho enquanto editora e redatora é justamente cobrar para passar estas dicas adiante.” Bem, eu não penso assim. Meu trabalho realmente é conduzir o processo de edição e divulgação do novo autor, mas isso não impede que eu compartilhe algumas sugestões despretensiosas aqui, ou em qualquer outro lugar.

Oferecer gratuitamente o que eu poderia vender não desvaloriza nem desqualifica o trabalho que eu realizo na Editora Os Dez Melhores e na agência Teia de Marketing Literário Virtual. Pelo contrário. Na minha visão, somente colabora e acrescenta. Pois no momento em que o novo autor passa a enxergar o mercado editorial com olhos mais realistas, e assume uma postura séria e profissional diante de seu trabalho enquanto escritor, todos saem lucrando. Inclusive eu, você, a Editora Os Dez Melhores e a agência Teia.

Assim, não vejo como pode ser vantajoso competir, ou até mesmo regozijar-se com os erros e falhas de nossos colegas de profissão.

Ademais, tem lugar para todo mundo! Para todo mundo, sublinhe-se, que busca fazer da publicação de seu livro mais do que a mera realização de ‘um sonho de infância’. Para todo mundo que sabe que um livro não é um filho, um editor não é sua babá, e uma editora não é O Fantástico Mundo de Bobby.

Se algum dia quisermos ganhar mais espaço, mais reconhecimento, e até mesmo mais dinheiro, e de fato viver de literatura, não podemos sorrir toda vez que o mercado do qual fazemos parte dá uma mancada, tropeça ou literalmente cai. Se você fizer um bom trabalho, lá pelas tantas, o retorno virá. E se o seu vizinho escritor também fizer um bom trabalho, o retorno dele também virá. O retorno dele em nada interfere, atrapalha ou prejudica o seu retorno. O sucesso dele não pode significar – porque não é – uma derrota para você, assim como a derrota dele não pode ser confundida com uma vitória sua.

Não estamos em um ringue, autores, e muito menos em uma corrida de cavalos. Não somos concorrentes, adversários, competidores, inimigos. Somos colegas, e estamos todos na mesma canoa. Possivelmente temos os mesmos objetivos, e seria inteligente se nos tornássemos parceiros ao invés de rivais. Se pretendemos chegar a algum lugar, precisamos remar juntos e na mesma direção.

Chega de nivelar por baixo nosso trabalho, nosso mercado e nosso futuro literário, amigos escritores. Uma estante tem espaço para muito mais de um livro.