Autores britânicos e seus detetives

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Sherlock Holmes, Miss Marple, Hercule Poirot fazem parte de uma longa lista de astutos investigadores criados por escritores ingleses

Sherlock Holmes
Sherlock Holmes

Para o escritor e semiólogo Umberto Eco, os enredos de detetive fazem sucesso porque o leitor gosta de fazer conjeturas e essas histórias fazem parte de uma rede de outras narrativas que partem de uma pergunta básica, importante na filosofia e na psicanálise: “de quem é a culpa?”. Os romances policiais, segundo o escritor, assumem a forma labiríntica, em formato de redes ou rizomas, em que cada ponta se conecta com outras de diversos labirintos, sucessivamente. Dessa forma, fica mais fácil para o leitor, mesmo o mais ingênuo, farejar as pistas que darão o percurso de saída. Não à toa, o gênero, que nasceu há pelo menos dois séculos, faz sucesso em todo mundo. O berço dos detetives mais famosos da literatura de mistério é a Inglaterra do século 19, apesar de o criador do estilo – Edgar Allan Poe – ser o principal precursor dos detetives tal como são até hoje, com o seu incrível Charles Auguste Dupin.

O detetive apareceu pela primeira vez no conto “Os assassinatos da rua Morgue”, em 1841, e fez parte de outros dois – “O mistério de Maria Rogêt” e “A carta roubada”. Mas até Poe teve um certo grau de influência literária para criar o personagem. Segundo o site Anglotopia, que registra a predileção dos autores britânicos em criar detetives muito peculiares, o autor americano teria se inspirado em um conto de Ernst Theodor Wilhelm Hoffman, um escritor da antiga Prússia, autor de Mademoiselle de Scuderi, uma trama que se passava no reinado francês de Luís XIV cheia de mistérios e reviravoltas.

Dali por diante, uma sucessão de escritores passaram a beber da fonte de Edgar Allan Poe, começando por Wilkie Collins, romancista e autor de mais de 50 contos, dentre eles “The woman in white and the Moonstone”, também considerado um dos pioneiros do gênero.

O mais famoso, entretanto, é Sir Arthur Conan Doyle, que publicou em 1887 o romance Um estudo em vermelho, em que apresenta pela primeira vez Sherlock Holmes, talvez, o mais célebre de todos os detetives. Doyle declarou que sua inspiração foi certamente Edgar Allan Poe, porém, baseou Holmes no Dr. Joseph Bell, um professor-cirurgião da Universidade de Medicina de Edimburgo, onde se graduou médico.

Logo no início do século 20, G.K. Chesterton criou o personagem Father Brown, inspirado no padre John O’Connor, que teria influenciado o escritor em sua conversão ao catolicismo. Por meio do conhecimento da natureza humana, o personagem deduz, de forma intrigante, as condições e motivações para a prática dos crimes.

Mais famosa e popular nesse sentido é, sem dúvida, Agatha Christie, que criou atípicos e divertidos detetives, sendo apenas um profissional: Hercule Poirot. O investigador belga de bigode engraçado está presente na mais aclamada obra da escritora – O assassinato no expresso do Oriente, mas apareceu pela primeira vez em O misterioso caso de Styles. Metódico e um tanto rabugento, Poirot protagonizou 40 histórias da escritora britânica e tem seu ápice no livro Cai o pano. Mas a “dama do crime” também desenvolveu a astuta Jane Marple, a Miss Marple. O olhar arguto da personagem sobre a natureza humana a ajudava a solucionar os mais estranhos crimes e a personagem quase sempre “passa a perna” até nos melhores investigadores da Scotland Yard. O casal de jovens aventureiros Tuppence Cowley e Tommy Beresford apareceu nas histórias da autora logo após a Primeira Guerra Mundial. Já Parker Pyne era um inusitado detetive que prometia curar os “problemas do coração”. Aridne Oliver surgiu nas tramas de Pyne e, logo em seguida, a personagem, que também era um escritora de livros de mistério, ganhou destaque e protagonizou seis romances.

Neste século, o psiquiatra britânico Frank Tallis criou o personagem Max Lieberman, que aparece em uma série de seis volumes, com apenas três publicados no Brasil. Lieberman é psicanalista contemporâneo de Freud, que soluciona crimes a partir da análise psicológica dos suspeitos e desmascara charlatões da época, afeitos a ludibriar o público em sessões de ilusionismo, assassinos e golpistas. O personagem Lieberman passeia pela mesma Viena do famoso conterrâneo e resolve os crimes enquanto aprecia um pedaço de torta de chocolate no Café Landtmann – local frequentado por Freud no início do século passado, que vende até hoje o doce favorito do famoso psicanalista.