Baleia: uma mãe como muitas outras

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Baleia

A literatura nos proporciona muitas coisas: o impossível, o feio, o belo, os nossos sonhos perdidos. Ela traz, através das palavras, personagens cuja força nos humaniza, e faz de nós leitores, talvez, pessoas mais justas. No Dia das Mães, convido o leitor a relembrar uma personagem literária que, além de grande companheira, também foi (em minha opinião) uma espécie de mãe para a família com a qual vivia.

Esta personagem é Baleia, a cadelinha da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

Uma das características importantes deste livro, a obra mais famosa de Graciliano Ramos, é a personificação da cadela Baleia. Ao lê-lo, o leitor percebe claramente a presença de qualidades humanas no animalzinho que caminha, sertão afora, com a família de Fabiano. Estes sentimentos se expressam de forma muito bela, quando algum personagem no livro necessita de cuidados. Baleia está o tempo todo cuidando dos outros personagens.

No momento da fome, é ela quem traz comida para alimentar seus donos. Caçou um preá no sertão e deu a Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos. A ela, sobraram-lhe os ossinhos. Como diria um ditado popular: uma mãe é capaz de passar fome pelo filhos.

No capitulo O Menino Mais Novo, o filho menor de Fabiano e Sinha Vitória tem um desejo vago de ação. Sua intenção é espantar o irmão e a cachorra Baleia. Planeja fazer isso montando e amansando uma égua alazã da fazenda. De fato ele faz, e cai. E quando cai, Baleia está lá, observando, com olhar de reprovação. Um olhar humano muito materno. Também é ela quem acolhe o menino mais velho após ele ter apanhado de Sinha Vitória, por perguntar a ela o significado da palavra “inferno”.

Mas, em minha opinião, o momento em que Baleia demonstra ser um ser cuidadoso com o próximo acontece no final do capítulo Festa. Enquanto Sinha Vitória está confusa, pensando na cama que almeja ter, e Fabiano dorme bêbado nas ruas da cidade, é Baleia quem cuida e volta a atenção para os dois meninos, que filosofam sobre os objetos da cidade.

Neste capítulo, tão triste, Baleia está sã e reprova (à sua maneira) a atitude dos donos de continuarem em um lugar cheio de pessoas e cheiros desconhecidos. Como uma mãe que ama, ela reprova. E os seus “filhos” (Sinha Vitória, Fabiano, e os dois meninos) a ignoram. Uma mãe como muitas outras.

Porém, tudo isso não passa de conjecturas pessoais. Apenas embasado em muitos estudos sobre o livro, poderia se afirmar que a cachorra Baleia é a grande mãe de Vidas Secas. É um convite para pensarmos nesta personagem tão rica. E que só a literatura com sua força mágica, e um grande escritor como Graciliano Ramos, poderia nos oferecer.

Enfim, feliz dia das mães a todos.