“BH”, de Rodrigo Bastos

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Em BH, livro de contos de Rodrigo Bastos, as histórias flutuam no limiar entre sonho e realidade, apresentando personagens kafkianos em constante divagação

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“BH” (Redondeza Crônicas, 2015)

 

Segundo Ricardo Piglia, um conto sempre narra duas histórias: uma aparente, outra secreta. Ernest Hemingway aconselhava que a secreta nunca fosse revelada: apenas a ponta do iceberg deve ficar à mostra.

Não é a regra que Rodrigo Bastos segue no livro BH, volume de cinco contos pertencente ao selo Redondeza Crônicas. Suas histórias flutuam no limiar entre sonho e realidade, apresentando personagens kafkianos em constante divagação que despertam para o que talvez não seja o mundo no qual vivem. Porém, ao final de suas narrativas, Rodrigo leva seu leitor a despertar juntamente com suas personagens para fazerem os mesmo questionamentos a respeito do que é onírico ou real.

Em seu universo há dois Fernandos em busca de estabilidade amorosa, vivendo o que pode ser uma crise de meia idade. No conto “Lígia”, Fernando, ao tentar fugir de um passado que o atormenta, depara-se com uma misteriosa mulher que o faz (re)viver bons momentos. Ou será que tudo não passou de um sonho? Em “Domingo”, um tombo de bicicleta leva Fernando a relembrar as idas e vindas que compuseram os caminhos que escolheu seguir em sua vida.

Há Alice, uma atriz abordada por um estranho que diz conhecê-la durante um festival de cinema em O sorriso da gata. Mas será que ela é mesmo uma atriz, ou apenas alguém que está sonhando com isso?

Ao encontrar um livro abandonado num banco de ônibus, uma mulher começa sua busca pelo dono do volume. Em meio a divagações, tenta imaginar o caminho do desconhecido leitor suicida. Esse é o mote de “Rihaku”.

Em “Continuidade dos parques, clássico conto de Julio Cortázar, o desfecho coloca o leitor de um romance no centro da história. Quem o leu, certamente apreciará BH, na qual uma professora universitária de Belo Horizonte mantém sua mente em constante divagação, escrevendo ficção em seus momentos solitários. O problema é que há ainda dois personagens de histórias distintas que acabam por se encaixar com a dessa distraída acadêmica.

Ao ir contra os ensinamentos de Hemingway, Rodrigo Bastos convida seu leitor a mergulhar fundo e descobrir algo além da ponta de um iceberg.