A biografia definitiva de Van Gogh – Teria ele pintado mesmo seu fim?

Após a leitura de Van Gogh – a vida é difícil abraçar a ideia de que Van Gogh tirou a própria vida

Noite Estrelada, Van Gogh
Noite Estrelada, Van Gogh

No dia 27 de julho de 1890, um domingo, após almoçar na Estalagem Ravoux, Vincent van Gogh, munido de tintas, cavalete e pincéis, envereda pelos campos de Auvers para mais uma sessão de pinturas. Anoitece quando o pintor desponta com andar trôpego. Retorna sem cavalete, tintas e pincéis, trazendo um pequeno orifício sob as costelas. O que aconteceu de fato naquela tarde é um mistério e as explicações para tal lacuna socorrem-se apenas de versões.

Muito por causa da personalidade depressiva e transloucada do pintor, que inclusive em outros tempos já havia decepado parte de uma de suas orelhas, a versão que ganhou corpo ao longo dos anos é a de que Van Gogh teria cometido uma espécie de suicídio desastrado. Durante a sessão de pintura e enquanto usava a arma para espantar corvos, teria cometido o ato de atirar contra si. Mas a monumental obra biográfica Van Gogh – a vida, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (publicada no Brasil pela Companhia das Letras) pretende confrontar veementemente a tão propalada versão de suicídio.

Como se não bastasse a excelência do trabalho de pesquisa que percorre toda a vida do gênio holandês ao longo das mais de mil páginas, o livro já valeria a pena apenas pelo seu final, em que são esmiuçados todos os detalhes relacionados à tragédia, de modo a esclarecer, por exemplo, que o ferimento causado pelo tiro tinha pequenas dimensões e pouco sangramento, o que, van-goghassociado ao fato de que a bala ficou alojada no corpo, indica que o tiro foi disparado à distância e não à queima-roupa como seria típico de um suicídio.

Além disso, merece destaque a figura de René Secrétan, jovem de dezesseis anos que passava as férias em Auvers e que costumava se vestir com trajes de cowboy, incluindo o porte de uma pequena arma. Nesse contexto, levando-se em conta que René Secrétan tinha por hábito perturbar o pintor de modos extravagantes e que sumiu após o episódio (assim como também sumiram a arma e o material de pintura), é bem provável que Van Gogh tenha assumido a culpa e encoberto algum tipo de disparo provocado por brincadeira, acidente ou outro motivo qualquer que não estaria ligado à vontade do pintor, e isso principalmente por causa de uma frase quase elucidativa dita em seu leito de morte: “não acusem ninguém.”

Enfim, após a leitura de Van Gogh – a vida é mesmo difícil abraçar a ideia de que Van Gogh tenha tirado deliberadamente a própria vida. Sua conturbada condição psíquica, ainda que parecesse invencível, não suplantou a obsessão de construir as bases de uma nova arte que dava sentido à sua vida. Quando morreu aos trinta e sete anos, estava no auge de sua produção, não parecendo justo que a Vincent Van Gogh seja atribuída a responsabilidade incontestável de ter provocado a interrupção de um dos mais significativos patrimônios artísticos da humanidade.

Flávio Sanso Autor

Flávio Sanso escreveu o livro A base do iceberg. Foi finalista do concurso Off flip de literatura/2015 e 2016; um dos vencedores do Prêmio Rubem Braga/Sesc DF de crônicas. Tem residência virtual nos endereços flavio.sanso@gmail.com, @Flavio_Sanso e flaviosanso.com