Boêmios Errantes: os vagabundos de Steinbeck e o essencial na vida

0
674

Em Boêmios Errantes, John Steinbeck cria uma alegoria da condição humana ao tratar dos pobre na Califórnia

7216041920_cfd8883eaf_o

Boêmios Errantes foi o primeiro romance de destaque de John Steinbeck (1902-1968). É certo que ele já havia publicado outras obras antes, mas foi só em 1935 com Tortilla Flat (título original em inglês) que veio a ter sua merecida notoriedade na literatura mundial, em especial na norte-americana.

Mais tarde viria a publicar outros importantes livros, como por exemplo o excelente As Vinhas da Ira (vindo a público em 1939 e logo considerado sua obra-prima). Mas o Steinbeck de Boêmios Errantes nada deixa a dever ao das narrativas posteriores e mais consagradas.

Trata-se dum romance narrado em terceira pessoa, centrado nas aventuras de Danny e outros paisanos. Paisano seria o mestiço de procedências espanhola, indígena, mexicana e caucasiana. Desse amálgama étnico e cultural procederia um povo singular, avesso ao comercialismo, ao acúmulo de bens, às etiquetas sociais e às ambições mundanas. O grupamento que Steinbeck elege para figurar na narrativa é o natural de Monterey, região californiana situada entre São Francisco e Los Angeles, mais especificamente em Tortilla Flat, uma planície no topo de colinas que descem até o mar, de onde vem parte da subsistência da população local.

O romance não deve, porém, ser encarado como um documento, um retrato factual do dia a dia duma comunidade histórica e socialmente especificada. Algumas críticas negativas em relação ao livro de Steinbeck vieram justamente da incompreensão disso. Estamos diante duma obra de arte, uma alegoria sobre o ser humano. Assim, a avaliação dessa obra deve levar em conta sua riqueza de expressão, sua coerência interna, os questionamentos que suscita e não simplesmente postular uma descrição real do mestiço californiano de origem hispano-indígena do período posterior à primeira Grande Guerra.

Em Boêmios Errantes, acompanhamos Pillon, Pablo, Jesus Maria Corcoran, Big Joe Portagee, o Pirata e seus cachorros ao longo de divertidos 17 capítulos com títulos longos descrevendo o que se passará. Um dos mais engraçados é o nono, intitulado: “Como Danny foi apanhado por um aspirador de pó e como os amigos de Danny o resgataram”. Mas todos os episódios acerca desses vagabundos fascinantes nos prendem a atenção e dão o que pensar.

A partir duma herança recebida, desenrola-se a ação do romance. Duas casas, ganhas por causa da morte dum avô, alçam Danny à condição de “proprietário”. Em vez de ficar feliz, o personagem se angustia com as responsabilidades que as casas trariam. Um bom garrafão de vinho logo o ajuda a se tranquilizar a respeito. E, de maneira mais permanente, o que vem a alegrar o personagem é a presença de seus amigos. Estes não pagam aluguel, mas também não são cobrados. Às vezes furtam, porém muitas vezes se solidarizam. Brigam, amam, ajudam, se sacrificam uns pelos outros.

Não são perfeitos ou idealizados. Longe de serem santos ou heróis, os boêmios errantes desse livro são uma grande expressão da humanidade. Numa casa velha compartilhada por todos ou até largados pelo mato ou por vielas enlameadas, eles demonstram ao mundo burguês o que é essencial ao ser humano. Não é dinheiro, status e nem mesmo títulos de propriedade. O que seria relevante então em Tortilla Flat? Descubra mergulhando neste romance e chegando a suas próprias conclusões em companhia de Danny e sua turma.