Borges e Osman Lins em um caso de amor pela arte

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Além de nos agraciar com impressões que nos fazem pensar sobre a sociedade e o ser humano, a literatura é uma excelente fonte para compreender o próprio universo artístico-literário. Alguns autores conseguem transmitir todo o caminho trilhado durante o processo de criação, envolvendo o leitor em uma jornada que mexe com o imaginário, comprovando ainda o seu amor pela arte.

Hoje, falarei de dois escritores em especial, mas as possibilidades são infinitas e se estendem a autores de qualquer língua ou país. Então, porque Borges e Osman Lins? À primeira vista, os dois não têm muito em comum. No entanto, basta um olhar mais atento para encontrarmos pontos de intertextualidade, recurso aqui utilizado para mostrar o quanto suas obras podem se entrelaçar, apresentando ideias a respeito de um assunto inerente à literatura: a sensibilidade do artista, no caso escritor, e sua paixão pelas artes.

Para chegar a esta afirmação, foi necessário ler dois livros: Marinheiro de Primeira Viagem, de Osman Lins, e Atlas, de Jorge Luis Borges. As duas obras, apesar de muito diferentes, possuem pontos bastante semelhantes. A saber:

– primeiro, tratam de relatos de viagem e da saudade e nostalgia que se sente longe de casa;

– segundo, apresentam relações existentes entre o mundo real, do qual fazemos parte, e o mundo do imaginário, o mundo artístico, por assim dizer, aquele que criamos e precisamos para existir;

– terceiro, e último, revelam a sensibilidade com a qual o artista, seja ele escritor, músico ou pintor, encara o mundo e as coisas.

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Escritor Osmar Lins

Marinheiro de Primeira Viagem

A obra de Osman Lins pode ser considerada um romance, pois possui um protagonista que interage com demais personagens e relata acontecimentos em ordem cronológica, apesar da fragmentação do texto e das interferências subjetivas que aparecem ao longo da narrativa.

Essa personagem principal, ora apresentada como ele, vezes como viajante ou estrangeiro e em determinados momentos pronunciando-se em primeira voz, está de viagem pela Europa em busca de um contato maior com a arte. A narrativa fragmentada apresenta relatos sobre lugares visitados, pessoas encontradas e diálogos mantidos entre o protagonista e demais pessoas que ou são seus amigos, companheiros de hotel e de curso de francês ou são escritores e artistas ou motoristas de táxi, recepcionistas de hotéis, garçons, entre outros profissionais que o viajante encontra durante sua excursão particular pelo continente europeu.

Ao longo dos relatos, percebe-se que o estrangeiro tem em conhecer a fundo os lugares visitados pelo estrangeiro. Fazendo um recorte, porém, é possível focar apenas nos trechos nos quais se manifestam a saudade, a relação entre arte e vida e a sensibilidade do artista.

O primeiro trecho que trata da questão da saudade ou lembranças da terra natal da personagem é O Agreste. Nessa passagem, o viajante compara a paisagem que vigiava a sua criação literária no Brasil à paisagem que o envolve em Paris. No primeiro lugar, a natureza tomava conta do cenário: muitas árvores, “um grande pé de fruta-pão, pequenos mamoeiros, um coqueiro anão, dois pés de eucalipto, copas de mangueira” (p. 13). Já em Paris, o cenário é composto por chaminés e árvores secas, por causa do inverno.

Apesar da vivacidade que existe em sua terra natal, o viajante se encanta por Paris e pelos demais lugares que visita. Enquanto peregrina por algumas cidades europeias, é marcante o contraste que existe entre o viajante e os demais turistas, que para ele mais parecem marcianos. Um trecho no qual é visível a indiferença dos turistas e a sensibilidade do viajante é O Cômico.  O estrangeiro está visitando o túmulo de São Francisco e se depara com um grupo de turistas e um guia que, em inglês, faz o discurso de praxe. Ao final da fala, entretanto, o guia, que é um frade, conta uma piada, ao que os turistas põem-se a rir. Esse bom humor diante de um túmulo gera a seguinte conclusão ao viajante: “de bom humor, como se saíssem de um cinema, onde houvessem assistido a um filme de Cantinflas” (p. 92).

Ao longo de seu percurso, a sensibilidade do artista vai se tornando cada vez mais evidente. As descrições dos lugares são feitas a partir dos sentimentos que tudo o que compõe o cenário lhe proporciona. Essa sensibilidade é expressa, principalmente, nas cenas observadas por eles e que ninguém parece perceber, como no trecho O Xilofonista:

Num canto, afastado de todos, um homem pequeno, a roupa sovada, rosto curto, queixo fino e olhos impassíveis, toca xilofone, como esquecido no mundo. É uma música triste. De repente, um bêbado irrompe na Fonda, com um trombone de vara. Toca pessimamente e, neste recinto quase sem saídas, seu trombone estronda. Do balcão e das mesas partem gritos de adesão e pragas. Indiferente, como se o bêbado do trombone não existisse, o homenzinho triste continua a tocar seu xilofone (p. 140).

As cenas descritas são sempre assim, como se compusessem uma tela, uma pintura. O viajante repara em todos os detalhes, nas luzes, nos sons. Suas observações são sempre a respeito de pessoas, geralmente pobres, velhos e crianças; de lugares que lhe despertam algum tipo de sentimento; e, principalmente, de obras de arte. Uma passagem relevante a respeito das impressões que o visitante expõe sobre obra de arte é A Propósito de Goya, no qual, primeiro é exposta a opinião dos críticos ou do público em geral: “[…] chamam a atenção para a técnica das águas-fortes, para as correspondências entre sombra e luz, para o equilíbrio das figuras” (p. 15). A partir disso, o estrangeiro revela, em primeira pessoa, a sua opinião:

Mas tenho para mim que se, naquelas obras, tais perfeições aparecem, é como por acaso: […] Porque havia nele o instinto e a sabedoria dessas coisas. […] o jogo das figuras e das massas – a forma transbordada da paixão – asseguram uma validade estética que chega aos nossos dias e que nos ultrapassará. A Goya y Lucientes, homem extremamente ligado à problemática do seu país, afetado pelas circunstâncias históricas, pela corrução da corte, pela intolerância política e religiosa, pelos “desastres da guerra”, por todos os males evidentes ou não que flagelavam seu povo, o que importava, mais do que realizar obras perfeitas, era testemunhar e advertir. (p. 15)

Nesse trecho é apresentado o papel que o viajante atribui à arte: que é não revelar a realidade tal qual ela é, mas expor uma nova maneira de ver e entender o mundo. Diz-se um novo olhar, pois são levados em consideração os quadros de Goya, nos quais figuras destorcidas, demônios e o grotesco aparecem, geralmente, em cenas de guerras ou lutas.

A respeito da literatura em específico, existem várias passagens. As principais, porém, são duas entrevistas com escritores europeus. Devido à longa extensão desses trechos, apenas alguns fragmentos serão destacados. Na entrevista com Vintila Horia, por exemplo, alguns dos focos são o engajamento e o comprometimento com o social que deve ter o escritor:

O escritor tem obrigação de ser um engagé. […] Ora, hoje, que a voz do escritor tem uma ressonância maior que na Idade Média, uma ressonância que nunca possui, num mundo cada vez menor e que forças bem conhecidas se levantam contra a liberdade do homem, contra a sua paz, contra os seus direitos, como poderemos criar uma exclusivamente para o nosso próprio prazer, perdendo de vista suas implicações sociais? Considero esses escritores que se comprazem em seu esteticismo uns traidores (p. 48).

Aqui, mais uma vez o papel da arte como interpretação do mundo, da vida. Para Vintila Horia, a função do escritor é transmitir através do mundo literário, as questões que preocupam e afligem o homem. Durante a entrevista, outras questões a respeito da literatura são tratadas, mas seria necessário ficar aqui horas e horas para comentá-las por inteiro.

Na entrevista com Michel Butor, assume-se a segunda voz, como referência à obra do autor entrevistado, La Modification, escrita em segunda vez e com problemas de tradução para o português e para outros idiomas. Nesse trecho também é mencionada a importância da literatura engajada, quando Michel Burton fala que seu livro não foi publicado na Espanha, governada por Franco, por que o romance reivindica, através da literatura, melhoria de vida.

Vale destacar que tanto Vintila Horia quanto Michel Butor foram grandes escritores europeus, o que garante um toque a mais de verossimilhança para a obra de Osman Lins. Na verdade, Marinheiro de Primeira Viagem foi resultado de uma experiência do próprio autor, que viajou por seis meses pela Europa. Outro aspecto importante é o significado do próprio título, que conota a inexperiência de um escritor em busca de uma vivência maior para aprimorar sua escrita literária.

Tudo isso faz parte do universo de qualquer pessoa que queira se tornar artista, seja no universo literário, seja em qualquer outra arte, como música, pintura, teatro e por aí vai. Dessa forma, Marinheiro de Primeira Viagem pode ser lida e interpretada para compreender o processo pelo qual passa qualquer aspirante a escritor.

Borges -
Escritor Jorge Luis Borges

Atlas

O último livro de Borges, publicado em vida, apresenta através de diferentes gêneros literários– ensaio, poesia, contos curtos – as impressões sobre algumas viagens. Com uma linguagem muito mais subjetiva que a de Osman Lins, Borges expõe textos repletos de interpretações e intertextualidades, sempre mencionando grandes nomes da Literatura, como Joyce e Wilde, por exemplo, também citados em Marinheiro de Primeira Viagem.Além dos mesmos autores, o argentino e o brasileiro fazem referência aos mesmos lugares, Madri e Genebra, para exemplificar.

A estrutura dos dois livros também são muito parecidas, com uma narrativa fragmentada, toda recortada. Embora carregadas de coincidências, o ponto mais importante e em comum entre os dois está nas observações a respeito de uma obra de arte. Em Atlas, mais especificamente to trecho Um Monumento, as palavras tratam da inspiração de um artista:

Pode-se pensar que um escultor sai em busca de um tema, mas essa caçada mental é menos própria de um artista que de um perseguidor de surpresas. Mais verossímil é conjeturar que o eventual artista é um homem que bruscamente vê (p. 476).

Nessa passagem, a inspiração do artista pode ser entendida como um sentimento bruscamente provocado e que o faz sentir a necessidade e expressar-se. A respeito da relação entre a literatura e a vida comum dos homens, é possível destacar a passagem Irlanda, em que o poeta revela que por meio da literatura entende-se a realidade a partir de um novo olhar:

Antigas sombras generosas não querem que eu perceba a Irlanda ou que agradavelmente a perceba de modo histórico. Essas sombras chamam-se Erígena […] (p. 460).

Erígena foi um importante artista irlandês, que viveu no século IX e ficou conhecido pela obscuridade estrutural de seus textos. Aqui, tal qual o viajante de Marinheiro de Primeira Viagem entendia Goya, temos um personagem compreendendo Erígena. Ainda nesse mesmo trecho, há menções de poetas e escritores irlandeses que contribuíram para a criação de um novo olhar para a Irlanda, alguns deles são: George Berkeley, Oscar Wilde, Joyce e George Moore.

No fim dessa passagem, há menção dos personagens de Ulisses, de Joyce: “Caminhei pelas ruas que percorreram, e continuam a percorrer, todos os habitantes do Ulisses” (p. 460). Aqui, é possível perceber a importância que os escritores e intelectuais possuem na construção de uma identidade própria, de uma expressão única e que, ao longo do tempo, são compartilhadas por poetas de diferentes gerações.

Sobre a sensibilidade de um escritor, no trecho As Ilhas do Tigre, há um comentário sobre a cidade próxima a Buenos Aires, onde o escritor Leopoldo Lugones cometeu suicídio. De acordo com o texto, Lugones finalmente se sentiu livre “do misterioso dever de procurar metáforas, adjetivos e verbos para todas as coisas do mundo” (p. 489).

Após falar da morte de Lugones, a narrativa menciona Horácio, poeta que para ele continua sendo o “o mais misterioso dos poetas, já que suas estrofes cessam e não terminam e também são inconexas” (p. 489). A menção a Horácio pode ser justificada pelo fato deste poeta, que viveu no século 8 a.C., ter como característica predominante o aproveitamento do presente sem pensar no futuro, pois levava em consideração a brevidade da vida.

Adiante, mais que a sensibilidade do artista, existe a perspicácia, que somente quem possui muita leitura, pode interpretar o mundo a partir das letras:

Releio o anterior e comprovo com uma sorte de agridoce melancolia que todas as coisas do mundo me levam a uma citação ou a um livro (p. 489).

Nesse trecho há o misto de sentimentos entre o dever que a Literatura impõe aos homens e a maravilha que é poder compreender, ver e entender o mundo a partir dela.

A respeito da saudade há impressões no trecho Os Sonhos:

Meu corpo físico pode estar em Lucena, no Colorado ou no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o hábito de Borges, encontro-me invariavelmente emergindo de um sonho que ocorre em Buenos Aires (p. 484).

Nesses e em outros trechos, apesar da contemplação de diferentes paisagens e lugares, é possível perceber a saudade que a terra natal desperta no poeta.

Seguindo entre as páginas, 0 que em Marinheiro de Primeira Viagem é apresentado como entrevista, em Atlas é exposto a partir de impressões. Em Nota Ditada em um Hotel do Quartier Latin, é mencionada a importância de Oscar Wilde para o mundo, não só da literatura:

Esse hotel é agora o hotel L’Hôtel, onde ninguém pode encontrar dois quartos iguais. […] os peregrinos que visitam este santuário aprovam que ele tenha sido recriado como se fosse uma obra póstuma da imaginação de Oscar Wilde (p. 493).

E no último parágrafo, aparece a seguinte impressão a respeito do escritor:

Uma crítica técnica de Wilde é impossível para mim. Pensar nele é pensar em um amigo íntimo, que nunca vimos, mas cuja voz conhecemos, e cuja falta sentimos todos os dias. (p. 494).

Ao longo da obra, é mencionado ainda o nome de outros autores, escritores, tratando sempre de sua importância para o mundo da literatura e para a vida, assim como ocorre em Marinheiro de Primeira Viagem. Apesar de não explicito, o narrador procura um maior contato com a arte. A visita a Robert Graves, poeta e romancista inglês, é narrada subjetiva e sentimentalmente destacando a importância que o escritor teve para a Literatura.

São duas visitas, uma em 1981 e a outra em 1982. A impressão que Graves causa em Borges (narrador) é que a morte se aproxima. De fato, o escritor morreu em 1985. Outro artista apontado ao longo dos recortes é Xul Solar, importante pintor argentino que, através de suas obras, reinventou a linguagem e apresentou um novo olhar sobre o mundo:

As pessoas, mormente em Buenos Aires, vivem aceitando aquilo que se chama realidade; Xul Solar vivia reformando e recriando todas as coisas (p. 498).

No trecho que fala do pintor, o narrador se compara a ele, destacando uma característica comum aos grandes artistas:

Todo homem memorável corre riso de ser amoedado em casos; eu agora contribuo ao cumprimento desse destino. (p. 499).

Essa passagem apresenta a constatação de que o homem sempre passa, apesar da grandiosidade da sua arte e da eternidade que nela o artista encontra.

É tudo uma questão de olhar

Chegar à conclusão de que Marinheiro de Primeira Viagem Atlas são duas obras bastante parecidas é um processo individual, assim como acontece toda vez que nos arriscamos a ‘comparar’ duas obras. No entanto, apontando, a partir do texto, quais são os pontos em comum, a ‘teoria’ pode ficar comprovada, o que não impede que seja revogada.

Aqui, a ideia foi mostrar que, nos dois livros, a arte é de grande importância para os homens e sua vida social, causando verdadeiras transformações, tornando o artista mais sensível diante do mundo.

Mesmo se tratando de obras com abordagens completamente diferentes, os dois autores apresentam semelhanças naquilo que diz respeito ao modo de ver o mundo: levam em consideração a importância de grandes artistas, poetas, pintores, romancistas; visitam outros países, muitas vezes distantes de sua terra natal, para procurar e manter contato com a arte.

Essa busca pela arte revela a importância que ela representa para o homem, principalmente para o intelectual que não quer apenas ver o mundo tal qual ele é, as pessoas tais quais elas são, mas compreender a vida a partir de diferentes interpretações. Ou seja, as duas obras são verdadeiras declarações de amor à arte, nossa querida arte de cada dia.