Botchan ou a necessidade do contexto para entender o que foi um romance japonês transgressivo

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Comparado a O apanhador do campo de centeio, de J.D. Salinger, o romance de formação Botchan, de Natsume Soseki, é um livro muito diferente se levarmos em conta o contexto cultural em que a história se passa

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Natsume Soseki

Natsume Soseki é um dos nomes mais importantes da literatura japonesa do século XX. Ainda assim, não tivesse eu um pouco de noção de certas nuances da cultura deste pequeno país do outro lado do mundo, talvez não teria me envolvido tanto com o livro. Não que Botchan (Estação Liberdade, 2016) seja datado, mas tal como O apanhador do campo de centeio, de J.D. Salinger, precisamos ter certa noção cultural.

(No caso do Apanhador, a derrota de Holden Caulfield ter sido expulso pela quarta vez de uma escola particular, sendo americano, cercado a vida inteiro pelo discurso da necessidade da vitória, do seguir em direção ao american dream.)

Antes de exemplificar o que pretendo dizer, tratemos do enredo.

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Botchan, de Natsume Soseki (Estação Liberdade, 2016)

Em Botchan, temos um jovem órfão de mãe que cresce sob a sombra do irmão mais velho, a quem a atenção do pai é dirigida, enquanto ele segue sendo o que erra em tudo. Seu único apoio é o de uma funcionária da casa, a qual deposita nele uma confiança injustificada, emprestando dinheiro ao rapaz e fazendo-o prometer que, ao acabar seus estudos, comprará uma casa para si e a empregará, permitindo que o sirva até o fim de seus dias. Na adolescência, o jovem perde o pai censurador. Recebe sua parte na herança e a emprega no estudo. Forma-se como professor de matemática e é convidado a lecionar em uma cidadezinha do interior do Japão. Daí em diante, começa a verdadeira saga do personagem. É ao chegar à cidade longe da capital que é posto à prova. Sua personalidade teimosa e desbocada – revelada, por exemplo, em sua facilidade de xingar – é confrontada pelos mais sutis personagens, um microcosmo das sociedades humanas, que Soseki nos apresenta através de pessoas tão caricaturais que torna-se impossível não lembrarmos de sujeitos que conhecemos.

Porco-espinho, Texugo e Abóbora Verde são alguns dos apelidos que o protagonista distribui aos colegas, pelo menos para si. A princípio, posta-se como superior, alguém que veio da capital. Mas no decorrer do romance, vemos sua personalidade chucra, sua falta de traquejo social, não sabendo em quem acreditar e, muitas das vezes, aliando-se às pessoas que querem acabar com ele e se afastando de quem realmente lhe quer bem. Sem falar de sua inépcia ao lidar com os alunos, quem o fazem sofrer com as peças que lhe pregam.

Você pode estar se perguntando o que há de transgressivo nisso tudo?

Assim como vemos Holden Caufield xingar a tudo e a todos, vemos o protagonista desdenhar de tradições fundamentais da cultura japonesa. Faz pouco caso das gueixas, diz que Haiku (ou haicai, como estamos acostumados a chamar no Brasil) “é coisa para o poeta Bashô ou donos de barbearias”, além de debochar de elementos sublimes como a arte floral ikebana, à qual chama de idiotice e acrescenta:

“Se curvar gramas e bambus é motivo de tanto júbilo, mais valeria se ufanar de um amante corcunda ou de um marido manco.” (pg. 151)

Isso torna o livro desagradável? Muito pelo contrário. Do atrito entre esta personalidade bruta e as sutilezas perigosas do mundo adulto, nasce um romance pleno, de um envolvimento único. Botchan, de Nastume Soseki, é um belo convite a enxergar na literatura japonesa um espelho de nosso próprio tempo, de nossa humanidade.

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