Botei o papel na máquina

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Raymond Queneau
Raymond Queneau

Começo de maneira totalmente diferente da que pretendia. Não sei se esta, ou qualquer outra que imaginei antes, é a melhor maneira de começar esta crônica. E não me conformo em não saber. A dúvida maltrata-me o juízo. Como um juiz maltrata o martelo, a mesa, o réu e a consciência.

O que mais poderia registrar aqui, nesta página em branco? O branco olha-me com cara de analista. Como eles cobram caro hoje em dia! Sabe quanto o papel em branco me cobra? O preço de expor-me ao ridículo diante de vocês.

Preciso revelar, abrir as gaiolas, soltar os passarinhos. Não suporto a cara de alma penada desse papel a olhar-me de frente. Tenho que dizer-lhe algo. Mas o que meu Deus? Se o que realmente gostaria de dizer voo-me das mãos instantes atrás.

Porém, preciso dizer algo. Sinto uma vontade incontrolável de escrever. Sou um escritor! Um predestinado! Um pobre coitado! Um eterno prisioneiro das palavras.

Arre! O que quero dizer, ou o que queria, só que com outras palavras, é que sou plenamente de acordo com o que Mário Quintana traduziu, adaptou, ou adotou, sem data venia, do novelista e poeta francês Raymond Queneau:

“Meu Deus, que vontade me deu de escrever um poeminho…
Olha, agora mesmo vai passando um!
Pst pst pst
vem para cá para que eu te enfie
na fieira de meus outros poemas
vem cá para que eu te entube
nos comprimidos de minhas obras completas
vem cá para que eu te empoete
para que eu te enrime
para que eu te enritme
para que eu te enlire
para que eu te empégase
para que eu te enverse
para que eu te emprose
vem cá…
Vaca!
Escafedeu-se”.