As Brasas, de Sándor Márai: um romance fora do seu tempo

Censurado por mais de quarenta anos em sua terra natal, As Brasas, de Sándor Márai, é um elegante monumento no qual a decadência de um mundo é investigada com maestria e repleto de silêncios.

marai_topSe há algum problema em As Brasas, de Sándor Márai, é o fato de tê-lo escrito numa língua menor, o húngaro. De resto, não há dificuldade em colocar esse romance ao lado de tantos outros romances europeus do século passado a mostrarem a decadência de uma civilização com a elegância de Thomas Mann e Sthefan Zweig. É uma pena que Sándor Márai tenha posto fim na sua própria vida, em 1989, nos EUA, na última etapa do seu longo exílio por vários países. Assim, não pode ver o sucesso que As Brasas tiveram com sua tradução ao inglês, repercutindo e reavivando sua obra para além da sua amada Hungria.

O mote de As Brasas pode parecer simples, até mesmo bobo: um velho general, Henrik, se reencontra depois de quarenta e um anos com um amigo de infância, Konrad, no seu castelo, na região dos Cárpatos. Nesse encontro, temos a conversa desses dois homens a oscilar entre o passado perfeito e o declive suave e permanente de um mundo há muito soterrado. Nesse mundo, há imperadores e lealdade, castelos e aristocratas. É um tempo distante, ainda mais se pensarmos que a conversa desses velhos amigos se dá logo após o início da Segunda Guerra Mundial. Contudo não se pode reduzir essa vibrante obra a tão pouco. Algo incomoda o velho general, um fato que ocorreu na última vez em que se viram – e o general quer saber a verdade, anseia por ela. O misterioso fato, que se delineia com o correr desse curto romance, acaba servindo para evocar outras questões, mais amplas. Os silêncios do passado são quebrados e as reminiscências da vida de Henrik – e por que não do próprio império – nos são apresentadas enquanto Konrad as ouve em meio à escuridão do velho castelo. Há um ar de nostalgia, ou quem sabe um apego excessivo ao passado, em tudo que cerca Henrik. Os quadros das antigas gerações, os vinhos de safras antiquíssimas, candelabros de velas azuis, longas sombras, porcelana francesa, antigas florestas, tudo é louvado e posto para recriar os áureos tempos no quais Konrad e Henrik cresceram e se tornaram amigos entre a academia militar em Viena e o antigo castelo na região dos Cárpatos na Hungria.

315088Sándor Márai sabe como ninguém recriar, por vezes com um ar nostálgico, o mundo do Império Austro-Húngaro em seus mais ricos detalhes. Não faltam empregados a ajudar na caça, sentimentos nobres com seus pares e uma rejeição concreta ao presente, figurado na pessoa do velho general isolado em seu castelo.

Ler As Brasas é um exercício prazeroso, pois a prosa trabalhada e fluída de Márai não nos faz sentir o correr das páginas. Quando vemos, os longos monólogos de Henrik findam, nos dando a impressão de que junto se tem um fim de tempo distante demais para ser real. Uma leitura digna para quem quer saber como é a queda de um homem – e de um mundo que ele ainda mantém vivo dentro de si.

Sándor Márai. As Brasas. Companhia das Letras.

José Figueiredo
podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)
José Figueiredo
podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)
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