Brutalidade em transição – Enterre seus Mortos, de Ana Paula Maia

Enterre seus Mortos mantém a unidade da voz autoral de Ana Pala Maia, e adiciona elementos à brutalidade que se tornou parte de sua produção

Ana Paula Maia

Brutalidade é uma palavra fácil de associar à produção literária de Ana Paula Maia. Seus personagens são brutalizados pelo que os cerca, dos ofícios extenuantes às histórias pessoais de cada um, e suas ações falsamente banais são mais expressivas do que seus diálogos.

Enterre seus Mortos, romance publicado esse ano pela Companhia das Letras, é uma nova incursão nesse mundo – e um pouco mais. O ambiente pesa nos personagens como se fosse um deles, da exaustão de uma carvoaria e de um abatedouro à coleta de lixo e a vigilância de um presídio. Elas exigem mais do que força pra se manter e às vezes quem está inserido se dá conta, mesmo acostumado com a carga.

E carga não falta para Edgar Wilson, protagonista desse livro. Em outra obra da autora, Edgar era o responsável pela morte pacífica do gado em um abatedouro, mas aqui ele chega perto de morte de outro jeito: apenas leva os cadáveres dos animais que são encontrados nas estradas.  É como se tivesse trocado o cheiro de sangue fresco de um lugar pelo de carniça ao ar livre, enquanto a narrativa conta um pedaço do que se passa dentro da cabeça dele, à medida em que se aproxima de mais um corpo a ser recolhido.

Depois de receber uma chamada, Edgar vai à ocorrência sozinho, mas sabe que vai precisar de ajuda com a carga extra. Sobrou pra ele se aproximar da morte de novo. Se fosse só isso ele daria conta, mesmo precisando de alguém pra o ajudar com a carcaça – e consegue quem o ajude. O problema é que em meio às buscas ele acha outra, mais delicada: o cadáver de uma mulher.

Não é da alçada dele, mas acaba sendo. Se fingisse que não viu, poderia notar um bando de abutres festejando em um corpo e deixar por isso mesmo; mas alguma coisa o perturbou e o fez recolher mais essa carcaça. E descobre que se livrar dela é só um começo de outra história, pois já não divide apenas uma carga física.

Adições à brutalidade

brutalidadeOs méritos de Enterre seus Mortos vão além de manter quem lê no ambiente árido que Ana Pala Maia criou com seus livros. A retomada do personagem Edgar Wilson, presente em De gados e Homens, Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos e Carvão Animal, nos entrega uma saga até essa publicação, e talvez outra dela em diante.

Até esse livro, qualquer um dos anteriores pode ser um cartão de visitas para os enredos de Maia, conduzidos pelas ações de seus personagens brutalizados enquanto seus interiores ficam em segundo plano. As obras abrem espaço pra sua interpretação, sem te obrigar a escolher um lado.

As mudanças estão na inserção de alguns elementos. O enredo continua linear, com pequenas histórias em si, de flashbacks do passado de alguém às situações que influenciam o desfecho. Em Enterre seus mortos temos um enredo com toques de suspense, desenvolvido enquanto Edgar Wilson tenta se livrar do cadáver humano, embora esse elemento não predomine. É de imaginar se futuras publicações terão elementos de outros gêneros em seus enredos, como se esse livro fosse um teste, até um ponto de transição na brutalidade – essa sim predominante – que se tornou parte da voz autoral de Maia.

Outro aspecto que indica uma possível mudança é o Padre Tomás. Ele ajuda o protagonista com a carcaça, e também se aproxima da morte. A sua relação com ela é o foco de um capítulo, revelando seu passado de mãos profanas enquanto evidencia suas contradições. O sujeito não está no romance pra redimir nem converter ninguém, mas suas ações – entre manias e instruções próprias – são como lembranças de que há mais algo em meio à brutalidade.

Walter Bach Autor

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.