Camus e o Absurdo em o Mito de Sísifo

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Albert_CamusAlbert Camus em 1957

Albert Camus nasceu em Mondovi na Argélia, em novembro de 1913, e faleceu em Villeblevin na França, em janeiro de 1960, aos 46 anos. Foi escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo. Em sua terra natal (na época uma colônia Francesa), viveu sob a guerra, a fome e a miséria, fatores que influenciaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Em 1957, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura por sua importante produção literária.

Camus e Sartre se tornaram amigos em 1942 depois que Sartre leu O Estrangeiro e ficou curioso por conhecer o autor. Mas a amizade durou até 1952, quando aconteceu a publicação de O Homem Revoltado, provocando desentendimento entre os dois.

Suas obras mais conhecidas são O Estrangeiro e A Peste, porém a mais marcante para a filosofia foi o ensaio O Mito de Sísifo, escrito em 1941.

Sísifo na mitologia grega era considerado o mais astuto de todos os mortais. Mestre da malícia e da felicidade, era tido como um dos maiores ofensores dos deuses, tendo conseguido enganar a morte por duas vezes, driblando os deuses Tânatos e Hades.  Ao morrer, Sísifo foi considerado um grande rebelde e foi condenado pelos deuses a empurrar, por toda a eternidade, uma grande pedra até o cume de uma montanha só para ela rolar montanha abaixo sempre que estava prestes a alcançar o topo, começando tudo de novo.

Camus_Revista_LifeAlbert Camus dançando. Imagem da Life Magazine

Por este motivo, a tarefa que envolve esforços inúteis passou a ser chamada “Trabalho de Sísifo”. A eterna busca do homem por um sentido para a vida, eis aí um esforço inútil. Há outros esforços inúteis no âmbito político ideológico, como as utopias que pretenderam transformar o mundo, e uma vez passado o entusiasmo pelos ideais elevados, o que se viu foi uma distopia generalizada. Parece que a humanidade está até hoje a pagar pela rebeldia de Sísifo.

Pode-se conceber Camus como um pensador pessimista, mas num olhar mais atento, veremos que não é bem assim. Sua obra literária e filosófica têm o absurdo como pano de fundo e uma proximidade com autores que o precederam, como Franz Kafka e Dostoiévski. Outros importantes escritores e dramaturgos pertencentes a este movimento, que ficou conhecido como estética do absurdo, foram Samuel Beckett e Eugène Ionesco.

O “absurdo” para Camus se origina de nossas tentativas de dar sentido a um mundo sem sentido, e sua obra evidencia as angústias e conflitos da época, mas que continuam a nos desafiar na atualidade. Diante do dilema da futilidade do esforço e da certeza da extinção do homem e do universo, o que nos restaria então? Por que eu não deveria cometer suicídio?  Mas para Camus, o suicido não é a solução para o absurdo, é ao contrário, sua negação, a negação da própria existência humana, e não podemos resolver o problema do absurdo, negando sua existência. Diante do absurdo, devemos de alguma forma metafórica, nos revoltar. A “revolta” é a consciência de nossa condição, mas sem a resignação que deveria acompanhá-la. Aceitar o absurdo é aceitar a morte, mas recusá-lo é aceitar uma vida no precipício, na qual não se pode encontrar o conforto, mas apenas “viver num vertiginoso cume – isso é integridade, o resto é subterfúgio.” O “cume vertiginoso” para Camus é a experiência inteiramente consciente de estar vivo.

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Deste modo, Sísifo que está condenado à eterna repetição, consciente dela, descobre que “a lucidez que devia constituir sua tortura ao mesmo tempo coroa sua vitória”. Camus diz que devemos imaginar Sísifo feliz, pois “ser consciente da própria vida num grau máximo, é viver num grau máximo”.

Camus considera que autores da filosofia existencialista como Kierkegaard e Sartre fracassaram em tentar resolver o conflito para as consequências do encontro entre um ser humano racional e um mundo irracional, porque ele é insolúvel justamente por pertencer a existência humana.

Ter por exemplo, a consciência de que liberdade e justiça são relativas, é na verdade a condição para não desistir delas, e não o contrário.

Albert Camus morreu em um acidente de automóvel em 1960, numa viagem à Paris, decidida de última hora – pois ele a faria de trem – por insistência de um amigo. Em sua maleta estava o manuscrito de O Primeiro Homem, um romance autobiográfico. Por uma ironia do destino, nas notas ao texto ele escreve que aquele romance deveria terminar inacabado.