Captadores de silêncios – De Sergio Leone a Marçal Aquino

 

 

Fotografia é algo muito subjetivo, que capta silêncios. Basta ler A câmara clara, de Roland Barthes, para se dar conta disso. Essa subjetividade está tanto no olhar do fotógrafo, que faz um recorte da realidade pelo visor da câmera, quanto no do espectador, que analisa o produto final e pode ou não se sentir tocado por aquela imagem.

Talvez o grande desafio seja fotografar o que não pode ser visto, captar com a lente ou até mesmo com o black mirror do celular algo que é mais sugerido do que dito, exemplo do que faz o eu-lírico de Manoel de Barros, que se esforça por apreender silêncios e existências bêbadas no poema O fotógrafo.

No cinema, há diretores que, antes de qualquer coisa, são fotógrafos. Sergio Leone foi um deles. Em Era uma vez no oeste, vemos três homens numa estação de trem isolada, lugar tão afastado de tudo que daria pra pegar o silêncio ali impregnado com as mãos. Na primeira cena, são vários minutos sem nenhum diálogo. As personagens se dividem pelo local, aguardando a chegada da locomotiva. Quando o trem chega, é possível sentir a ausência de ruídos sendo cortada, primeiro, pela maquinaria, depois, pela gaita tocada por um hábil assassino que dá conta de eliminar os três matadores que o aguardavam.

Marçal Aquino é um escritor que dialoga com filmes de faroeste e fotografia. Em suas histórias, há pistoleiros (como Brito e Albano, no romance Cabeça a prêmio) e fotógrafos (como o Cauby de Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios). No conto Matadores, é possível notar toda a sofisticação narrativa do escritor paulista. O leitor poderia tomar contato apenas com mais uma cena de tiroteio, como as inúmeras que aparecem nos filmes americanos da Tela Quente. Porém, Marçal faz algo muito melhor, afinal, o desfecho da história mostra um duelo entre velhos amigos, Alfredão e Múcio.

Ao invés de representar uma passagem recheada de balas voando por todos os lados, o narrador fotografa o corpo nu e sem vida de Múcio, dependurado numa cama de hotel, a meio caminho de alcançar sua arma, posicionada em cima duma cômoda. Apenas uma foto bastaria – e bastou. Marçal Aquino, assim como Manoel de Barros, sabe que uma imagem congelada pode conter significados infinitos.

Além do mais, não era preciso barulho, pois Alfredão equipou sua pistola com um silenciador.

Murilo Reis Author

Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreveu o livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016). É autor do blog O paralelo (oparaleloblog.wordpress.com). @murilunk