Carta para um falecido Lewis Carroll

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Você teria escrito os livros de Alice no país das maravilhas como presente para as jovens irmãs Liddell, se estivesse no lugar de Lewis Carroll. E que presente melhor, eu me pergunto, um homem pode dar a uma criança que um sonho ilustrado?

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“The Queen’s Croquet Ground”, por John Tenniel

A resposta é simples, Sr. Carroll.

Suas maravilhas são apenas por fora sobre criaturas estranhas e ambientes surreais. Prestando bastante atenção ao que dizem seus animais e objetos falantes, qualquer leitor está apto a desembrulhar a recompensa secreta de suas histórias: o poder do raciocínio. Suas muitas charadas e quebra-cabeças e jogos de palavras foram, sim, feitos para entreter em sua aparente falta de sentido. Mas quanto ao estarrecimento que geram: não transmitem a seus leitores jovens e curiosos o desejo pelo pensar e pela lógica?

No capítulo 8 de Alice no país das maravilhas, uma de suas personagens mais icônicas torna-se o centro de um caloroso debate:

Quando ela voltou para o Gato de Cheshire, surpreendeu-se ao encontrar uma multidão ao seu redor: havia uma discussão entre o carrasco, o Rei e a Rainha, todos falando ao mesmo tempo, enquanto o resto permanecia em silêncio, parecendo bastante constrangidos.

No momento em que Alice apareceu, foi chamada pelos três para decidir a questão. Eles repetiram seus argumentos, mas, como todos falavam ao mesmo tempo, ela achou muito difícil entender exatamente o que diziam.

O argumento do carrasco era que não poderia decepar uma cabeça se não houvesse um corpo de onde cortá-la: jamais fizera tal coisa antes e não iria começar a esta altura de sua vida.

O argumento do Rei era que qualquer coisa que possuísse uma cabeça poderia ser decapitada, e tudo o mais era bobagem.

O argumento da Rainha era de que, se alguma coisa não fosse feita rapidamente, ela iria mandar executar todo mundo em volta.

Neste ponto, acha-se graça da discussão narrada através dos pontos de vista absurdos das personagens. Entretanto, o leitor astuto neste trecho é convidado a pensar. Pois: como pode algo sem corpo ser decapitado? Já estariam decapitados todos aqueles cuja cabeça não se conecta ao resto? Ou seriam imunes a decapitações, dado que não há forma de separar um do outro?

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Não há resposta correta. Não é mesmo, Sr. Carroll? Só há uma forma de chegar a qualquer conclusão: estabelecer mais claramente o que é ser decapitado. Tanto o carrasco quanto o Rei possuem alguma razão, caso o leitor preocupe-se de ver o mundo por seus ângulos. Mas um contradiz o outro. De certa forma, assim funcionam os paradoxos lógicos: a partir de premissas válidas, pode-se chegar logicamente a conclusões contraditórias. O complicado conceito de paradoxo, assim, ilustra-se insuspeito nessa sua rápida cena.

Já no capítulo 11 do segundo volume de seu tristemente menos conhecido Sylvie and Bruno, Sr. Carroll, suas personagens dão voz a uma conversa para que você seja um dos primeiros escritores a falar sobre a relação entre mapa e território.

Eu comentei: “Os mapas de bolso são coisas tão úteis!”

“Isto é mais uma coisa que aprendemos da sua Pátria”, disse Mein Herr, “a cartografia. Mas nós a desenvolvemos muito mais do que vocês. Qual seria o maior mapa que vocês considerariam útil de verdade?”

“Por volta de seis polegadas por milha.”

“Só seis polegadas!“, Mein Herr exclamou. “Nós muito rapidamente chegamos a seis jardas por milha. Então tentamos cem jardas por milha. E então nos veio a maior ideia de todas! Nós conseguimos criar um mapa do país, na escala de uma milha para uma milha!”

“E vocês o usaram bastante?” Eu perguntei.

“Nós até hoje não o desenrolamos, ainda”, disse Mein Herr: “os fazendeiros foram contra: disseram que cobriria todo o país, e bloquearia a luz do sol! De forma que atualmente usamos o próprio país, como seu mapa, e garanto que funciona tão bem quanto.”

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Ilustração de Bruno, Mein Herr e Sylvie, por Harry Furniss

 

Esse volume, chamado Sylvie and Bruno: Concluded, foi escrito por você em 1983 (o último de seus livros publicado enquanto vivo), quase cinquenta anos antes de que um filósofo chamado Alfred Korzybski’s cunhasse a expressão “o mapa não é o território.”

A questão do mapa e do território estabeleceu-se como o investigar da relação que as coisas (por exemplo: uma casa) têm com suas representações (uma planta baixa dessa casa, desenhos dessa casa ou mesmo descrições textuais dela). Apesar das diferenças entre modelo e realidade parecerem inicialmente óbvias, a questão de como as representações se relacionam com o que está sendo representado tem ramificações profundas, e acredito que você, Sr. Carroll, fica feliz em saber que o tema de sua alegoria tem interessado tanto artistas como cientistas desde então. Um pintor surrealista belga chamado René Magritte dedicou sua pintura mais famosa a brincar com o assunto. Em La trahison des images, vemos um cachimbo legendado por uma frase que ganhou fama: “Ceci n’est pas une pipe”, que significa isso não é um cachimbo (pois é somente uma de suas representações). Já um escritor argentino chamado Jorge Luis Borges, um de seus admiradores, roubou sua ideia e escreveu uma história de um parágrafo apenas sobre o mesmo tema, que chamou Del rigor de la ciencia e assinou no nome de um autor que não existe (não sei exatamente como você se sente a respeito disso).

Enfim: revisitemos um último trecho:

— Ele está sonhando agora — Disse Tweedledee. — Sobre o que você acha que ele está sonhando?

— Ninguém pode adivinhar uma coisa dessas — respondeu Alice.

— Ao contrário! Ele está sonhando com você! — exclamou Tweedledee, batendo palmas triunfantemente. — E se ele parasse de sonhar com você, onde você pensa que estaria?

— Estaria no mesmo lugar em que estou agora, é claro — falou Alice.

— Engano seu! — replicou Tweedlede, desdenhosamente. — Não estaria em parte alguma! Ora, você é apenas uma parte do sonho dele!…

 — Se aquele Reizinho ali despertasse — acrescentou Tweedledum —, você desapareceria — vupt! — se apagaria feito uma vela!

Nessa passagem, do Capítulo 4 do seu Alice no país dos espelhos, a segunda parte da aventura, Alice encontra o Rei Vermelho. Os gêmeos que também se tornaram marca de seu universo, Sr. Carroll, Tweedledum e Tweedledee, avisam a Alice que esse Rei dormia e a sonhava; em outras palavras, que Alice seria apenas uma entidade daquele sonho, existindo apenas enquanto dure o sono do Rei.

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Tal preocupação com a natureza da existência e da realidade é antiga. Nós podemos tocar as coisas à nossa volta; podemos ouvi-las; podemos vê-las: e partindo dessas confirmações sensoriais concluímos que elas existem. Mas já não nos enganamos a respeito de nossos sentidos antes? Já não chegamos a pensar similarmente a respeito de objetos e pessoas em nossos próprios sonhos? Nossa vida, então, que tomamos por real não poderia ser somente um sonho indissipável? Essa linha de pensamento é conhecida na filosofia como o argumento do sonho. René Descartes, também atormentado por essa possibilidade, precisou garantir parte de sua primeira meditação em seu clássico Meditações metafísicas para provar que certos elementos básicos dos sonhos, como a geometria, fossem inquestionáveis, mesmo que tudo que seus sentidos mostrem seja corrompido pela desconfiança natural inseparável à percepção humana.

* * *

“Mas qual uso o leitor faz dessa lógica tão árdua?”, alguém pode me perguntar, quando apresentar as hipóteses desta carta para outros.

Eu estaria errado em, por fim, supor que da lógica faz-se uma ferramenta para nos ajudar a crescer?

Terminemos considerando os dois Alices. Esses romances podem ser lidos como buscas por identidade? Em Através do espelho, Alice quer descobrir quem é, que lugar ocupa entre os outros. Talvez seja por isso que sua viagem começa em um espelho, talvez seja por isso que nesse livro ela tem tantos problemas a respeito dos significados e nomes das coisas (incluindo seu próprio nome). Em No país das maravilhas, essa temática tomaria uma forma ainda mais elementar. Falaria da integridade do eu: não ainda “quem sou eu?”, como no segundo livro, mas “o que sou eu?” Alice constantemente troca seu tamanho; sua principal luta é controlar seu temperamento; e a dúvida de quem está são e quem está louco parece balançar de cada árvore e esconder-se no fundo de cada xícara de chá. Questões sobre nossa personalidade e integridade nos acompanham durante a vida inteira, mas parecem especialmente esmagadoras quando somos crianças. Finalmente retorno à minha pergunta inicial, Sr. Carroll: o que pode um homem dar a uma criança como presente melhor que um sonho ilustrado? Caso você ainda não saiba: livros que não só desfilem com fartura por países de fantasia, mas que compreendam (subconscientemente?) as dificuldades cruciais do desenvolvimento humano, e que, numa tentativa de amenizar suas dores, esgueirem lógica como brinquedos em ovos de chocolate.

 

Muito obrigado,

Um leitor.