Cem anos de Clarice: A menina que roubava rosas e pitangas

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Uma coluna para comemorar os cem anos de Clarice, apresenta agora o conto “Cem anos de perdão”.

Cem anos de Clarice

Esta coluna é parte das celebrações do Homo Literatus ao centenário de nascimento de Clarice Lispector, comemorado em 2020. Assinada por dois colaboradores do HL, a Carolina Próspero Graziano e o Danilo Passos, ambos apaixonados pela diva recifense.

A cada texto, partiremos de uma emoção explorada pela autora em alguma de suas obras – como o medo, a raiva, o amor –, estabelecendo paralelos entre o sentimento em questão, sua obra e sua vida.

O “roubo” da rosa

O conto “Cem anos de perdão” traz uma narrativa simples, mas explorada de maneira significativa. A narradora já começa ardilosa com um “Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender”, continuado de “Eu, em pequena, roubava rosas”. E traz, como é comum na narrativa clariciana, uma memória da infância.

Trecho da estátua de corpo inteiro de Clarice, na Praça Maciel Pinheiro, Centro do Recife. Ao fundo, o sobrado onde a família Lispector dividia moradia.

No Recife ela andava pelas ruas e admirava atentamente as casas, brincando com a amiga sobre de qual das duas seria cada casa. Uma espécie de “isso e isso” em um tom de melancolia saudosa.

Numa das brincadeiras de ‘essa casa é minha’, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo”. Nasce aqui o conflito. A doce brincadeira começa a tomar outros ares e a narradora – sem nome, mas com identidade – se vislumbra com as rosas do fundo do jardim.

Então aconteceu: do fundo do meu coração, eu queria aquela rosa para mim”.

E então é criado um clímax dentro do próprio conflito. “Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tontura com o cheiro do perfume”. Há aqui o que há de melhor na Clarice (como estou íntimo!): a hipérbole sentimental, digo, os exageros que vem do fundo de sua alma como escritora.

Então não pude mais. O plano se transformou em mim cheio de paixão”. O parágrafo seguinte vem com a expectativa de um filme de ação. A doce menina vai entrar aos poucos no pequeno castelo e furtar uma das rosas, ou em alusão ao título, “roubar”. “Até chegar à rosa foi um século de coração batendo”. Mais uma hipérbole (exagero) sentimental.

“Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos”

A narradora sente a dor, chupa o sangue, entretanto, nada disso a comove. Volta lentamente com as pontas dos pés até o vão do portão de entrada, reencontra com a amiga – aflita – e caminha a passos largos para casa. “O que é que fazia com a rosa? Fazia isso. Ela era minha”. Eis aqui o êxtase de se querer algo e conseguir de maneira “ilegal”, mesmo que na inocência de uma criança. Um pecado. O pecado. E quem nunca pecou?

A doce menina leva a rosa para casa, coloca no centro da sala em um vaso requintado onde ficam soberanas: a rosa e ela. “No centro dela [da rosa] a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho”.

A menina que roubava rosas e pitangas

“Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.”

A doce sensação de se ter algo por puro prazer da aventura vira a rotina inocente da criança, pois quem nunca roubou rosa, não entenderia. Passa aqui de furtiva amadora a furtiva profissional. O amadorismo começa a se profissionalizar, ela começou a roubar pitangas.

“Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma.”

Eis aqui o desenrolar de um clímax com cunho religioso: Pecar e perdoar. O prazer e o pecado – lado a lado.Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados”. A cor vermelha retorna aqui. A metáfora para o proibido, o profano, o erro, o pecado.

E a menina se arrepende? “Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão.”. Jamais. A inocência não deixa. Como deleite, ainda termina, em tom irônico: “As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens”.  Como se o destino das pitangas fosse esse: serem pegas, não roubadas.

E assim, ela se perdoa. E nunca peca.

Leia o conto em “Felicidade Clandestina”. Edição comemorativa e ampliada com posfácil. Ed. Rocco. Rio de Janeiro: 2020.