Para educar crianças feministas: Chimamanda, o feminismo e a mulher negra

O que Chimamanda Adichie e outras autoras podem nos mostrar sobre a relação de poder e visibilidade na sociedade em relação à mulher negra?
Chimamanda Ngozi Adichie
Do contato com a escritora

Conheci Chimamanda recentemente e por acaso. Um dia, sua famosa conferência Todos devemos ser feministas, do TED, apareceu para mim em uma das pesquisas no Youtube.

A autora me foi uma grande descoberta: eu, mulher e feminista (termo que deveria aqui ser uma redundância), no auge dos meus estudos sobre o assunto, agora em sua quarta onda. Posteriormente, li um pequeno livro dela intitulado Para educar crianças feministas, o qual pretendo abordar aqui.

Primeiramente, como acredito ser comum, a discussão sobre feminismo me foi negligenciada desde a infância. A causa nunca me fora apresentada nas escolas e faculdades em que estudei. No entanto, felizmente, agora está tão intensamente presente em nosso dia-a-dia. Sobretudo nas redes sociais, que se torna difícil ignorar seu debate.

Afinal, o que Chimamanda Adichie (e outras autores) podem nos mostrar

Portanto, Chimamanda é dona de um discurso que, em fala e escrita, nos vem de forma fluida, fácil, engraçada, atual e inteligente.

Sendo a escritora uma mulher feminista e negra, volto-me aqui, brevemente, para um dos recortes do tema: o feminismo negro.

Assim, visto que ainda somos uma sociedade desigual, a abordagem feminista das questões da mulher negra é indispensável. Ela nos leva a pensar em uma desigualdade que emerge dentro da própria luta pela igualdade.

Para Simone de Beauvoir, a mulher é o outro, ou seja, aquela que não é homem. Já para Grada Kilomba, a mulher negra é o outro do outro, posição ainda mais difícil.

Resumindo um pouco do que aprendi com a leitura de Djamila Ribeiro, a mulher negra encontra-se em última posição nesta sociedade que segrega principalmente (mas não só) por sexo e cor. Temos então o homem branco, a mulher branca, o homem negro e, por fim, a mulher negra. Esta última, não é nem branca e nem homem. Encontra-se, portanto, em local de completa exclusão, com possibilidades ainda menores.

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Djamila ressalta também a importância de percebermos o nosso lugar de fala. Sendo eu mulher branca, é do ponto de vista de observadora que abordei a questão do feminismo negro.

Como conclusão a estas poucas linhas, toma lugar de fala a estudante do último ano de jornalismo Maria Paula, ex-aluna e amiga, mulher negra e engajada nas causas feministas: “O recorte do feminismo negro cresce a partir de Angela Davis, fazendo com que nós, mulheres negras, a passos pequenos, fôssemos trazendo nossas pautas para a sociedade. O movimento do feminismo sempre foi totalmente ligado às pautas das brancas. Sendo assim, nós acabamos por não nos enxergar em sociedade como pessoas normais.”

Por fim, Maria Paula destaca: “Há diversos estereótipos colocados sobre o nosso corpo, em geral, objetificando-o. Os que observo são os que apelam para a  sexualização – a conhecida ‘mulata exportação’, tornando a mulher negra um fetiche, não digna de relacionamento duradouro –, o da ‘negra barraqueira’ e o da ‘tia Anastácia’.” Todos estes rótulos afetam negativamente, em todos as áreas, a vida da mulher negra.

 

Para educar crianças feministas

De volta ao livro de Chimamanda, ele é uma reunião de quinze sugestões para auxiliar na educação de uma menina sob a ótica feminista. Elas foram escritas a pedido de uma amiga de infância da autora, que acabara de ter uma filha.

Abaixo, selecionei quatro tópicos que mais se destacaram para mim:

  1. Terceira sugestão: Ensine a ela que papeis de gênero são totalmente absurdos – a criança deve entender que suas ações e possibilidades neste mundo não se condicionam ao fato de ser uma mulher. Um exemplo bem claro que a autora coloca disso é o fato de que “cozinhar é algo para todos, não vem pré-instalado na vagina”;
  2. Sétima sugestão: Nunca fale do casamento como uma realização – deve ficar claro para a menina que o matrimônio não é algo a que ela deva aspirar, como uma realização obrigatória. Homens não são condicionados desta forma. Mulheres são. Isso gera intenso desequilíbrio, e muitas vezes ainda as coloca umas contra as outras;
  3. Oitava sugestão: Ensine Chizalum a não se preocupar em agradar – as meninas são ensinadas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas, mas nunca a serem elas mesmas. É imprescindível que as garotas sejam ensinadas a serem honestas, bondosas e sobretudo corajosas. Falar, expressar opiniões, saber que é digna de respeito é fundamental, pois ela não é um mero objeto de que gostam e desgostam. Ela é uma pessoa.
  4. Décima segunda sugestão: Converse com ela sobre sexo, e desde cedo – a menina deve se perceber como dona de seu corpo, conhecê-lo, não sentir vergonha dele. O sexo não pode se transformar em um tabu.

O livro é breve e extremamente esclarecedor. Sugiro a leitura!

REFERÊNCIA

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Dri Calderaro Autor

Uma curiosa da palavra escrita, contada, cantada. Leitora e questionadora incurável. Formada em Letras, especializada em Literatura. Amante de Filosofia e Psicologia.