Clarice Lispector além dos 140 caracteres

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Não é novidade para ninguém que Clarice Lispector está entre os escritores mais mencionados na Internet. Segundo um levantamento divulgado pelo site Youpix, Clarice é a campeã de citações online, seguida por Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque de Holanda, Fernando Pessoa e Hilda Hilst. Porém, pouco se discute sobre as eventuais vantagens ou desvantagens de Clarice, em especial, ser sensação no meio online, sobretudo nas redes sociais.

Diante dessa conjuntura virtual, eu, como leitor aficionado pela obra de Clarice, além de ter me engajado em uma breve investigação sobre a situação da escritora na Internet, também exponho algumas indagações sobre quais facetas de Clarice são de fato desveladas a cada publicação no Twitter ou Facebook, bem como tento descobrir por que Clarice tem instigado tanto os internautas; afinal de contas, “que mistério tem Clarice?”. Por fim, tomo ainda a liberdade de levantar uma ousada hipótese acerca das possíveis reações de Clarice frente à maneira como suas produções (ou não) tem sido compartilhadas no meio virtual.

Retrato de Clarice feito pelo pintor Carlos ScliarRetrato de Clarice feito pelo pintor Carlos Scliar

Nas minhas buscas eu pude encontrar só no Facebook 109 páginas com algum tipo de referência à Clarice, e entre elas figuravam páginas de contemplação, de citação de frases e até algumas com um caráter cômico. No Twitter, embora a busca tenha sido mais complicada por conta da não existência de uma distinção entre perfis pessoais e páginas de entretenimento, consegui encontrar seis microblogs que levam o nome da escritora e centenas de tweets de “citadores” de Clarice, nova categoria que hoje anda lado a lado a categoria dos leitores e admiradores clariceanos.

Já o Orkut – apesar de pouco utilizado, se comparado a novas mídias sociais – foi, em número de páginas eletrônicas com referências à escritora, campeão absoluto; a lista dos endereços das páginas por mim encontradas no Orkut ocupou um espaço que compreende vinte e sete folhas de papel A4, enquanto a listagem do Facebook precisou apenas de 11 folhas.

As opiniões acerca da Clarice online são tão inúmeras e variadas quanto à intensa profusão de Clarice através das redes sociais e outras páginas que tem como foco o compartilhamento de escritos da autora naturalizada brasileira. Entre elas há as de quem acredita que Clarice na Internet é um aspecto positivo, uma vez que contribui para a popularização da escritora, o que permitiria a formação de novos leitores da obra clariceana.

“Muitos são iniciados em Clarice lendo pequenos trechos pela internet. E destes textos passam, depois, para outros textos publicados em livros (…). Continua sendo o melhor modo de ler a autora.”, Nádia Gotlib em entrevista para a coluna IG Comportamento.

“Quanto às frases na internet é uma maneira de popularização. Não vejo mal nisso. Mesmo se 1% das pessoas que encontram essas frases soltas se inspiram a ler uma obra de Clarice, já é 1% mais do que teriam feito sem essa publicidade.”, Benjamim Moser em entrevista para o Portal Imprensa da UOL.

Por outro lado, reconhece-se o grande risco da partilha de frases apócrifas que podem ser atribuídas à Clarice. Sem falar do grande perigo que se corre em transformar Clarice Lispector numa escritora de frases do bem viver, uma vez que, como lembra o escritor e professor José Castello em entrevista ao Suplemento Pernambucano, Clarice nos coloca diante do humano, sempre vivo e por isso mesmo instável e sem solução; visão esta do humano que as pessoas, em geral, não suportam.

De modo particular, vislumbro o fato de Clarice ser um boom na Internet não enquanto um grande problema; pelo menos, não como o problema central dessa minha discussão. Na verdade, o que vejo como mais importante a ser instigado é: “Que Clarice realmente circula no meio virtual? Ou seja: não prescindo da alternativa online de divulgação da obra clariceana ou da possibilidade de se formar novos leitores interessados pelo que Clarice escreveu, mas sim, como já mencionado mais acima, interrogo-me sobre que facetas de Clarice estão sendo de fato reveladas.

Quando Clarice é divulgada e oportunizada para um público cada vez mais extenso por meio da Internet, ela pode estar também sofrendo uma perda da essência daquilo que escreveu. Noto isso a partir das frases que geralmente encontro e que, a meu ver, acabam adulterando um pouco ou por completo a mensagem que a Clarice porventura estava se dispondo a transmitir quando se dedicou intuitivamente ao exercício da escrita.

Acredito ainda que a forma como Clarice tem sido compartilhada pode provocar um choque no leitor que busca um livro seu depois de ler um post ou um tweet com alguma referência a ela. Os recortes publicados nas páginas virtuais sobre felicidade ou amor, por exemplo, não condizem com a concepção nada piegas de felicidade ou amor que a Clarice tanto expressou em muitas páginas de seus livros. Assim, o “citador” ou leitor casual que vê Clarice apenas em poucos caracteres deve ter, suponho eu, uma experiência de bastante estranhamento quando se percebe diante de um texto integral da escritora que foi, repetidas vezes, apontada como hermética e profunda.

Acerca das razões que motivam muitos internautas a citarem Clarice, a poetisa e professora Lucila Nogueira, também em entrevista ao Suplemento Pernambucano, argumenta que essas passagens (da internet) são sintomas do nosso tempo, como uma espécie de reflexo da carência e impessoalidade das pessoas.

Percebo que o fenômeno Clarice online não é apenas uma demonstração da busca das pessoas por algo que possa lhes ensinar algo ou gerar alguma sorte de conforto, mas também um grito pouco audível da vivência sempre possível do espanto que está, de alguma forma, associada à condição de ser humano; trata-se da vivência do espantar-se que foi por Clarice brilhantemente ilustrada através da visão de um cego mascando chicletes, da apreciação da beleza das rosas ou até mesmo por meio do asco e horror provocados pelo sabor e significados divinos do interior de uma barata.

Finalmente, ressalto que Clarice Lispector se mostrava sempre bastante temerosa acerca da responsabilidade que o escritor tem para com as suas produções. Para ela assinar um texto significava automaticamente se tornar, por inteira, pessoal e exposta ao mundo; era como se ela estivesse vendendo a própria alma.

Em uma correspondência trocada com uma criança chamada Andreia de Azulay, Clarice relata um sonho em que viajava para o estrangeiro e, quando retornava, tomava conhecimento de que muitas pessoas haviam escrito coisas e assinavam embaixo o seu nome. De certa maneira, isso reflete o quanto Clarice não suportava a ideia de ter que se responsabilizar por aquilo que não era autenticamente seu, o que me leva a supor que não apenas os textos apócrifos, mas também os recortes que atribuem aos escritos clariceanos conotações variegadas e distorcidas seriam todos eles, provavelmente, reprovados por Clarice em vida.

Assim, frente a todas as informações e vivências particulares expostas acerca da experiência de ler Clarice, seja através de seus livros ou mesmo por meio da Internet, acrescentando a isso também o evidente fascínio que tenho pela escritora, convido todos a tentarem descobrir e desvelar um pouco do verdadeiro olhar que Clarice buscou compartilhar através de seus muitos registros, todos eles dotados de intensa sutileza e profundidade.

E, caso não seja possível ir até a obra de Clarice, sugiro que o leitor eventual tente, ao menos, se se sentir afetado pela escrita clariceana, indagar-se a respeito do que lê na tela do computador ou de outra parafernália eletrônico-digital; é preciso não se deixar enganar! Afinal, Clarice, que se definiu como uma pergunta e como indecifrável até mesmo para a própria esfinge, não merece, de modo algum, ter sua singularidade plural resumida em 140 ou pouco mais caracteres.