Clarice Lispector e a experiência subjetiva em A paixão segundo G.H

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Clarice Lispector (foto acima), autora de A Paixão segundo G.H., um dos maiores marcos literários de sua genialidade inventiva.

A experiência fora do sistema

Publicado em 1964, e não diferente de seu romance inaugural, intitulado Perto do coração selvagem, de 1943, a escritora ucraniana naturalizada brasileira, Clarice Lispector, causou barulho entre os críticos e leitores com a publicação de A paixão segundo G.H., considerado, para muitos, um dos pontos altos de sua literatura e um de suas obras mais difíceis. À flor de sua maturidade literária, já evidenciada em seu romance anterior, A maçã no escuro, de 1961, A Paixão segundo G.H. apresenta verdadeira inovação na forma de narrar, nos introduzindo a uma viagem perturbadora e quase metafísica aos labirintos psíquicos de sua personagem, que busca respostas sobre a verdade do mundo e da vida, transmutando a narrativa em níveis inigualáveis de significação.

Em cada passagem é possível que seja evidenciada novos entendimentos e formas de enxergar o romance, quando tomado a novas releituras, dando o caráter grandioso do não esgotamento da obra — e que para alguns críticos é a grande verve da obra-prima —, esta escrita em primeira pessoa, e que se nivela entre a loucura (o desconcerto da personagem) e o renascimento (a descoberta do novo olhar para as coisas), a hermeticidade (a ocultação da experiência metaforizada pela linguagem) e o autoconhecimento (a busca por respostas às indagações íntimas da personagem).

Logo no primeiro parágrafo do livro encontramos um discurso ousado e nada comum, construído pela escritora que inicia a narrativa com seis travessões, o que indica um possível desconserto existencial da personagem: a identidade de G.H. em ruptura com o mundo, ao qual ela sempre estivera habituada, e consigo mesma. A personagem encontra-se fora de sua construção humana, deslocada de seu mundo anterior, um mundo pré-fabricado, assim como ela refere-se à ausência de sua “terceira perna” (uma metáfora para as coisas que passamos a entulhar em nossa existência, mas que não servem para nada). Sua crise a exaspera por estar completamente desnuda de sua máscara, que dava a ela um pertencimento de “ser” e a confirmação do que “era” —  parte crucial de sua zona de conforto e alienação.

“— — — — — — estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior.” (Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, Editora Rocco, Pág. 9)

Clarice Lispector
Clarice Lispector

A epifania ante a hostilidade ou a separação de mundos dentro de um único

Desde que G.H. se desloca para o antigo quarto de sua empregada, despedida no dia anterior, um novo mundo de completa renuncia e estranhamento se rompe sobre a vida da personagem — uma artista, uma escultora de classe média alta que vive numa cobertura, é tudo que sabemos.

Ao entrar no cômodo, G.H. tem a sua primeira surpresa e/ou decepção: a de encontrar o quarto limpo. Diferente do que pensara há poucos, a personagem que se apresenta apenas com duas iniciais em maiúsculas encontra o antigo quarto da empregada limpo e com uma alvura que se diferenciava dos demais cômodos que compunham seu apartamento.

Porém, além do quarto limpo, ela deflagra com três desenhos feitos a carvão na parede: três signos codificados nas figuras de um homem, uma mulher e um cachorro.

O que mais lhe causa estranhamento diante daqueles desenhos é de que cada um parecia isento do outro, como se ambos não pertencessem ao mesmo plano ilustrativo, e assim não se dialogassem mesmo estando próximos ao outro. O que a empregada queria dizer com aquilo? indaga a personagem. E logo G.H se vê naquela mulher despida que fora desenhada a carvão na parede.

A incomunicabilidade dos desenhos era a metáfora do que se ocorria na vida cotidiana.

Dentro desse aspecto, a escritora frisa um ponto crítico nas relações vividas dentro da contemporaneidade — a segregação das classes e indivíduos.

G.H., por exemplo, mesmo tendo aquela mulher como a sua empregada, habituada dentro de sua casa, era como se a ela lhe fosse uma estrangeira, um ser invisível, ignorado e insignificante, onde apenas se estabelecia, entre ambas, uma relação de ordem e cumprimento.

“Nenhuma figura tinha ligação com a outra, e as três não formavam um grupo: cada figura olhava para a frente, como se nunca tivesse olhado para o lado, como se nunca tivesse visto a outra e não soubesse que ao lado existia alguém.

Sorri constrangida, estava procurando sorrir: é que cada figura se achava ali na parede exatamente como eu mesma havia permanecido rígida de pé à porta do quarto. O desenho não era um ornamento: era uma escrita.

A lembrança da empregada ausente me coagia. Quis lembrar-me de seu rosto, e admirada não consegui — de tal modo ela acabara de me excluir de minha própria casa, como se me tivesse fechado a porta e me tivesse deixado remota em relação à minha moradia. A lembrança de sua cara fugia-me, devia ser um lapso temporário.” (Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, Editora Rocco, pág. 39)

 G.H. e a barata: o confronto de duas distintas naturezas

 E como falar sobre a relação entre G.H. e uma barata, a qual a personagem encontra dentro do armário do antigo quarto da empregada, e que termina sendo esmagada pela personagem entre o vão da porta?

A matéria branca que é expulsa de dentro do corpo da barata ritualiza a relação da personagem consigo mesma e com o mundo, enveredando-a entre os limites de sua própria existência, passando a caminhar entre o seio transgressor ao mais primário da vida; deixando sua subjetividade elevá-la a caminhos que transcendem a sua própria condição do “real”.

G.H se vê peregrinando entre desertos, portais, inferno e oratório, participando de rituais ocultos e orgias. Toda essa peregrinação faz parte, na verdade, de um ensaio interior e sabático que a personagem reporta em sua busca incessante pelo autoconhecimento e por respostas substanciais e reveladoras ante ao mistério da existência.

G.H está sentada na beira da cama frente à barata presa entre o vão da porta do armário em que a matara. Duas existências distintas, porém tão próximas em seus paradoxais distanciamentos (a nobreza e o anódino).

A barata, mesmo na sua condição fadada à mortalidade, guia G.H. a experiências que nunca antes encontradas em sua vida sistematizada.

“O mundo havia reivindicado a sua própria realidade, e, como depois de uma catástrofe, a minha civilização acabara: eu era apenas um dado histórico. Tudo em mim fora reivindicado pelo começo dos tempos e pelo meu próprio começo. Eu passara a um primeiro plano primário, estava no silêncio dos ventos e na era de estanho e cobre — na era primeira da vida.” (Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, pág. 68)

Mas o grande momento do livro ainda estaria por vir: onde a personagem decide degustar da própria barata.

G.H. pensa que provando daquilo que ela considerava demasiadamente asqueroso e repugnante chegaria à “redenção” de sua própria existência. Ou seja, ao próprio estado de libertação dos limites que a definiam como humana.

“Não contei que, ali sentada e imóvel, eu ainda não parara de olhar a barata com grande nojo, sim, ainda com nojo, a massa branca amarelecida por cima do pardacento da barata. E eu sabia que enquanto eu tivesse nojo, o mundo me escaparia e eu me escaparia. Eu sabia que o erro básico de viver era ter nojo de uma barata. Ter nojo de beijar o leproso era eu errando a primeira vida em mim — pois ter nojo me contradiz, contradiz em mim a minha matéria.”

Porém, a personagem novamente é surpreendida durante o feito. Já que ao provar a barata morta e, em seguida, cuspir os restos mortais do animal, G.H. não sente nada; apenas uma estranha insipidez, que a remetia a coisa alguma, senão a ela mesma.

“Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma.”

G.H., por fim, chega à conclusão:

“Eu que pensara que a maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa branca da barata. E que assim me aproximaria do… divino? do que é real? O divino para mim é o real.”
(Trecho de A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, pág. 167)

 Considerações finais:

 A paixão segundo G.H. é o livro que confirma toda a maestria inventiva e literária da escritora Clarice Lispector. Uma obra que impressiona seja no seu modo narrativo quanto pelo poder da escritora em criar “novas atmosferas” através da linguagem. Além do que, a escritora consegue a faceta de cativar o leitor à medida que ele se particulariza com a experiência subjetiva da personagem — embora a tensão da própria narrativa não deixe de causar, inicialmente ou constantemente, vertiginosos desconfortos aos leitores.

A obra mistura filosofia, existencialismo, experimentalismo estético e misticidade, já que dentro do subsolo da personagem, são levantados questionamentos entre a natureza do divino e do imoral, do céu e do inferno, que orbitam dentro da gente.

E situa a importância de se ter um alguém segurando em nossa mão, sobretudo, durante os náufragos de nós mesmos. Um alguém que esteja ali pronto para nos ouvir, para não nos sentirmos tão solitários e pequenos frente à inexorável complexidade e crueza da vida, do mundo — a mão de Deus.

E termino com um trecho de um parágrafo situado na página 158 do livro, onde a personagem, em seu enigmático monólogo interior, dissipa:

“(…) Não quero a meia-luz, não quero a cara benfeita, não quero o expressivo. Quero o inexpressivo. Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais.

Quero o material das coisas. A humanidade está ensopada de humanização, como se fosse preciso; e essa falsa humanização impede o homem e impede a sua humanidade. Existe uma coisa que é mais ampla, mais surda, mais funda, menos boa, menos ruim, menos bonita. Embora também essa coisa corra o perigo de, em nossas mãos grossas, vir a se transformar em “pureza”, nossas mãos que são grossas e cheias de palavras.”