Clarice Lispector e o enigma da esfinge

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De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo (p. 51). Assim começa um dos mais emblemáticos contos escritos na face da Terra e é assim mesmo que começa o meu início de compreensão da revelação do enigma.

O ovo que vejo sobre a mesa, tal qual a personagem inominada de Clarice, não é branco, nem mulato como os ovos costumam ser. O ovo não tem cor e ele é o princípio de tudo. Foi assim que interpretei esse mistério milenar de quem nasceu primeiro (o ovo ou a galinha). Tinha lá minhas inclinações a isto desde criança e nunca conseguia achar uma solução ao problema da esfinge. Você pode até achar um exagero de minha parte elevar esse o que é o que é? ao patamar de enigma da esfinge. No entanto, não é tão complicado assim.

Uma vez estava fazendo os meus costumeiros exercícios de busca de sentenças latinas que supostamente trariam um mero sentido de tradição a determinados valores que cultuamos até hoje no Direito, e daí me deparei com o seguinte brocardo latino que me fez interromper na hora o raciocínio e lembrar de Clarice: ab ovo. E, qual não foi minha surpresa: os romanos já haviam resolvido o problema, vez que ab ovo significaria no princípio de tudo. E daí ri um pouco e pensei em Clarice. Sempre amei Clarice, e sempre me foi um amor infeliz já que nunca poderia tocá-la e, diga-se de passagem, detesto platonismos.

Daí lembrei que as primeiras palavras do livro de fábulas mais poderoso do mundo ocidental (infelizmente, ou será que as interpretações oficiais dele é que são infelizes?) – a bíblia cristã – são: No princípio criou Deus os céus e a terra. Ab ovo é a criação, é o início, é o princípio. E Clarice me dizia: O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu (p. 52). E, feliz, como num orgasmo instantâneo, derrotava mais um enigma. Mas era de uma derrota frustrada, vez que não havia o que comemorar, afinal, como diria a personificação do meu maior enigma – Clarice –: entender é a prova do erro (p. 52), e eu sabia disso.

É que há sempre um risco em desvendar alguns mistérios, ou como diria um amigo poeta da Bahia: saber é uma merda! E era isso que dizia o tempo todo, aquela recifense radicada no Rio e parida na Ucrânia em plena fuga: O ovo nos põe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo (p. 54). Isso será porque no princípio de tudo as coisas apenas existem? Será que esse peso do ovo vir primeiro advém justamente desse medo que temos de sabermos que somos absolutamente nada, mas apenas existimos? Teria o Wilde se enganado feiamente? Será que de fato tudo aquilo que somos, o nosso “eu” é apenas a sombra que nos acompanha, o fantasma que nos assola?

E a misteriosa continuava nosso abrir de olhos ao dizer que a galinha não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenha enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada (p. 56). Sim, a galinha somos nós. Não há desespero muito grande nisso, em nos “rebaixarmos” a um animal que matamos e devoramos avidamente por séculos – basta nos lembrarmos de Kafka (minha outra paixão). O Kafka já nos havia comparado a bichos bem piores…E nós somos de fato a galinha. A galinha tão cheia de si que não mais reconhece o ovo. Que não mais tem noções de sua existência, que não sente mais o princípio de tudo que está em tudo:

Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. E com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece. (p. 55).

É que a vida interior da galinha consiste em agir como se entendesse (p. 55), e esse nosso entendimento das coisas além de ser o nosso maior preconceito sobre tudo, é a prova de nossa perdição, de nosso desespero daquilo que o Deus teria dito a Jó no capítulo 38, verso 11?

Parece que resta a todos nós fingir que o ovo não existe. Ou mais, dar ao ovo o sentido de alimento, de comida, de produto da galinha. Dizer que o ovo vem depois porque Deus criou a galinha, como dizia meu professor de religião do primário, ou dizer que a galinha veio primeiro porque ela é o animal que evoluiu, como dizia meu professor de biologia do colegial. No fundo todos nós queremos vir primeiro, queremos saber das coisas, queremos crer que saber é poder. Que poder, se como diria Nietzsche um dia após uns respiros da natureza esse nosso astro congelará e todos nós, animais astuciosos, morreremos (p. 25)?

Por fim, como dito, o enigma se desfez diante de mim, e no fim fico apenas com a leve certeza (tão leve quanto todas as que às vezes cultivo) do consolo de minha amada Clarice, consolo a esse meu amor infeliz: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor (p.57).

 

 

Referências

A BÍBLIA. Tradução: João Ferreira de Almeida. Barueri: SBB, 2002.

LISPECTOR, Clarice. O ovo e a galinha. in A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Sobre a verdade e mentira. No sentido extramoral. Tradução: Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008.