Como ganhar dinheiro vivendo de literatura no Brasil?

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É um dos maiores questionamentos para quem tem esta paixão, de escrever, mas se preocupa em transformá-la numa fonte de renda. Talvez isso possa ser mais fácil do que você pensa. Há inúmeras formas não tão conhecidas que permitem que você não morra de fome, vivendo daquilo que você mais gosta, de literatura.

 

Mas no Brasil isso é possível?

Então, sabe aquele ditado de que “brasileiro não lê”? Pura mentira (até já escrevi sobre isso). Apesar de todo nosso potencial e riqueza, a primeira universidade no Brasil só surgiu a partir da vinda ao país de D. João VI, em 1808. Ou seja, pouco mais de duzentos anos de ensino superior, um tempo bem menor do que nos países desenvolvidos. Mesmo assim, anualmente o “consumo” de literatura no Brasil cresce assombrosamente.

E o mais importante, o que você quer saber, é possível viver de literatura no Brasil?

Enquanto você lê este texto e, quem sabe, está aí choramingando por ter uma paixão que não dá dinheiro, muitos profissionais em nosso país conseguem viver, e relativamente bem (isso não é uma promessa de que você ficará rico), apenas trabalhando com literatura. E mais, todos eles por conta própria, sem horários a cumprir, etc.

Falácia? Que nada, você vai conhecer quatro destes profissionais.

 

Histórias de quem vive de literatura no Brasil

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Eric Novello: “O que é realmente valioso para mim é ter um controle considerável do meu próprio horário”.

Para atingir este estágio é preciso superar o medo. Antes de migrar para área profissional tão sonhada, o escritor Eric Novello trabalhava como farmacêutico em uma rede de drogarias do Rio de Janeiro e estava insatisfeito. “Nas férias, pedi transferência para uma loja e me jogaram em um lugar que eu não queria. Como naquela época, para piorar, tinha se tornado obrigatório o trabalho aos sábado, decidi largar tudo e fazer curso de produção musical. Antes da inscrição, acabei recebendo um convite para trabalhar como tradutor técnico. O que me permitiu ter mais tempo dedicado à literatura e, alguns anos depois, trabalhar só com ela”, disse ele.

No começo, Eric, que tem entre seus principais livros Neon Azul (Draco, 2010) e A Sombra no Sol (Draco, 2012), não trabalhava somente escrevendo, mas seu envolvimento com o mercado literário foi lhe dando a experiência que precisava para depois publicar seus livros. Segundo ele, “tudo começou com copidesque de originais ou reedições, a maioria deles na área de literatura fantástica. Mais tarde passei a prestar serviços de leitura crítica e comecei a aceitar traduções literárias. Como autor, vocês devem imaginar, o pagamento de direitos autorais não cobre todas as contas, paga um bom lanche de vez em quando. Mas estou trabalhando nisso!”.

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Kyanja Lee: “Trabalho incansavelmente, mas adoro cada novo trabalho e projeto em que me envolvo”.

Mas o que não muda em relação a outras profissões é o preparo. Kyanja Lee trabalhou por anos nas área de marketing e administração antes de chegar ao mercado literário. Há 7 anos, desde 2007, ela atua ajudando novos autores, é parecerista (leitora crítica profissional), preparadora e revisora de originais. No entanto, para chegar até aqui ela se preparou, “fazendo cursos de especialização em literatura, oficinas literárias, participando de mesas-redondas e eventos, e lendo vários livros”.

E se o Brasil vive um dos melhores momentos no mercado editorial, a internet é uma das maiores responsáveis. Viver de literatura na web também é possível. Gustavo Magnani, de dezenove anos, vive de seu blog, o Literatortura (além de coapresentar o podcast 30:MIN, entre outros projetos). “Não é, ainda, uma renda que me deixa plenamente seguro, mas acredito que com o tempo o mercado vá entendendo o quão valiosos são os blogs para a disseminação de seus produtos”. O blog tem pouco mais de dois anos de vida, e Gustavo diz viver dele há, pelo menos, um ano e meio, mas salienta: “o dinheiro que retirei do site, quase que em sua totalidade foi investido ou guardado para lançar outros projetos ao longo desse ano”.  Em 2014, ele pretende publicar seu primeiro livro, “o que pode trazer um retorno interessante. Mas, tudo é muito especulativo ainda. Não dá para saber como as editoras se portarão, como as novidades serão recebidas, etc. Acredito, entretanto, que o ano será ainda mais produtivo do que o passado”.

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Luiz Eduardo Matta: “O importante mesmo é escrever, fabular”.

Mas não tem nenhum escritor vivendo somente de escrever livros? Sim, tem. E não estamos falando de Paulo Coelho, Augusto Cury ou Laurentino Gomes. Luiz Eduardo Matta, que recentemente lançou A Outra Face do Desejo (Primavera editorial, 2013), escreve desde os dezessete anos e publicou seu primeiro livro aos dezoito. Antes disso, fez somente “alguns trabalhos esporádicos em paralelo à literatura como intérprete, revisor de textos e escrevendo artigos e resenhas”. Hoje seus ganhos vêm “de duas fontes: o recebimento de direitos autorais e os cachês por palestras, participações em eventos literários e visitas a escolas”, afirma ele. E isso acontece desde 1993, ou seja, há vinte anos.

 

Como estas pessoas se sentem vivendo somente de literatura?

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Gustavo Magnani: “me sinto muito contente com o resultado que venho obtendo”.

Kyanja Lee abre o coração: “Sinto-me feliz, produtiva. Trabalho incansavelmente, mas adoro cada novo trabalho e projeto em que me envolvo. Acabo ficando amiga dos novos autores, e é muito gratificante participar dessa etapa de transição entre um original cru, até tomar forma (ou não; às vezes o original está praticamente pronto) e ser publicado”.

Luiz Eduardo Matta se mostra satisfeito: “Muito feliz, pois é um trabalho honesto e que me gratifica muito, sobretudo por saber que muita gente está se interessando pela leitura através dos meus livros”. E mais do que pensar em dinheiro, ele afirma: “Viver de literatura, para mim, é uma consequência. O importante mesmo é escrever, fabular”.

Gustavo Magnani não difere no discurso: “Feliz. Muito feliz. E bastante realizado. Poder tirar um dinheiro aos 19 anos, da literatura, me é muito interessante”. E ainda acrescenta: “Mas, pra mim, ainda falta o gosto de poder viver de livros. De todo modo, me sinto muito contente com o resultado que venho obtendo”.

Eric Novello responde com bom humor sobre como se sente: “O que é realmente valioso para mim é ter um controle considerável do meu próprio horário. O que me permite me dedicar mais ao ofício de autor, que é o que de fato me dá prazer nessa vida. E, bem, mantenho há anos o meu despertador desligado”.

Então, se você sonha em viver de literatura no Brasil, tem aí muitos caminhos, que não são diferentes de outras profissões em suas dificuldades. Se é que você ama, vá em frente. Faça contatos, se prepare e chegue lá.

Já diria Confúcio: “Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”.

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Vilto Reis Autor

Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.