Como o desejo, o sexo e o crime se encontram – O Cobrador, de Rubem Fonseca – Edson Weigert

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Histórias de amor, sexo e violência despertam o interesse da maioria das pessoas. Freud coloca os impulsos sexuais no centro do debate humano ocidental no século vinte e desde então dificilmente esquecemos que procuramos amor e sexo em todos os lugares. O desejo toma conta do mercado, do cinema e, não podemos negar, de parte da literatura. Devemos, entretanto, tomar cuidado para escapismos e entender que muitos escritores usam a tríade amor, sexo e violência para buscar histórias fáceis e agradar um público eventual e interessado em distrair-se. Dentre os escritores que usam esse pano de fundo para histórias densas, bem montadas, completas e não tem o interesse em agradar um público que não se agrade com ele, está o grande Rubem Fonseca. Mineiro, formado em direito que trabalhou na polícia, como funcionário público e só então começou a dedicar-se a literatura, publicou o primeiro livro aos trinta e oito anos. Dono de um conhecimento profundo das grandes artes, de armas, vinhos, xadrez, do submundo do Rio de Janeiro e de uma profunda sensibilidade, cria histórias emblemáticas, fortes, repletas de sangue, suor e amores transitórios.

o-cobradorAs histórias de Rubem Fonseca geralmente são narradas em primeira pessoa, geralmente por um homem forte que busca mulheres com um desejo insaciável. Fonseca cria alguns personagens tão fortes que se repetem em diversas histórias. As mulheres de seus personagens geralmente são lindas, burguesas desinteressadas em suas vidas e que se entregam no desejo a esse personagem como o sentido de suas vidas vazias e desinteressantes. O livro a ser comentado hoje é o “O Cobrador”, publicado em 1979 quando o autor já tinha publicado outros três livros de contos e o maravilhoso romance “O Caso Morel”.
O livro publicado com dez contos não poupa o leitor em nenhuma história. Com personagens pós-modernos e quase niilistas, numa época em que o mundo ainda tinha muito mais certezas que nos dias de hoje. São personagens com dúvidas essenciais e com certezas dúbias, que na maioria das vezes encontram no sexo, amor e na arte um sentido para a vida. Apesar de encontrarmos uma linha, um nexo em seus personagens principais, ele não economiza em criar cenários e anseios para esses personagens.

No conto “H. M. S. Cormorant em Paranaguá”, usando o nome de um cruzador de batalha da marinha britânica para a história, fala de um romântico do século dezenove. Narrando em primeira pessoa, como a maioria das outras histórias do livro, sentimos os delírios e os desejos de amor e morte do jovem de vinte anos. Tendo conversas sérias e longas com o fantasma de Byron o jovem de vinte anos é um poeta virgem que declama seus versos em tabernas para o deleite de seus companheiros de copo. No conto conhecemos duas das mulheres de Rubem, uma é Tereza, jovem e linda prostituta que se desmancha de amores pelo personagem principal. A outra é Luísa, irmã do poeta, jovem e dedicada a ele. O tempo todo brincando com a loucura do personagem, a fatalidade do Brasil colônia e escravista, Rubem chega a afirmar a certa altura “… poesia e canhão a serviço da Dominação.” O jovem não consegue se entregar à Tereza, pois ama outra. Dominado pela febre do romantismo do desejo de morrer jovem, sabemos que como Byron o poeta desse conto é incestuoso e perde a virgindade com Luísa, sua irmã, jurando amor eterno e entrega total.

O único conto que é narrado de fora, em terceira pessoa, é “O Jogo do Morto”. História curta que mostra a amizade de quatro comerciantes do subúrbio carioca, viciados em apostas que criam um jogo a partir do número de mortos do esquadrão da morte que atua na baixada Fluminense. Em “A Caminho de Assunção” sentimos a dor de uma guerra civil no sul do Brasil, sem em momento algum estarmos inteirados em que época exata e onde ela ocorre. Em “Livro de Ocorrências” sentimos o lado policial de Rubem. Em pequenos parágrafos sentimos a realidade de um delegado da baixada fluminense na metade do século passado.

No conto “Onze de Maio” encontramos um professor de história aposentado internado em um asilo que é uma espécie de Auschwitz. Ele percebe que os internos não duram mais do que seis meses no internato e que todos eles estão sendo dopados. Para fugir do diretor, implicitamente nazista e utilitarista, que declara várias vezes que os aposentados não podem comer tão bem quanto quem produz, o personagem principal e dois amigos invadem o apartamento do diretor e proclamam uma revolução, que não sabemos como vai acabar. Um conto forte onde sentimos o desprezo da sociedade pelos mais velhos e a situação deplorável em que muitos deles se encontram. Em “O Almoço na Serra no Domingo de Carnaval” Rubem nos brinda com um ressentido. O personagem principal estupra a namorada que vive agora na casa onde ele cresceu. Sabemos que a casa foi perdida em uma desgraça acontecida na família, mas não sabemos qual a desgraça.

Quando lemos Rubem Fonseca sempre estamos inseridos em incertezas. Também pelo fato da maioria das histórias serem contadas pelo personagem, característica que faz a história ir se montando aos poucos. Através de relatos desses personagens em diários ou livros, ou mesmo em rememoração perturbada. Mas também percebemos a vontade do autor para esconder, ou simplesmente não criar, todas as certezas da história. “Encontro no Amazonas” relata a epopeia de um detetive no norte do país em busca de um gigante. Ele percorre o Amazonas em um navio de passageiros encontrando personagens peculiares, que sabemos serem reais em qualquer navio desses, e que simplesmente desaparecem quando ele encontra e mata o gigante. Em nenhum momento sabemos o porque dele perseguir esse homem, muito menos sabemos o motivo da morte, mas ficamos deliciados com a obsessão apaixonada do detetive.
O mundo em que Rubem Fonseca criou os seus primeiros livros era mais denso e duro do que o de hoje. Muitas mudanças aconteceram nesses últimos quarenta anos. A velocidade da comunicação, o encurtamento das distâncias e o esvaziamento ideológico das últimas décadas deixariam qualquer pessoa que tivesse dormido nesse tempo e acordado agora chocados. Muito mais chocado que alguém que, hipoteticamente, tivesse dormido durante dois séculos na idade média. Mas uma certeza inabalável de nossa sociedade é o horror à pedofilia. Hoje recebemos com o mesmo escândalo e indignação uma notícia dessas. E é sobre a pedofilia que o autor trata no conto “Pierrô da Caverna”.

Nesse conto encontramos um personagem típico de Rubem Fonseca. Um escritor erudito, divorciado da esposa que aparece eventualmente na história, namora uma linda mulher casada que se entrega com todo o ardor e tesão que encontramos na paixão. A maioria dos amores das histórias de Rubem são efêmeros e acabam junto com o desejo, no momento em que a mulher é substituída por outra na mente do personagem. Nessa história, a namorada casada do personagem principal, é substituída, como objeto de paixão, por sua vizinha Sofia que tem doze anos. “Eu pensava em Sofia e não me saía da cabeça a pulseirinha de ouro no tornozelo dela, que coisa mais diabólica!” Assim que a menina e a paixão por ela entram na história.

Outro fato que não pode passar despercebido é que os principais personagens de Fonseca são conquistadores. Possuem todas as mulheres que encontram. Essas se entregam com sofreguidão para esses personagens densos, solitários, na maior parte das vezes intelectuais da arte e da política. Antes de ter Sofia em sua cama, ele se relaciona com a mãe dela, que nada desconfia do interesse real do homem. Mas não demora muito e encontramos Sofia na cama desse escritor de meia idade que conta sua vida para um gravador e por diversas vezes diz que nunca escreveria aquilo.

“A arte está cheia de meninas virando a cabeça de homens maduros, a de Malle, a de Nabokov, a de Kiekegaard, a de Dostoievski.” Os textos de Rubem são sempre recheados de referências à literatura, música e cinema. E através dessas referências o personagem principal vai defendendo seu amor, e sentimos esse amor, em nenhum momento o achamos pervertido, e continua vivendo com a menina em sua cama. Em certo momento o pai dela desconfia, o ameaça, mas não passa de um alcoólatra sem forças e é facilmente convencido de que nada além de uma amizade paternal acontece.

Conhecendo a rotina criativa do personagem escritor e a rotina amorosa pedófila, somos inseridos na mente que não é doentia, mas que certamente não pode ser considerada normal. “Passávamos, eu e Sofia, horas esmiuçando um ao outro, descobrindo a protolinguagem do corpo.” “Eu gostava de olhar e passar o dedo de leve em todos os desvãos de seu corpo, e ela fazia o mesmo comigo;” Com essas frases impactantes nos vemos acreditando num amor impossível, muito mais humano e verdadeiro que o jogo que Nabokov, acima citado, cria em “Lolita”. Mesmo quando, no final, a menina precisa fazer um aborto aos doze anos, não sentimos no personagem principal nenhum monstro. Pelo contrário, todo o tempo vemos um homem apaixonado.

Quem sabe o personagem mais famoso de Rubem Fonseca aparece pela primeira vez nesse livro no conto com seu nome, “Mandrake”. O advogado inescrupuloso, que vive de livrar milionários de grandes confusões recebendo pequenas fortunas cada vez que isso acontece. Personagem emblemático, Mandrake se torna série de televisão com roteiro do próprio e com direção de seu filho cineasta. Quem sabe esse seja o mais conquistador de todos os personagens conquistadores do autor. É o típico amante, que o sociólogo Bauman conhecesse, chamaria de líquido. O amante das relações líquidas, efêmeras, mas que ama a todas as mulheres que encontra. O amor eterno, que segundo Vinicius de Morais, que é eterno enquanto dura, tem o tempo de algumas páginas para Mandrake e nunca é um amor monogâmico.

Nessa história conhecemos um Mandrake tomador de vinho, jogador de xadrez e apaixonado por uma linda menina de vinte anos, filha de um cliente, que, surpreendentemente, ele não consegue se relacionar na história. Apesar de sabermos que ela também o quer.
O ódio social e as grandes contradições que encontramos entre o luxo em que vivem as famílias ricas cariocas e o desespero dos moradores dos morros e do subúrbio da cidade maravilhosa nos é mostrado como um tapa na cara no perturbador conto que dá nome ao livro, “O Cobrador”. Na primeira cena, vemos o personagem principal pagar uma consulta no dentista destruindo seu consultório e dando um tiro em seu joelho. Logo em seguida percebemos o porquê do nome do conto. “Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.” E com um pequeno arsenal, ao modo de um Coringa carioca, ele vai cobrando as dívidas que a sociedade tem com ele.
Fazendo poemas sobre sua responsabilidade, dormindo com prostitutas, ele vai matando homens em Mercedes, impiedosamente estuprando mulheres em apartamentos invadidos e perseguindo casais em frente a festas da alta sociedade. Um dos momentos mais perturbadores do texto é quando ele sequestra um casal em frente a um apartamento na zona sul e, após matar a mulher, decepa o homem com um facão afiado. Um matador impiedoso, sem modus operandis, mas com um tipo de vítima bem definido, os ricos da cidade. E nesse conto encontramos uma da únicas promessas de amor eterno e monogâmico de todas as histórias de Rubem Fonseca, o Cobrador se apaixona por uma rica menina que não vê sentido na vida. De súbito se apaixonam, se entregam, ela abandona a família e vai morar com ele, encontrando sentido na vida da mesma forma que seu amor. Juntos eles pretendem aumentar as atividades do Cobrador e passam a operar explosivos. Apaixonando-se por Ana, a rica garota, ele descobre que tem uma missão, e que quer ser copiado por todos.

Nesse mundo de amor, sexo, mulheres lindas e enigmáticas e homens solitários e fortes, encontramos uma pequena amostra da genialidade de Rubem Fonseca. O desejo, o crime e a paixão se encontram com maestria nas linhas desse grande escritor brasileiro. Avesso a publicidades, geralmente se esconde do foco da mídia e do fundo de sua discrição nos faz histórias sensacionais. Qualquer um que queira conhecer como somos dentro de nossos quartos, de nossas casas, precisa obrigatoriamente conhecer o mundo de Rubem Fonseca.