Como o racismo é tratado na literatura Infantil

1
910

Será que existe uma forma correta de abordagem literária infantil sobre o racismo e a discriminação racial?

street
Foto de Jeff Aerosol

Nesta semana da Consciência Negra, buscamos com esse texto não apenas destacar os direitos à igualdade ou apontar os feitos heroicos de um povo que contribuiu para a formação cultural de nosso país, mas apresentar através da literatura Infantil como o povo e a cultura africana estão chegando às escolas, nas livrarias e na formação de nossas crianças.

Obviamente que não temos a pretensão de encerramos essa discussão nem apresentaremos aqui uma vasta lista de obras, mas vamos destacar alguns títulos que abordam o tema e refletir sobre o “tipo” de olhar que é apresentado o negro e a discriminação racial às crianças, o quanto tais obras podem colaborar para uma discussão em casa ou em sala de aula e o que poderá agregar de valores culturais aos nossos jovens aprendizes literários.

Embora a valorização cultural e o repúdio à discriminação racial estejam amparadas no Estatuto da Igualdade Racial, tendo o capítulo II uma seção dedicada à Educação e outra à Cultura, não há em nenhum parágrafo algo que obrigue a produção ou o trabalho literário que contenha temas afrodescendentes, apenas o estudo com a cultura real existente na África, abordando nos currículos e na formação do docente a cultura africana; mas onde estão a ilusão, a imaginação e os livros? Porém, encontramos algumas obras (ainda bem) que surgem para destacar o povo descendente de africanos e a sua cultura tão rica.

Trazemos aqui apenas um recorte dessa bibliografia literária infantil para que possamos refletir sobre a verdadeira contribuição que algumas obras trazem para o debate e o incentivo do estudo da cultura africana.

Em A ovelha branca da família, Luciana Garcia – editora Caramelo (2008), a obra brinca com a frase já tão conhecida da população: ovelha negra – como sendo aquela criatura que não se insere num padrão claro, branco, alguém às avessas, quase alguém do mal, o eu que foi rejeitado. Nessa linha, a autora retrata o contrário: uma família de ovelhas negras que tem um novo ser: uma ovelha branca. Essa se considera diferente de sua família tão estudiosa, pois só quer festejar. Um acontecimento na cidade fez seus pais se destacarem pelos estudos e, a partir daí, a ovelha branca sente orgulho em pertencer àquela família de ovelhas negras.

A obra Pretinha de Neve e os Sete Gigantes, Rubem Filho, Paulinas (2009) aborda o conto de fadas já conhecido, mas retrata a criança negra como uma princesa. Contudo, essa princesa não é feliz, pois seu padrasto e sua mãe não brincam com ela e, dessa forma, ela foge e encontra os setes gigantes. A presença negra aqui se dá apenas na menina que é uma princesinha negra.

Se na obra anterior fala sobre discriminação (a ovelha branca que se considerava diferente), aqui nesse livro  a mesma questão é colocada, mas de forma sutil, pois mostra que também é possível termos contos de fadas com crianças negras.

Contudo, foi uma releitura feita nas duas obras, não é a priori uma obra originalmente que foi escrita com personagens afrodescendentes. São duas releituras de algo que já existia. Muitas crianças percebem esse fato e indagam sobre a existência real de uma princesa negra.

Já na obra A ovelha negra da Rita, Silvana de Menezes, Edições MMM ( 2013), surge uma obra somente de imagens, o que induz o leitor a fazer sua leitura a partir das ilustrações. Os desenhos contam a história de uma menina que entre tantas ovelhas brancas, escolheu uma ovelha negra para ser sua companheira de brincadeiras. Até que a menina fica doente e a ovelhinha negra, após uma visita à casa da menina e percebendo a pobreza da família, reúne as ovelhas brancas e decidem ajudar a família da “Rita”. Levam casacos de lã (retirados do corpo), leite, queijo e aquecem o coração de todos. Chamamos atenção aqui para os casacos quadriculados (preto e branco). Sendo assim, apresenta o “negro” como um ser do bem que faz o bem.

Vale destacarmos aqui as obras Dandara e a princesa perdida, Maíra Suertegaray, Imprensa Livre Editora (2012) e Princesa Violeta, Veralindá Ménezes, Editora e Produtora Cultural Príncipes Negros Ltda ( 1ª edição-2008) que retratam princesas negras, mostrando às crianças que existem princesas afrodescendentes e que  não apenas é possível sonhar com uma realidade em que a discriminação possa ser extinta, mas que podemos disseminar, através do trabalho desde a educação infantil, com a ideia de que somente os “brancos” podem ser reis e rainhas. Eis que aqui não encontramos releitura, mas uma história, originalmente, com personagens afrodescendentes.

Em suma, para dar fim a esse pequeno recorte literário, deixamos aqui mais duas obras como um convite à leitura: Nerina a ovelha negra, Michele Iacocca, Editora Ática (2014) – livro de imagens e Karingana wa Karingana – Histórias que me contaram em Moçambique, Rogério Andrade Barbosa, Paulinas (2012), uma obra de grande valor cultural, pois o autor é ex-voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau (África) e traz histórias africanas diretamente ouvidas em seu local de origem.

Agora, deixamos o convite para ler e refletir sobre essas e tantas outras obras que estão chegando a nossas mãos. Será que existe uma forma correta de abordagem literária infantil sobre o racismo e a discriminação racial?