Compre com 1 clique

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Ao raro leitor, que esta página acaba de acessar, faço a seguinte pergunta: é a única janela aberta em seu navegador? Muito provável que a resposta seja negativa, pois essa tal de rede mundial dos computadores oferece tantas possibilidades informativas que fica difícil ater-se apenas a uma.

Sinto saudade do tempo em que juntava sofregamente um dinheiro, de trocado em trocado, migalha a migalha, para comprar aquele então caríssimo CD, correndo na contramão da emergente pirataria. Ficava por meses a fio ouvindo apenas aquele álbum, acompanhando as letras pelo encarte de maneira que elas grudassem no cérebro. Atualmente, a dificuldade se encontra no fato de se manter fiel a uma banda ou estilo musical. Ao abrir o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, ou a revista Rolling Stone, uma enxurrada de bandas que prometem ser interessantíssimas me é apresentada. O resultado: baixo tudo, não ouço nada.

Como não tinha videocassete e o DVD ainda não existia, minha filmografia era baseada em Sessão da Tarde e Tela Quente. Ficava maluco esperando por aquele filme dublado anunciado meses antes de ser transmitido. Chegar à escola sem ter assistido O Grande Dragão Branco, com o lendário Jean-Claude Van Damme, que havia passado no período vespertino do dia anterior, era o maior dos crimes. Agora, não é preciso ser um grande entendedor de informática pra baixar o filme que quiser em poucos minutos. Precisei comprar um HD externo, dada a quantidade de filmes baixados, dos quais, claro, poucos foram vistos.

No início de minha adolescência, esperava ansiosamente pela chegada mensal de cinco gibis da DC Comics, frutos de uma assinatura dada como presente por uma bendita tia. Devorava tudo em menos de dois dias. Na expectativa da chegada do mês seguinte, relia todas as edições. Hoje, a facilidade para comprar online e a variedade de títulos é tamanha, que há várias histórias em quadrinhos encalhadas em minha prateleira, esperando pelo longínquo dia no qual serão lidas.

Nessa mesma estante, obras literárias também se encontram em uma crescente fila de espera. Os culpados, além do meu consumismo literário compulsivo, são os botões virtuais “compre com 1 clique” das livrarias Cultura e Saraiva. Bons tempos aqueles em que eu só lia livros da biblioteca da escola, a maioria da saudosa Coleção Vaga-Lume. Lembro-me de ter lido o drama dos cortadores de cana no romance Açúcar amargo, da autoria de Luiz Puntel, umas três vezes seguidas. Também me deliciei, entre um livro e outro, com

O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida (Editora Ática, Coleção Vaga-lume)
O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida (Editora Ática, Coleção Vaga-lume)

releituras do misterioso O escaravelho do diabo, escrito por Lúcia Machado de Almeida. Os volumes apresentavam capas com bordas gastas, tamanha era a rotatividade das edições. Dá certa amargura ver tantos livros novos, intocados, com as páginas brancas, parados aqui em minha pequena biblioteca.

O foco talvez seja um dos maiores dramas desses tempos tão modernos e cibernéticos. Ler, ver e ouvir tanta coisa, ao mesmo tempo, é o mesmo que ser, de uma só vez, católico e protestante, são-paulino e corintiano, nazista e judeu.

Ou seja: dá errado.