A “conficção” de um pai

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E é uma criança – como todo recém-nascido – feia. É difícil imaginar que daquela coisa mal-amassada surja como que por encanto algum ser humano, só pela força do tempo. E no caso dele, ele pensa – e quando pensa acende outro cigarro -, a troco de nada. Para dizer as coisas claramente, ele conclui todos os dias: essa criança não lhe dará nada em troca. Sequer aquele prazer mesquinho, mas razoável, de mostrá-lo aos outros como um troféu, já antevendo secretas e inauditas qualidades no futuro daquele (que seria um) belo ser. Se eu escrever um livro sobre ele, ou para ele, o pai pensa, ele jamais conseguirá lê-lo.

Só há pouco tempo é que fui ler O Filho Eterno, a obra-prima do escritor Cristovão Tezza, que ganhou os principais prêmios literários do país e conquistou um lugar na história da literatura brasileira. Em 1980, um jovem estudante de Letras, de 28 anos, que acalentava o sonho de ser um escritor renomado, aguarda a chegada de seu primeiro filho. A criança, tão esperada, nasce com síndrome de Down.
Pode um pai não querer o próprio filho porque ele é diferente, sentir vergonha dele, ressentimento, enxergá-lo como um estorvo, a destruição de sua vida e até chegar a fantasiar a sua morte? Sim. A gente sabe que é possível. O mundo está repleto desses casos. Entretanto, O Filho Eterno é muito mais do que isso: o que se tem é a jornada de um homem confrontado contra os seus medos, preconceitos, fraquezas e desejos, enquanto descobre a paternidade e o amor incondicional.
O texto arrebatador, por vezes cruel e chocante, ganha nuances quando se sabe que Felipe, este é nome do filho eterno, é homônimo ao filho de Tezza, que é portador de necessidades especiais. Pai-narrador-escritor e filho-personagem-narrado. Ao terminar o livro e relê-lo, confesso que suei frio; jamais havia me exposto daquela forma; o material biográfico me escancarava para o mundo. Mas o terror maior era que a atração do tema apagasse o seu sentido literário e romanesco, disse  o escritor.
A paternidade e a escrita são opções éticas, escolhas pessoais fortíssimas. Ambas exigem coragem e é essa a façanha de Cristóvão Tezza: coragem para pôr no papel feras, anjos e uma legião de demônios que habitava a sua topografia interior, como poucos ousaram a fazer. Mas O Filho Eterno não é confissão. É experiência, memória, imaginação, literatura. É sempre Tezza e sua ficção. É uma conficção!