Conto: Chapeuzinho Traumatizada

chapeuzinho-vermelho

Depois daquela visita à casa da vovó, Chapeuzinho Vermelho nunca mais foi a mesma. Andava triste, com medo de tudo, não queria mais sair de casa e nem conseguia dormir, pois tinha pesadelos horríveis com lobos que a devoravam. Passou por um longo período de depressão. Precisou de acompanhamento psicológico para melhorar.

– Então, Chapeuzinho… Quando começaram esses seus ataques de nervosismo?

– Já faz algumas semanas. Foi depois que eu voltei da visita à vovó, naquele dia.

– E o que aconteceu nesse dia?

– Bem… Eu estava andando pela trilha da floresta quando um lobo apareceu. Ele era enorme e peludo e… – estremeceu – Desculpe.

– Tudo bem. Pode falar.

Ela respirou fundo, para tomar coragem.

– Ele falou comigo, me perguntou o que eu estava levando na minha cestinha. Eu respondi que eram doces para a vovó. Ele ficou curioso e quis saber qual era o caminho para a casa da vovó. Sabe, na hora eu nem desconfiei de nada. Eu sou tão inocente! Então eu expliquei o caminho a ele, que quis apostar uma corrida comigo. Eu nem liguei muito. Continuei na trilha, distraída, olhando a paisagem, cantando.

– Espere um pouco. Você disse que o lobo FALOU com você?

– Falou sim.

– Você tomou alguma coisa antes de sair de casa?

– Não. Quer dizer, só o café da manhã. Pão e suco. Por quê?

– Por nada. Prossiga.

O psicólogo anotou no caderno: alucinação. Chapeuzinho continuou:

– Quando eu cheguei lá, eu reparei que a vovó estava um pouco diferente. A voz rouca, os olhos esbugalhados, a boca larga… Eu pensei que fosse por causa do resfriado. Perguntei por que ela estava assim tão mudada e aí eu descobri: era o lobo! Ele pulou para cima de mim. Eu corri, saltei a janela, desesperada! Fui procurar ajuda. Tinha um caçador ali perto. Ele me socorreu, voltou comigo até a casa da vovó. O lobo estava dormindo. O homem pegou um machado e abriu a barriga dele. Vovó estava lá dentro, vivinha! Fiquei tão aliviada! Depois deixamos o caçador se livrar do lobo, eu nem quero saber como… Graças a Deus ficamos bem. Mas eu nunca vou esquecer aquela cara do lobo, antes de tentar me devorar. Pensar que eu quase morri! Por um triz!

Ela estava pálida e suava frio. Eram memórias dolorosas. O psicólogo observava atentamente.

– E depois disso? Você voltou para casa?

– O caçador fez a gentileza de me acompanhar na volta. Nossa, eu estava um trapo! Mal conseguia falar, ainda não estava acreditando naquilo tudo. E mamãe… Ela nem percebeu, ela nunca percebe nada! Só reparou que o meu capuz estava rasgado na ponta, ainda brigou comigo! Reclamou também da minha demora, disse que o almoço já estava frio, um monte de coisas que eu não prestei atenção direito.

– Você contou essa história para ela?

– Contei. Mas ela não acreditou. – olhou para baixo, chateada.

– Fale um pouco mais da relação com a sua mãe.

– Não é boa não. Mamãe não me entende, não me ouve. Ela só quer saber dos afazeres dela. Só sabe dar ordens. Manda doces para a vovó, mas me obriga a comer legumes. Eu não acho nada justo. Desse jeito, vovó vai acabar ficando diabética! E por que eu tenho que levar as coisas para ela? Eu sou uma criança e mamãe me manda para a floresta perigosa, cheia de lobos! É muita falta de noção! Assim eu nem preciso de madrasta má.

– Então você acha que a sua mãe não se preocupa com você?

– Nem um pouco. É tão difícil! Mas eu disse a ela que não volto mais naquela floresta, se ela quiser que vá sozinha! E seria bem feito se o lobo a devorasse!

– Fique calma.

Ela suspirou e sussurrou um pedido de desculpas envergonhado pela exaltação.

– Não precisa se desculpar, é assim mesmo. Mas e com a sua avó, você se dá bem?

– Sim, eu gosto muito dela. Sempre vou visitá-la, só que agora… Depois do que aconteceu, eu tenho muito medo de sair de casa sozinha. E ela não pode sair da casa dela também, porque já está velhinha, então nós não nos vemos mais. É uma pena. Vovó me dá muitos presentes, ela costura roupinhas para mim e me dá doces escondido. Esse capuz vermelho foi ela que fez para mim. Na época, eu adorei, só que mamãe estragou tudo.

– Como assim?

– Porque eu usava muito, ela começou a me chamar de Chapeuzinho Vermelho e foi daí que surgiu esse maldito apelido! Agora ninguém mais sabe o meu nome de verdade! Sem o chapéu, ninguém me reconhece. Até meus colegas zombam de mim, é terrível.

O psicólogo anotou: bullying. Em seguida, perguntou:

– A sua avó não confirmou a sua história sobre aquele dia?

– Não. Na verdade, é complicado. Vovó já está no começo do mal de Alzheimer. Ninguém vai acreditar nela, mesmo que se lembre de alguma coisa. Entende a minha situação?

Houve um momento de pausa. O terapeuta releu suas anotações. Olhou para a menina e disse:

– Muito bem, Chapeuzinho… Ou seja qual for o seu nome.

– Não tem problema, eu já me acostumei.

– Vamos nos encontrar duas vezes por semana para conversar melhor sobre essas questões. Está bom para você?

– Tudo bem. Posso pegar um pirulito?

***

Ilustração exclusiva para o conto por Giovana Christ.



 

 

Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
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