Conto: Conversa de corações batidos

amor - Ellen Kiechle

A vida tem diariamente me cansado. Fico irritado ao pensar em repetir todas as atividades ordinárias: tomar banho, escovar os dentes, ir pro trabalho e ter que te encontrar quando ninguém mais está por perto. Viver é tão breve e estamos o desperdiçando nos escondendo do mundo simplesmente porque não parecemos certos diante do resto. Alcançamos o auge de nossas vidas. Carreiras estabilizadas, mestrados a caminho, mas e a felicidade? Somos felizes nos poucos momentos que compartilhamos dentro de um pequeno quarto de hotel às segundas, quartas e sextas. Se em algumas horas de três dias da semana sendo felizes continuamos vivendo, imagina poder sorrir e ser verdadeiro todos os dias? Já pensou quantas coisas poderíamos fazer juntos? O mundo tem tanto a nos oferecer quanto a nos dar medo. Mas por favor, não sucumba aos caprichos da maioria. Pense em si, que seja por alguns minutos. Desconsidere seus pais, seus amigos e sua carreira. Desconsidere o homem que supostamente lhe levará ao altar daqui a dois meses. Tente se projetar em um futuro próximo. Com quem você se vê? Como você se vê? Ele está nos seus planos por sua vontade ou por livre e espontânea pressão mundial? Reflita sobre isso com carinho.

Largue a razão de vez. A vida é sua, não dos outros. Permita-se sentir, minha flor. Feche os olhos e veja nosso tão sonhado amor de tantas rugas florescer em sua mente, com netos correndo pela casa, filhos felizes e inúmeros porta-retratos pendurados nas paredes e sobre as estantes. Consegue me imaginar velhinho, com cabelos brancos, usando uma bengalinha e sorrindo da mesma forma que sorri em nosso primeiro encontro? Também não. Me contentarei com o presente então. Esse é só o começo do fim de nossas vidas, individualmente e como um casal, e é assim que você quer iniciar? Mostre-me que estava errado em todas as vezes que lhe chamei de louca. Corremos incessantemente para nos amarmos sem fim, sem mais, sem dor e agora você me diz que simplesmente não valeu a pena? Não compro essa história. Tenho certeza que te conheço melhor que seu pseudo-marido e, mesmo assim, ele sai ganhando. Por quê? Dinheiro, talvez. Sou um mero professor de ensino médio, que não é reconhecido nem por quem o ama. Como competir com um engenheiro que ganha vinte mil reais por mês? Acho que Deus não entendeu bem quando pedi apenas um amor. Desejei alguém apenas que me aceitasse, e você me aceitou, até o mundo nos rejeitar. Mas não acredito em nada disso. Talvez seja apenas minha cabeça enlouquecendo com tanta contradição.

Questione-se bastante antes de voltar a me encontrar. Um último pedido: lembre-se daquela vez em que alguém bateu à porta de nosso quarto. Lembre-se da sensação de medo, é verdade, mas também de alívio que nos atingiu por finalmente podermos terminar a nossa fuga. Daquele momento em diante, estávamos livres para sermos e vivermos da maneira que sempre desejamos e que o mundo insistiu em rejeitar. Senti em seus olhos uma esperança que hoje foi recolocada em algum lugar bem fundo no seu ser, mas que ainda existe. O que é maior que o amor, afinal?

***

Ilustração exclusiva para o conto por Ellen Kiechle.





Sofia Alves
Uma carioca que brinca de escrever sempre que pode. Aluna da Faculdade de Letras da UFRJ. Acredita que a Arte é o refúgio para nossa ordinaridade, como bem disse Schopenhauer.
Sofia Alves
Uma carioca que brinca de escrever sempre que pode. Aluna da Faculdade de Letras da UFRJ. Acredita que a Arte é o refúgio para nossa ordinaridade, como bem disse Schopenhauer.
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