Conto: Data Especial

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Quando ela entrou no ambiente, todos os olhares voltaram-se à linda moça de vestido branco. Sua expressão facial era séria, tensa; atitude compreensível devido à emoção do momento. O pai, o simpático senhor a seu lado, dava-lhe força e coragem, apertando-lhe as mãos entre as suas. Sempre fora seu fiel conselheiro.

Caminhavam lentamente pelo espaço amplo, através de um corredor que parecia infindável. O tempo que levaram para cruzá-lo foi o suficiente para que os confusos pensamentos fervilhassem em sua mente. Os curiosos olhavam-na com interesse, provavelmente cogitando hipóteses a seu respeito ou fazendo comentários maldosos. Aquilo a incomodava. Tantas coisas mais a perturbavam externa e internamente…

Estaria fazendo a escolha certa? Tinha angústias, dúvidas. Não estava pronta. Teve vontade de soltar o braço do pai e fugir, sair correndo dali, libertar-se. Ideia besta. Não era hora para arrependimentos. Suportaria tudo até o final.

– Vai ser difícil no começo, mas depois você se acostuma com a nova… Situação.

– Eu sei, papai. Obrigada por me acompanhar.

– Eu não podia deixar de…

Foi então que olhou para ele: o amigo, o namorado, o amante… E tudo o mais pareceu pequeno. Ele estava bonito como no dia em que o conheceu. Costumavam ser felizes. Como foram parar ali? Lembrou-se do pedido de casamento. Um filme curto passou pela sua cabeça. O primeiro beijo, as viagens, as festas, as brigas… Sim, as brigas. Algumas violentas até. Ofenderam-se tanto por motivos tão estúpidos.  Mas será que a alegria de estarem juntos superava as desavenças? Era a pergunta que fazia a si mesma todos os dias. Talvez só o tempo pudesse lhe dar uma resposta satisfatória.

Enfim, precisava dar esse passo. Seria bom, importante para ela. Era a coisa certa a fazer; ele também concordara passivamente, sem pressão de nenhum dos lados. Mesmo assim, não podia negar que aquela ideia apavorava-a um pouco. Tinha medo de que não conseguisse adaptar-se à nova realidade. Pensamento bobo, pois nada é definitivo nessa vida. Ela sabia, já sentira na pele a sensação de fim da eternidade.

Apressou o passo. Queria acabar logo com aquilo. Finalmente chegou à frente da sala imensa.

– Boa sorte, filha.

Soltou a mão do pai, trêmula. Seguiu até seu lugar. Sentou-se ao lado do advogado e a sessão teve início.