Conto de Minas: você come pássaros?

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Você “come pássaros”?

Arte: Alex Trimurti

Arte: Alex Trimurti

Pássaros na boca é um conto do livro homônimo (2012) da escritora argentina Samanta Schweblin, obra publicada no Brasil pela editora Benvirá e traduzida por Joca Reiners Terrón. Samanta traz as influências do cinema para suas histórias e cria imagens peculiares, que causam estranheza. Comparada pela crítica com autores do realismo fantástico, como Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar, não reivindica para si esta classificação. Segundo a própria Samanta, ela transita pelo inusitado, mas não ultrapassa a linha do impossível, permanece explorando situações super-realistas.

Seu estilo dinâmico, ao contrário do que se pode previamente julgar, não torna o texto superficial. A autora afirma que é possível ser profundo, porém, sem perder a velocidade da narrativa, que nos mantém presos e Samanta também concorda que esse dinamismo é para prender um leitor cada vez mais suscetível a distrações.

Pássaros na Boca conta a história de uma jovem que adquire um hábito bizarro: Sara come pássaros. A trama toda se desenvolve em volta desse acontecimento extraordinário quando é descoberto por seu pai. Aliás, o conto transcorre sob a perspectiva dele.

A figura do pai, Martín, é escusa e até um pouco fria. A maneira como trata Silvia, a mãe de Sara, chega a beirar o irresponsável. Quando se refere ao hábito alimentar da filha, sempre a aproxima de Silvia, como que tentando atribuir a ela tal situação. O contato que estabelece com a ex-mulher é carregado de ressentimento, como quando ele dá a entender a natureza manipuladora e controladora dela. O que se pode perceber é que Silvia sofre muito com o hábito de Sara; tenta manter proximidade e auxiliar Martín a lidar com isso, até seu limite. Ou age manipulando Martín para que ele tome uma atitude cuidadora em relação à filha – mesmo que tal atitude se relacione ao hábito detestável.

Martín compara sua filha à figuras pitorescas, mas também a elogia, transparecendo, muitas vezes um comportamento mecânico de afeição. É observador e descreve o estado de saúde da jovem, porém é lento em sua manutenção; e Sara, de raras falas, é o grande mistério da história – vista de longe, sem a oportunidade de se explicar, fica a maior parte do tempo parada, observando o jardim, como pássaro em gaiola, como prisioneira de alguma situação, autoencarcerada. Esse ato peculiar, se entendido como fuga, pode ser transportado para a vida de todos nós.

E o pai também possui suas manias. Sim, ele passa muito tempo escolhendo os enlatados no supermercado e esse é seu local de passeio, onde parece ficar vagando à procura de soluções. Se expressando assim, Martín traz a reflexão sobre loucura e normalidade. Quando compara a alimentação diferenciada de Sara com a ideia do canibalismo, da gravidez precoce ou do abuso de drogas para se consolar, produz um questionamento. Principalmente por se apresentar como um personagem frio, confuso, solitário, “anormal” e ser terrivelmente familiar.

Cada pessoa encontra suas maneiras de lidar com a vida. Para a pequena Sara é comer pássaros, para o pai dela é ficar horas vagando no supermercado. E para você? Como você “come pássaros”?

Ao abandonar sua agência de design e se dedicar à escrita e às aulas de literatura, Samanta, que foi premiada por seu conto La furia de las pestes, na edição da Casa de las Américas de 2008, nos brinda com um estilo rápido, dinâmico, quase um roteiro de cinema, que nos incomoda daquela maneira gostosa que o melhor da literatura faz.