Conto do Medo

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1846
Conto do Medo 1
Ilustração de Felipe Menegheti

Quando eu era criança, morria de medo do escuro. Acho que quase todo mundo já passou por isso. Quando eu apagava as luzes tinha a sensação de que um monte de gente me observava ao redor e eu não sabia quem. Foi aí que eu comecei a entender que a pior sensação de todas é se sentir sozinho no meio de uma multidão.

Às vezes, quando o medo era tão forte que me fazia suar, eu gostava de acender uma vela. Assim eu podia sentir o cheiro do fogo e olhar praquela chama como se não existisse mais nada ao meu redor. Éramos eu e o fogo, era eu, dentro do meu próprio mundo. Ali, sem saber, eu descobri que o melhor jeito de não sentir medo é olhar pra dentro dos próprios olhos e entender tudo o que acontece em volta sendo apenas a resposta daquilo que você mesmo enxerga. E assim eu me via quente, meio eu meio fogo, sem o medo frio que aprisiona os pés.

Daquele jeito, até o escuro era bom e eu passei a amar a noite como a parte mais silenciosa do dia. E aí veio o medo da solidão. Eu corria das horas sozinhas com o desespero de quem foge do sol escaldante queimando a pele. Ela me perseguia, implacável, incansável. Eu suava de cansaço e chorava por não querer ceder. Eu estagnei, não conseguia mais fugir, não conseguia fazer mais nada sem que meus olhos parecessem dois cacos de vidro que tremiam, sem saber viver só.

E enfim, eu cedi. Olhei pra todos os lados e sentei quieta no banco mais distante do lugar mais vazio e silencioso que eu pude encontrar. Ali eu retirei o vidro que protegia meus olhos e deixei que eles vissem e dissessem todo o tipo de coisa. Joguei por perto uns papeis e fiquei por lá. Foram horas. A solidão me abraçou com a força de um amante desesperado que não sabe ao certo a hora de te deixar respirar. E eu a abracei de volta. E ali nos amamos. Depois do amor eu voltei a caminhar. Se um dia você puder abraçar seus próprios medos vai entender que o aconchego do abraço vicia mais que qualquer ilusão bem planejada.