Conto: Irrigando ao vinho

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Naquele sábado, o calor do parque enfrentava bravamente a barreira entre o escaldante e o insuportável. Mas ele estava de calças compridas. Não gostava de suas pernas. Eram demasiadamente brancas e sem pêlos. Nenhum. E eram frias também, meio lagartinosas. Se aquele homem fosse um pecado, seria a cobiça. Assim como um réptil, ele se escorregava lentamente por entre cantos, frestas e sombras, observando as pessoas à sua volta e localizando um alvo, com os olhos precisos como radares potentes. Selecionava cuidadosamente, com uma calma preocupante, seus objetos de admiração. E naquele dia, sentado no banco de madeira do parque, devidamente posicionado fora da luz, ele acendeu um cigarro. Tragou forte a fumaça, suspirou, sentiu o calor dentro dos pulmões e, por fim, soltou a fumaça e, no meio da névoa momentânea que criou, começou a observar as belas mulheres passantes.

“Velhas”, ele pensou, com um sorriso de desdém. “Em poucos anos, no máximo dois, estarão velhas demais até para serem consideradas como mulheres. Serão, meramente reprodutoras, alguns úteros ambulantes.“. É fato que ele já passava dos trinta com folga, mas é fato, também, que sua cobiça doentia almejava meninas de, no máximo, um certo nível de malícia. Mas não se agradava das mais maduras. Era apreciador das jovens e, mais do que isso, das que tinham um ar infantil, que ainda tinham suas atitudes ferrenhamente arraigadas a uma inocência, uma ingenuidade perene. Apreciava-as sim, quase como a um bom vinho. Tinha sido bem criado, fortuna, riqueza, família abastada, abundância. Tão farto de ter tudo o que podia, começou a e encantar pelo ilícito. Primeiro o álcool. Depois experimentou alguns outros entorpecentes, mas não lhe apetecia a sensação de poder comprá-los e de, por conta deles, perder a potência de seu radar localizador. Buscava acintosamente algo proibido, a transgressão e o rompimento. Manteve, como marca incontestável de sua busca infinita, o cigarro – que, para ele, acrescentava uma pitada de excentricidade à sua persona comum e prosaica – e o vinho, que tomava em qualquer ocasião, mesmo nas que pediam sorvete e refresco.

Depois de fumar seu terceiro cigarro e direcionar seu sarcasmo e amargura a mais uma meia dúzia de mulheres, notou que os irrigadores do parque acabavam de ser acionados. O sol estava a pino, nada mais natural. A grama estava seca e o calor castigava. Ligar os irrigadores fora de hora já era uma necessidade. Acendeu seu quarto cigarro, tragou, fechou os olhos e, quando os abriu de novo, achou. Lá estava seu espécime. “Espécime, não.” ele se corrigiu, prontamente. “Diversão. Diversão é melhor.”

Era uma garota, devia ter seus dezoito, dezenove anos. Mas brincava sem o menor pudor perto do irrigador. A água jorrava a molhava sua blusa de alcinhas florida e sua bermuda jeans, deixando-os colados ao corpo de forma quase sugestiva. Seria, para muitos, é claro, mais indicativo e tentador se ela não estivesse pulando com alegria tangível para um lado e para o outro do irrigador, buscando satisfazer o mais neutro dos instintos: refrescar-se. Mas não para ele. A pureza com que ela se movimentava, quase dolorosamente infantil, era altamente afrodisíaca. “Que beleza”, ele pensou, tragando o cigarro e observando a mocinha por entre a fumaça, que conferia a ela um ar entorpecente e distante, como uma miragem. “Parece ter uns quinze anos.” Menos da metade da sua idade. Quase poderia ser sua filha. Arrepiou-se ao pensamento. Aquilo sim era o que um homem precisava para ser feliz. Alongou o pescoço e colocou os óculos escuros, para poder observar com mais liberdade.

Os cabelos morenos e ondulados da pequenina jovem que brincava na frente do senhor reptiliesco pingavam água, suor e o sol, tal como também atraído pelo magnetismo daquela cena, parecia iluminá-la mais, tal como um foco de luz em um artista de jazz no palco. Finalmente, ela se deixou cair na grama molhada, debaixo da água dos irrigadores. Ele não via mais o rosto tranqüilo daquela menina-moça, mas podia sentir que ela sorria.

Sr. Lagarto se preparava para uma aproximação. Jogara fora a bituca do cigarro, tragado até o seu final, guardou os óculos cuidadosamente dentro da bolsa que carregava. Quando tornou a olhar para a direção da Moça, viu um homem do lado dela. Num impulso, retirou mais um cigarro e fumou, sem tanta pompa e elegância premeditada desta vez. Mostrava um pouco mais da ira que lhe absorvia quando alguma de suas diversões priorizava outra companhia masculina.

O agravante era a beleza do rapaz. O Acompanhante da Moça redefinia a noção dos parâmetros de beleza. Era tudo o que o Sr. Lagarto sonhara ser um dia. Alto. Forte. Sorridente. Carismático. Tinha pêlos e a Moça. E era feliz. Transpirava felicidade.

Sr. Lagarto sabia que aquele casal era uma aberração da natureza. Tanta beleza e sintonia gerariam a perfeição. Ele, com seu olhar tão perspicaz, sentiu que era hora de agir. O casal acabara de sair de perto dos irrigadores. Aproximou-se. E como sabia ser simpático! Conversava tanto que não parecia remotamente tão estranho quanto era.

Finalmente, ofereceu um pouco vinho aos dois. Descobrira que a Moça tinha, na verdade quase vinte anos. De perto parecia ter quatorze, de tão mínima e resplandecente que era. O Acompanhante, belo e vistoso, chegava quase a ser suculento. E isso mexia no âmago da ira do Sr. Lagarto.

Conforme era dada a expectativa, o Acompanhante aceitou por gentileza enquanto a Moça negou pelo pudor. Depois de duas taças de um vinho que, coincidentemente ou não, dada a habilidade do Sr. Lagarto ou não, ninguém notou que vinha de uma garrafa diferente da qual este último bebia o próprio vinho. “Vinho especial para o Acompanhante da minha diversão”. Ele pensou, com um sorriso.

Sr. Lagarto retirou-se humildemente, com um sorriso cordial digno da realeza. Quando estava a quase uma milha dali, começou a ouvir os gritos desesperados da Moça e também a respiração ofegante do Acompanhante. Depois ouviu ainda mais longe a tosse. E por fim, não ouviu mais nada. Sorriu. Colocou os óculos. Chegou em casa, deitou e cochilou o sono dos tranqüilos, sentindo que tinha deixado mais uma Moça disponível para o mundo, livre e presa somente aos pensamentos dele, sem qualquer sombra de um Acompanhante.

“Preciso ir ao parque mais vezes…” ele pensou, antes de num sono profundamente sereno.