Conto: Metaparentesiação – Vilto Reis

Fazia muito tempo que eu não postava um conto por aqui no Homo Literatus; o motivo é que tenho trabalhado em contos longos, que não seriam interessantes como postagem por aqui. Ao ter a ideia do Metaparentesiação, eu já sabia que ele viria para cá; e aqui está. Boa leitura para vocês. Digam o que acharam nos comentários!

***

(No decorrer de minha vida, sempre me senti entre uma coisa e outra, entre parênteses (cercado pelas barreiras do que sou (impossível de se definir, de se entender))).

Então um dia, eu olhei pra dentro de mim e vi cavernas, postas ao fim das ruas sem saída dum labirinto (eram confusas (pequenas curvaturas dentro das curvas maiores)). E no interior, vi criaturas se arrastando (como coisas dentro de coisas). Senti-me um ser inadaptável, inepto a continuar do lado de fora, por ali, ou por aqui, indiferentemente. (Por hora, enveredei-me ainda mais para dentro de mim mesmo (e só o fiz, pois sabia que não havia nada a ser feito (e quanto mais mergulhava, menos eles entendiam))). Mas este foi apenas o começo.



(Só que aí, fui arrancado, puxaram-me pra fora); e aos dois, vi rodas, quatro, passarem por mim (porém enquanto, pequeno, apenas assistia (pois lá estava eu, entre parênteses novamente)); aos três, era responsável pela minha toalha, como se a incompreensão do que me cerca, do espaço em que existo, passasse a me rejeitar (não da mesma forma que um adolescente se sente rejeitado, por efeito dos hormônios (era lancinante, algo que brotava do fundo, das cavernas (ah, uma sombra dentro de mim (uma sombra tão poderosa que engolia a escuridão))); aos seis, uma menina me tomou pela mão e mostrou a latrina da máquina anticriacional (mas antes disso, eu quase chorei, novamente (observado de soslaio pela ação natural das coisas)); aos doze, aos treze, aos catorze, olhei incontáveis vezes para o poço sem fundo e flertei com ele (eu queria voar (o que pode ser entendido como escapar dos parênteses em que os outros me encurralaram (o que não pode exatamente ser entendido como que se eu não gostasse (e o que pode, e deve ser entendido, como mera consequência da vida (embora também não ateste que seja destino ou algo do tipo))))).

Mas eles queriam. Então eu corri para todos os lados e jamais quis ser um símbolo, uma marca, um sinal; eu queria simplesmente estar ali, entremeio a uma frase de efeito, ao verso de um poema ou de uma música; ou à explicação de um conceito.

(Talvez fosse isto).

(É).

Eu queria ser algo que eles acharam que eu jamais poderia ser diante daquilo que eu era, mas como eu fui e fiz e me tornei e consegui, acabei sendo exatamente o que eles duvidaram que eu poderia ser, mas isto foi aos vinte.

Porque aos quinze, o primeiro nômade conceitual se colocou ao meu lado, e ele me disse que eu deveria/poderia ser um parênteses (e isto não implica na afirmativa ou hipótese de que ele tivesse qualquer intenção de ser o conteúdo dos parênteses, ou algo do tipo (mas em sua constante de vírgula, quebrando a futilidade dos pensamentos que não param, questionando-os, várias vezes, ele abriu o espaço para mim, parênteses)); mas nômade que ele era, passou. Aí eu estive algum tempo num lugar de extremos, a intersecção simbólica de duas retas, mas não me adaptei. Foi então que resolvi correr atrás de um canudo, mas para minha surpresa, acabei conhecendo outro nômade conceitual; e ele me disse que não importava que tipo de coisa eu fui, ou se era, ou se deveria ser… e então eu simplesmente fui.

E outra vez, pude entrar em minha caverna (a mesma do começo, donde saí, ou donde entrei (não que haja diferença)). E cada vez me afundei mais nela, mas quando vinha à superfície, trazia muito entre os parênteses. O problema a partir daí (e eu já estava com vinte (e isto era/é um problema)) é que letras vazias não justificam parênteses cheios).

(Agora, cada vez mais eu fico dentro da caverna. Aqui, sombras se arrastam. Aqui, estou completo; completamente, entre parênteses).



Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
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