Conto: O Barulho da Foda

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Ele apontou meu ombro e pediu que limpasse as caspas. Agradeci a gentileza. Pediu uma cerveja para nós dois. Deixei claro qual era a minha orientação sexual e ele falou “relaxa, cara, se quisesse te comer pediria um Martini”. Esse era Tom. O celular dele era 9751-5599. Acabei me esquecendo de limpar as caspas do ombro. A lambida na orelha que viria a nos separar aconteceu depois.

“Sabe qual o barulho da foda? O barulho perfeito dela?”, perguntou. Eu disse que sim. “Reproduza”, solicitou. Resolvi que, ali, ao lado de um completo estranho, poderia fazer aquilo que em outras ocasiões julgaria vulgar. Então, bati com as costas da mão direita na palma da mão esquerda. Primeiro, bem devagar; depois, acelerando e encurvando meu corpo na direção das próprias mãos, como se quisesse esconder o suposto som do coito das outras pessoas do bar. “O que você está fazendo?”, questionou. Senti vergonha. “Não!”, ele disse, “você não sabe como é”. Fiquei vermelho, mas isso não o comoveu, e finalizou com um “Não me prometa aspargos se só conhece palmitos!”. Expressão não conhecida por mim até o momento.

Foi aí que ele me deu o celular dele, justo quando eu ainda estava vermelho de vergonha. “Anote meu número”, ele disse. “E me dê um toque”, complementou. Assim o fiz, sem saber mesmo o porquê. 9751-5599. Isso foi antes da lambida na orelha.  Antes de questioná-lo qual era o verdadeiro barulho da foda e antes de eu me arrepender de ter dado meu número. Não nessa ordem.

“É simples, o barulho perfeito de uma boa trepada é assim…”. Levantei a mão, em sinal de interrupção, receoso que ele começasse a gemer. Tom me olhou e prosseguiu com a ação. Uniu o polegar e o indicador em formato de pinça e levou-os até a boca. Agarrou o lábio inferior e começou o movimento frenético de puxar o lábio para frente e empurrá-lo de volta à posição original. E assim por diante.

“Se o barulho não for esse, ela não está lubrificada o suficiente. Ou você está sem saliva”

Da distância que estava, não ouvia o referido som. Então, aproximei o ouvido da boca de Tom. Foi aí que ele lambeu minha orelha. Era uma língua grande e molhada. Quase caí do banco com o susto. Levei a mão à cabeça de forma muito incisiva para secar a saliva e acabei dando um tapa em mim mesmo. Fui embora sem me despedir. Com a orelha babada e vermelha.

“9751-5599” avisava o visor do meu celular. E as caspas agarradas na ombreira do casaco eram frutos de puro estresse.

***

Ilustração exclusiva para o conto por Giovana Christ.